Guia da Semana

Na luta pela casa própria

Conquistar um espaço físico é o trampolim para uma companhia de teatro se firmar na cena contemporânea

Foto: Os Fofos Encenam


Provisória ou fixa, uma sede dá a chance para os atores se integrarem, dividirem figurinos, palco, luzes e discussões. Um espaço próprio ajuda também a formar um público e permitir o envolvimento da companhia na busca por uma identidade de linguagem e estética. Esse é o sonho de muitos artistas, mas poucos realmente conseguem concretizá-lo. Mesmo assim, apesar da política cultural ser complicada no país, eles têm lutado para reafirmar a importância da criação de um ambiente de trabalho.

Além dos mais antigos como Os Satyros, Folias D´Arte e a Cia. de Teatro Oficina Uzyna Uzôna surgem no cenário paulistano outros grupos de teatro donos de seu próprio espaço. A Companhia do Feijão, Os Fofos Encenam, A Companhia Antropofágica de Teatro e a Companhia dos Insights, por exemplo, são as recentes trupes que conseguiram encontrar um canto para mergulhar no trabalho de pesquisa e dedicar o lugar para a articulação de idéias e criação artística.

O Galpão do Folias, com mais de dez anos de espetáculos
e é subsiado pela Lei de Fomento


Depois de mais 15 anos de existência, a Cia. Fofos Encenam inaugurou seu galpão numa esquina do bairro Bela Vista. Além da boa localização o espaço está bem cuidado, limpo, pintado e com uma decoração impecável. Tudo é levado em conta na hora de correr atrás do espaço. A atriz Kátia Daher explica que eles procuravam um imóvel que pudesse fugir do palco italiano, ou seja, algo para transformar a cada nova montagem. E encontraram, mas só conseguiram iniciar o projeto na casa nova porque o grupo foi contemplado pela Lei do Fomento. "Em média gastamos 6 mil reais só com a manutenção do local. Estamos fazendo um caixa com o dinheiro da bilheteria atual para nos prevenir quando a quantia cedida pela lei terminar".

A Cia. do Feijão também ganhou um novo endereço na Vila Buarque, região central da cidade. Para o diretor Pedro Pires uma sede possibilita a pesquisa coletiva e o amadurecimento de criações. "Um outro ponto a ser destacado é a importância do contato com a comunidade local, com outros artistas e com o teatro de grupo na cidade. Um lugar próprio permite que possamos desenvolver estes laços e aprofundá-los através de atividades propostas como nossa programação artística - espetáculos - ou cursos, palestras e seminários." Pedro conta que a manutenção do local só é possível graças a Lei de Fomento, que eles conseguiram no ano passado, afinal o custo mensal do lugar gira em torno de 3 mil reais.

Foto: Vila Maria Zélia- Grupo XIX de teatro dá vida ao espaço público abandonado

O mecanismo costuma ser o mesmo para a maioria desses grupos. Mas, cada um deles reserva algumas peculiaridades. O Grupo XIX de Teatro conseguiu um lugar por meio da ocupação de um espaço público que estava abandonado e pertencia à prefeitura. A Vila Maria Zélia foi adotada pelos integrantes da companhia em 2005 para a montagem do projeto A Residência, e desde então eles passaram a trabalhar na vila. Apesar de não pagar aluguel, o diretor da trupe Luiz Fernando Marques explica que o espaço é muito antigo e que eles acabam investindo na manutenção e restauração do teatro. O programa também é um dos inseridos da Lei de Fomento.

Diferente destas companhias existem artistas que pagam para trabalhar e que não são subsidiados por nenhuma lei de incentivo nem de patrocínio de empresas. É aquela velha história de quem durante o dia trabalha com outra coisa e reserva as noites e boa parte do salário do mês para investir em espetáculos. Para esses artistas conquistar um espaço e mantê-lo é ainda mais sacrificante. As companhias dos Insights e a Antropofágica são dois exemplos do caso. A primeira existe desde 1993, e em dezembro de 2006 fundou em Moema uma área de trabalho. E a segunda que nasceu em 2002, comemora 6 anos esse mês e se dedica agora ao Espaço Pyndorama, em Perdizes.

Foto: Luis Usshirobira
Teatro Oficina na montagem de A Luta

O diretor Maurício Lencasttre, da Cia. dos Insights, conta que eles sustentam o lugar através da bilheteria de peças, oficinas, workshops e atividades abertas ao público."Nós nos adaptamos com os recursos que temos. Estamos tentando entrar para a lei, mas enquanto isso não acontece, colocamos nossos espetáculos em cartaz e convidamos outros grupos que tenham a mesma linha de trabalho para atuar conosco". Numa situação parecida o integrante da Cia. Antropofágica Haroldo Decario celebra o novo espaço do grupo que abriu para o público em novembro de 2007. "O grupo é formado por dez pessoas que contribuem mensalmente com uma quantia que ao todo custa 3 mil reais."

Todos os casos mostram que o teatro independente está vinculado com a construção do espaço próprio e que ele necessita criar um lugar agregado a uma comunidade onde se conquista um público e incentiva a arte em regiões da cidade. Além disso, a sede configura o perfil do grupo e cria uma identidade que vai além do espaço físico.

A Cia. Antropofágica na estréia do espaço


Entenda um pouco sobre a Lei de Fomento
Proposta pela classe artística paulistana e aprovada pela prefeita do Município de São Paulo em 2001, a lei de fomento hoje viabiliza 30 projetos por ano dentro da cidade de São Paulo e o valor destinado à cultura é reajustado com o tempo. De acordo com a Cooperativa de Teatro Paulista, hoje ela gira em torno de R$ 11 milhões. Entre seus principais artigos estão:

Art. 1º - Fica instituído o "Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo", vinculado à Secretaria Municipal de Cultura, com o objetivo de apoiar a manutenção e criação de projetos de trabalho continuado de pesquisa e produção teatral visando o desenvolvimento do teatro e o melhor acesso da população ao mesmo. Parágrafo único - A pesquisa mencionada no "caput" deste artigo refere-se às práticas dramatúrgicas ou cênicas mas não se aplica à pesquisa teórica restrita à elaboração de ensaios, teses, monografias e semelhantes, com exceção daquela que se integra organicamente ao projeto artístico.

Art. 4º - Para a realização do Programa serão selecionados no máximo 30 (trinta) projetos por ano de pessoas jurídicas, aqui denominadas proponentes, com sede no Município de São Paulo, respeitado o valor total de recursos estabelecido no orçamento. 1º - Os interessados devem se inscrever na Secretaria Municipal de Cultura, ou em local por ela indicado, nos meses de janeiro e junho de cada exercício.


Se você ainda não conhece esses espaços, vale a pena conferir:
? Espaço dos Fofos
Rua Adoniran Barbosa, 151
Bela Vista - Centro - 3101-6640

? Espaço dos Satyros
Praça Franklin Roosevelt, 214
República - Centro - 3258-6345

? Companhia do Feijão
Rua Doutor Teodoro Baiama, 68
Vila Buarque - Centro - 3259-9086

? Spaço dos Insights
Rua Pintassilgo, 405
Moema - Zona Sul - 7600-2673

? Galpão do Folias
Rua Ana Cintra, 213
Campos Elíseos - Centro - 3361-2223

? Teatro Oficina
Rua Jaceguai, 520
Bela Vista - Centro - 3104-0678

? Espaço Pyndorama Rua Turiassú, 481 Perdizes - Zona Leste - 3871-0373

? Vila Maria Zélia Rua dos Prazeres, 362
Belenzinho - Zona Leste - 8263-6269


Colaboraram:
? Pedro Pires- um dos diretores da Cia. do Feijão.
? Haroldo Decario- integrante da Cia. Antropofágica
? Kátia Daher- atriz da Cia. Fofos Encenam
? Luiz Fernando Marques- diretor do Grupo XIX de teatro
? Maurício Lencasttre- diretor da Cia. dos Insights
? Vanessa Fontes - Arteplural

Atualizado em 6 Set 2011.

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