Guia da Semana

Loucura e previsibilidade

O colunista conta suas impressões sobre o espetáculo Loucura, dirigido por Marcelo Lazzaratto



Em cartaz no Viga Espaço Cênico, o espetáculo Loucura, da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico, tem direção assinada por Marcelo Lazzaratto e interpretação de Gabriel Miziara.

A montagem traz à cena elementos de um suposto teatro de vanguarda. Apegado a "regras" de como deve ser a cena contemporânea, o texto é uma junção de trechos de Fernando Pessoa, Santo Agostinho, Rilke, Dostoievski, Guy de Maupassant, Jung, Shakespeare, Camus, Büchner e Artaud.

Há certo risco na construção dramatúrgica por meio da colagem textual. A previsibilidade das escolhas acaba enfraquecendo a possibilidade de ir além da construção narrativa para gerar de fato um instrumento poético do imaginário feito em palavras.

Não há surpresa no monólogo hamletiano do "ser ou não ser", por exemplo, já tantas vezes explorados por centenas de contextos por aí. E igualmente não vão além as escolhas dos outros autores, mais próximos a uma primeira impressão preocupada com a citação de trechos corretos do que propriamente ao estudo da estética que retrataram.

A opção por construir a cena em espaço limitado fortalece a importância do ator. Contudo, a clara influência do teatro-dança de Pina Bausch pode ser questionada quanto sua finalização. Movimentos que se repetem com o vigor físico artaudiano, desenhando coreograficamente gestos narrativos, parecem ser suficientes para mais esta citação, mas não o são.

A dança em Pina Bausch vai além da expressividade corporal para elaborar um diálogo conciso com a espacialidade e assim determinar o sentir. Ao ser reapresentada, traduz a necessidade do discurso poético em se reler em novas possibilidades discursivas. Não há gratuidade na repetição e sim o desdobramento sobre si mesma na busca íntima do intérprete em ser tradução múltipla.

Não é o que acontece em Loucura, quando a gestualidade coreográfica se contradiz na tentativa de elaboração discursiva e a repetida expressão corporal enquanto representação.

Tratar a loucura como conseqüente ao esclarecimento perceptivo sobre o mundo e a vida é antes uma interpretação modernista que vai ter suas origens no século XVIII e auge na passagem para o século passado. E muitos são os fatos históricos e desenvolvimentos científicos que transformaram o entendimento dessa "loucura moderna".

A compreensão dos fatos pós-guerras trilha caminhos complexos inimagináveis em outras épocas, envolvendo novos aspectos humanos e sociais. Conseqüentemente, também a loucura proveniente da percepção aguçada deve ser outra.

Os loucos profetas agora não são mais espectros intelectuais trancafiados pelo perigo de suas retóricas, estão nos semáforos e ruas urbanas, berrando ou cochichando contra a globalização, conspirações e demônios, feitos mendigos e dejetos ignorados pela sociedade, abandonados em seus delírios ridículos. Não ameaçam mais a ordem e o sistema. Seus provérbios são inúteis.

Estamos, na verdade, mais próximos de Beckett do que de Artaud. E os loucos de hoje talvez sejamos nós mesmos, esquecidos uns dos outros, em nossa insistência muda e surda pelo sobreviver ao tempo.

Leia as colunas anteriores de Ruy Filho:

? Mais Quero Asno... e os recursos do fomento


? El Chingo e os fantasmas de cada um


? Com prosecco e qualidade


? O teatro candango e a morte de todos os dias


Quem é o colunista: Ruy Filho.

O que faz: diretor e dramaturgo.

Pecado gastronômico: carpaccio de pato do Piselli.


Melhor lugar do Brasil: Salvador fora de temporada.


Fale com ele: ruyfilhosp@yahoo.com.br ou acesse o blog do autor

Atualizado em 6 Set 2011.

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