Guia da Semana

O Gueto no Centro

O rap como manifestação social e o quebra que aconteceu na Virada Cultural

Foto: divulgação

O quebra pau que rolou na madrugada de domingo, durante o show dos Racionais MC´s (acima) na Virada Cultural, reverberou tanto que conseguiu livre trânsito em diversos setores da sociedade e grudou nas páginas policiais, políticas e culturais de vários jornais.

Antes de tudo, é preciso reconhecer a arte, como um todo, como uma voz da sociedade. A transposição para a música, para o teatro, para o cinema, dos retratos que nossos olhos captam todo dia, o dia todo.

Num dos eventos mais bacanas entre os promovidos pela Prefeitura, a Virada Cultural se livrou do estigma de "evento popular" como os que já estamos de saco na lua de ver, como 1º de Maio ou o Reveillon da Paulista. Teve uma escalação de atrações que agradava a todas as "são paulos" que existem dentro desta cidade e conseguiu atingir pontos como a revitalização do centro, o acesso do grande público ao suntuoso Teatro Municipal, e reuniu também os guetos que, por vezes, a sociedade prefere deixar fechados em si mesmos.

Assim com jazz e o blues - hoje elitizados -, que quando surgiram eram tidos como marginais, o samba e o rock - hoje populares - eram contestados pelos "guardiões dos bons costumes", o rap, há alguns anos, é o grito de uma parcela que sobrevive numa realidade que é indigesta ao estômago daqueles que conduzem a cidade.

As letras sobre violência, a repulsa à sociedade e a seus ícones - políticos, playboys e, sim, a polícia, - não são tiradas de estórias isentas, fantasiosas. Mas agora chegou, finalmente, ao Marco Zero da cidade e escancarou o que era mito, "exótico", ao ponto de vista de muitos moradores mais desavisados da paulicéia.

A violência do que aconteceu no último domingo deve ser contestada, mas questionar se o erro foi levar os MC´s para tocarem na Praça da Sé (lê-se longe da periferia) é continuar enjaulando os guetos e suas manifestações culturais e isso é tão ignorante quanto deixar de ouvir qualquer outro que é parte de nossa sociedade. Continuar marginalizando seus adeptos e reprimindo seus ícones, é tão explosivo quanto qualquer repressão à força de um povo.

Que a Virada Cultural se mantenha nos próximos anos e que outros projetos semelhantes sejam criados para abastecer nossa cidade com arte e cultura, sem termos que desembolsar quantias absurdas de reais em cada show ou evento que vamos. E que a diversidade impere. Na paz.

Abraços e até a próxima. E espero que seja com coisas mais bacanas.


Quem é o colunista: Tiago Archela
O que faz: é músico, jornalista e bancário. Não necessariamente nesta ordem. As funções se alteram conforme o dia e a hora.
Pecado gastronômico: feijoada.
Melhor lugar do Brasil: São Paulo, de preferência aqueles dois quilômetros entre a Consolação e o Paraíso.
Fale com ele: tiago.coluna@terra.com.br



Atualizado em 6 Set 2011.

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