Guia da Semana

Mil faces

Descobridor nato de novos talentos, o diretor João Falcão fala ao Guia da Semana sobre talento, cenário cultural e a dificuldade de ficar longe do trabalho

Foto: Guilherme Maia


Dramaturgo, diretor, roteirista e cineasta. Estas são só algumas das facetas que João Barreto Falcão Neto, ou apenas João Falcão, carrega. Famoso por revelar grandes atores da nova safra de atores nacionais, como Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta, o pernambucano, no auge de seus 50 anos, é reconhecido pela crítica como um dos grandes nomes de sua geração.

E ele faz por merecer. Entre os trabalhos já realizados, foi responsável pelo roteiro de O Auto da Compadecida, direção do longa metragem e espetáculo A Máquina, narrado por Paulo Autran e a peça Clandestinos, na qual realizou uma grande oficina, que reuniu em média 400 atores, em uma disputada seleção. Entre espetáculos, textos e direções, João arranjou um tempo na sua apertada agenda para bater um papo descontraído com o Guia da Semana, onde entre carreira, TV, cinema e teatro, afirma que é sempre preciso inovar para conquistar o público. Confira abaixo!

Guia da Semana: A peça Os Clandestinos mostra como é a vida de um ator em busca da fama. Como está sendo dirigir essa peça?
João Falcão: Muito especial. Estou com artistas que vivem o momento. Conta a história de atores que tentam viver dessa arte. Eu não conhecia nenhum deles. Foi uma imensa seleção, que envolveu muitas pessoas do Brasil todo. Entrevistei mais de 400 atores e depois de um processo de alguns meses de oficina, convidei 14 deles para fazer a peça. De certa maneira, escrevi o espetáculo baseado em historias que eles viveram, e também, algumas outras que já estavam na minha cabeça.

Guia da Semana: Suas peças são consideradas inovadoras por valorizar a expressão teatral do ator. Como você analisa isso?
João: Eu gosto de elenco bom, trabalhar com ator em geral. Os mais jovens estão com mais vontade de mostrar serviço, não tem nenhum tipo de vício, podem ensaiar mais. Estão com menos compromissos com outros trabalhos, o que cria muito mais tempo disponível, que permite a eles uma maior dedicação.

Guia da Semana: Como você avalia hoje em dia, os artistas que você "descobriu", como o Lazaro Ramos, o Vladimir Brichta e o Wagner Moura?
João: Eu avalio muito bem e torço por eles. São talentosos. Iam aparecer mais cedo ou mais tarde. Eu fui apenas um canal. Gosto de conhecer gente nova, revelar pessoas boas e com o passar do tempo ,vou adquirindo um apreço e carinho especial. Fico feliz porque acabo ganhando muitos amigos.

Guia da Semana: Você acredita em dom? Acha que a pessoa já nasce ator ou precisa ser moldada?
João: Acho que o talento é essencial, além de vontade e vocação, que também são fundamentais. É muito difícil julgar. Depende de critérios muito subjetivos de cada pessoa. Mas tem que ter o dom. A pessoa pode ser trabalhada, mas precisa ter o dom. É uma coisa dela com ela mesma, que não tem nada a ver com inteligência. Mas mesmo assim, também é necessário muito trabalho.

Guia da Semana: O que você pensa de atores que nunca estudaram e hoje são considerados grandes nomes da TV, do cinema e do teatro?
João: É talento mesmo. A pessoa tem isso nela. Muitos fazem bem seus trabalhos e nunca precisaram fazer nenhum tipo de curso. Aí que está o dom. É um tipo especial de talento que já vem na pessoa, o que faz dela um grande artista.

Guia da Semana: Espetáculos estrangeiros que chegam ao país costumam conquistar recordes de público, enquanto alguns nacionais se esforçam para ocupar meia platéia. Como podemos valorizar nossa arte?
João: Eu acho que é difícil uma fórmula para o sucesso. Mas estamos vivendo um bom momento. Surgem algumas dificuldades, é claro. Mas são nesses momentos em que surgem as idéias mais criativas. É necessário inovar para fazer com que o público e outros meios se interessem e prestem mais atenção na arte.

Foto: Divulgação


Guia da Semana: Como conciliar a carreira de diretor, produtor, roteirista, cineasta? Qual delas te atrai mais?
João: Vivo muito de momentos. Nos últimos dois anos, vivi mais teatro. Mas cada um tem suas características. Na TV, por exemplo, é possível atingir muitas pessoas rapidamente. No cinema, o púbico vai ver uma coisa mais centrada, o que exige um trabalho mais delicado, pois as pessoas ficam muito mais concentradas no filme. Já o teatro, é ao vivo, possui contato direto com o público, é mais próximo.

Guia da Semana: Atualmente realizamos uma entrevista com Bárbara Heliodora (crítica de teatro), que elogiou seu trabalho, dizendo que você é um dos melhores da nova geração. Apesar do elogio, Você tem medo de críticos enfáticos como ela?
João: Não, acho as opiniões são saudáveis. É bacana uma forma de movimentar, provocar e fazer as pessoas pensarem, escreverem sobre isso. Além de tudo, contribui para divulgar seu trabalho. Acho que é necessário ter seriedade para não se abalar com as críticas destrutivas e não se deslumbrar demais com as construtivas. É necessário ter um equilíbrio. Não é porque escreveram uma coisa legal que você é aquilo. Assim como você não é uma merda porque alguém escreveu algo negativo.

Guia da Semana: Como foi sair de uma cidade considerada pequena e ganhar grandes palcos de São Paulo e Rio de Janeiro, trabalhando ao lado de nomes como Chico Buarque e Edu Lobo?
João: Hoje em dia é bastante natural. No começo era muita novidade, pois via pessoas que eu conhecia por meio da mídia e que fizeram parte da minha infância. Ainda hoje, quando conheço pessoas que eu sempre admirei fico muito emocionado. Foi o caso da Glória Menezes. Sempre fui fã dela e hoje em dia está ao meu lado. É emocionante.

Guia da Semana: O que falta para o teatro no Brasil ser valorizado pela cultura de massa?
João: Gostaria que o teatro pudesse ser mais popularizado. Acho que tem a questão do incentivo... Teatro é a base de tudo para mim, uma coisa que todo mundo pode fazer, basta ter um palco e uma platéia. É tão simples, tão primitivo, que poderia ser mais incentivada a realização, ser uma coisa mais popular. Hoje em dia ainda é muito elitista, os ingressos são caros e isso afasta o grande público.

Guia da Semana: Como você analisa toda essa visibilidade para os seus cursos e seleções?
João: Eu nunca havia feito um curso especializado. Fiz essa oficina especialmente para produzir o espetáculo. Ganhou visibilidade pelos novos atores. Achei uma experiência muito prazerosa, aprendi muito com todo mundo, conheci muitas histórias. Foi um marco na minha vida! Tenho vontade de fazer outras vezes. Deu muito trabalho, porque ainda tinha espetáculo para escrever e dirigir, mas valeu muito a pena.

Foto: Divulgação


Guia da Semana: Você já comentou em entrevistas que "precisa dar um tempo" e logo emenda um novo trabalho. Acha mesmo que precisa?
João: Eu acho até que preciso, só não sei se eu consigo (risos). Acabo me envolvendo com outras coisas e não me programo pra isso. Quando vejo, já estou envolvido em outro projeto e acabo não parando. Por mais que eu me programe, não consigo ainda.

Guia da Semana: Quais foram as duas últimas peças que você assistiu?
João: Eu assisti As Centenárias com Marieta Severo e Hamlet com o Wanger Moura. São ótimas, sou fã dos atores e do Aderbal (Freire Filho) que por coincidência, dirigiu as duas. Gostei muito e recomendo.

Guia da Semana: Você tem alguma dica especial para quem pretende investir nessa carreira?
João: Eu acho que precisa ver muito teatro, ler muito, assistir muita TV e cinema. Assistir peças e filmes, prestar muita atenção nos outros. É uma carreira difícil, mas muito divertida. É muita ralação, muita concorrência e muita renúncia também.

Guia da Semana: Qual tipo de renúncia?
João: Você ensaia de noite, não participa de compromissos familiares e sociais. Enfim, tem rotinas diferentes da grande maioria das pessoas que têm um horário fixo. Além disso, não dá para prever se você estará trabalhando daqui a um ou dois meses. É uma vida um pouco desorganizada, digamos assim. Mas é tudo muito gostoso.

Atualizado em 1 Dez 2011.

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