Guia da Semana

Muito além do humor

Com Claudia Jimenez no papel da mãe e a adaptação de Miguel Falabella, a peça é garantia de muitas risadas e um retrato da classe média brasileira

Foto: Divulgação


Ano passado, eu estava em Buenos Aires e, do lado do meu hotel, havia um teatro que ostentava um cartaz enorme de uma peça chamada Más respeto que soy tu madre!. Era interessante e chamava a atenção pelo seu fundo rosa contrastando com a imagem de um ator vestido como uma mãe daquelas bem tradicionais no nosso imaginário, de meia idade e com vestido estampado... Ou seja, daquelas que inspiram carinho e amor materno.

 

Fiquei curioso e, apesar de não poder assistir à montagem naquela ocasião, resolvi buscar mais informações. Descobri que tudo começou em 2003, com um blog que apresentava textos assinados por Hernán Casciari. O sucesso que o site fez o levou a ganhar o prêmio da Deutsche Welle Internacional na categoria melhor blog do mundo, em 2005. E com isso a curiosidade só aumentou! Sobre o que aquele texto falava? Qual o tema que o faria tão interessante a ponto de ganhar prêmios e ser transposto para os palcos por Antonio Gasalla (que depois eu descobriria ser a figura materna do cartaz)?

 

Mais pesquisa e li que a montagem era uma comédia que satirizava o cotidiano de uma família que, apesar das dificuldades, vivia feliz. Tema comum e que pode ser pouco profundo, ainda mais quando se fala em humor, mas nem assim desanimei. Até que ouço que a peça seria montada no Rio de Janeiro, com o nome Mais respeito que sou tua mãe!, Claudia Jimenez no papel principal e Miguel Falabella responsável pela adaptação do texto e direção. Na época já se falava de uma temporada em São Paulo. Era a minha chance.

 

Eis que, este mês, conferi a versão brasileira, em cartaz no Teatro Procópio Ferreira. É besteirol? É! Lembra o Sai de Baixo em alguns momentos? Lembra! Mas vale a pena. O texto em português reflete a realidade brasileira dos subúrbios do Rio, com referências aos famosos gatos de TV a cabo, puxadinho e outras mazelas da nossa sociedade.

 

O humor é escrachado e, contrariando a onda atual, não se vale do politicamente correto, levando o público às gargalhadas com referências a sexo, consumo de drogas e outros temas polêmicos. E o faz de maneira gostosa, em pequenos esquetes que apresentam uma situação e o seu desfecho.

 

Claudia Jimenez dispensa apresentações e sustenta muito bem a trama, interagindo com a plateia de uma forma natural e dominando a cena ao lado de Hernani Moraes - que interpreta um marido típico brasileiro - e grande elenco. O cenário lembra muito as casinhas que vemos pelo Brasil, reforçando que a peça, mais do que uma transposição para o português, é a nossa versão para o sucesso argentino.

 

Legal é ver que, mesmo com o riso, o texto discute a pobreza, como uma família pode se apoiar, os valores que mudam quando se precisa de dinheiro. todos temas que dizem muito sobre a realidade brasileira.

 

O uso de uma atriz ao invés de um homem para interpretar a mãe mostra que a peça segue um caminho distinto da original. Pode-se pensar que, assim como Antonio Gasalla é famoso no país vizinho, Claudia é no Brasil, mas, mais do que isso, essa opção reforça a intenção de mostrar uma realidade e discuti-la através do humor e não somente divertir o público com uma sátira. Ou seja, no lugar de uma alegoria de mãe, coloca-se em cena uma mulher que poderia ser a mãe de cada um da plateia, e isso dá força ao texto.

 

Portanto, no lugar da montagem portenha, eu vi uma peça brasileira que diverte, mas não esquece do conteúdo, provando que o binômio informação e entretenimento existe e pode ser muito bem realizado. Aplausos para os corajosos que se valem de sua arte para discutir temas importantes!

Quem é o colunista: Um pedaço da loucura desse mundo!

O que faz: Um radialista que trabalha como jornalista e se aventurou por outras áreas, como o teatro.

Pecado gastronômico: Frozen yogurt com granola.

Melhor lugar do mundo: Plateia de um teatro ao lado de amigos.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: Complicado! Sempre vario muito, mas normalmente são trilhas de musicais da Broadway, como Spring Awakening.

Para falar com ele: Visite seus sites www.guilhermeudo.com, http://www.enteatro.com.br/ ou siga-o no Twitter.


 

Atualizado em 6 Set 2011.

Compartilhe

Comentários

Outras notícias recomendadas

5 hotéis ao redor do mundo que são verdadeiras obras de arte

Confira locais com acomodações incríveis, mas que têm obras como protagonistas

Evolução dos emojis ganha instalação no Museu de Arte Moderna de NY

Os primeiros emoctions, criados em 1999, também entram para a coleção MoMA

6 motivos para visitar a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano em SP (e nem perceber que está na capital)

Local une arte, cultura, lazer, arquitetura e natureza, fazendo com que o visitante esqueça que está em SP

13 grafites em SP que todo mundo que ama arte deveria ver pessoalmente

Confira obras espalhadas pela cidade que merecem sua atenção

Na Semana da Criança, uma selfie vale um passaporte nos museus de SP; entenda

Para participar, é só postar foto com uma criança no Facebook com a hashtag #MuseusSP e apresentar na bilheteria da Pinacoteca, Casa das Rosas ou do Museu da Imigração

Unibes Cultural oferece programação especial e gratuita para o mês das crianças

Evento acontece até dia 31 de outubro e comemora o Mês das Crianças