Guia da Semana

O riso e o risível

Colunista faz uma crítica dos programas de humor da TV aberta

Rede Globo/ Fabricio Mota
Cena do programa Toma lá dá cá
Outro dia, esperando o ônibus na rodoviária voltando do meu espetáculo, sentei ao lado de um grupo de pessoas e me senti o sujeito mais mal humorado do mundo. Era uma terça-feira à noite e, passava na TV o programa Toma lá dá cá. Eu não entendia aquela comoção de risos e eu parado, assistindo aquilo ia ficando era cada vez mais irritado.

Minha apresentação tinha sido ótima e eu só queria ir pra casa descansar. Mas aqueles minutos antes de chegar a hora de embarcar fez o tempo parecer uma eternidade.

Divido o apartamento com um amigo que precisa de 15 minutos antes de dar um "bom dia". Sei o que é acordar às vezes com a "pá virada". Mas hoje é difícil alguma coisa me tirar do sério, normalmente levo a vida numa boa. Conversando com outro amigo sobre a história da rodoviária, ele comentou um fato parecido. Recentemente ele deu de presente para o pai, que adora programas de humor, um DVD do espetáculo Terça Insana. Ansioso com a reação dele, colocou de imediato para assistirem juntos, e enquanto ele morria de rir com quadros que já assistira uma dezena de vezes, o pai sequer mexeu um músculo do rosto.

Divulgação
Elenco da comédia Terça Insana
Longe de ser uma questão de gosto, acredito que o chamado humor inteligente está cada vez menos prestigiado. Não sei se existe uma classificação para tipos de humor, eu vejo dessa maneira. Parece que cada vez mais as pessoas querem rir sem pensar, parece que voltamos aos estereótipos da Comedia Dell´ arte com o sujeito bonachão, o avarento e o corno que por si só já fazem rir de cara, independente de abrirem a boca.

Programas de humor para TV como Comédia da Vida Privada, Os Aspones, O Sistema e tantos outros do gênero não têm vida longa. O humor popularesco é a bola da vez. É o humor fácil, entregue de bandeja.

Há quantos anos existe o Zorra Total? O que são aquelas risadinhas gravadas postas depois daqueles bordões bobos com atores tão caracterizados que você nem os reconhece quando não estão em cena.

Falo em caracterização porque se eles usam desse artifício e fazem humor, queria entender porque um ator do porte do Chico Anysio é considerado ultrapassado? Qual a diferença entre ele e o Tom Cavalcante? Vai ver todos sabem a resposta: um é o criador, outro é a criatura.

E sou da época em que Os Trapalhões eram quatro e eu morria de rir daquelas situações que ainda hoje o Didi Mocó tenta continuar, mas não me faz parar nem cinco minutos no mesmo canal. Não sei se a faixa etária tem a ver com isso, o humor inocente dele não me atinge mais, não sei se estou velho ou sem paciência pra certas coisas. Mas meu porteiro é um senhor de 60 anos e morre de rir! E morro de rir dele morrer de rir.

Não é de hoje que me pego irritado com certas coisas. Festa infantil não faço mais, de jeito nenhum. Tenho vontade de dar uma bica naquele animador com voz infantil que fica pulando com roupa colorida. E aquelas fantasias de bonecos que não te deixam respirar? As crianças estão cada vez mais violentas, menos inocentes, mais mini-adultos. Elas socam a tua cabeça até você dar um beliscão nelas e abrirem o bocão e o pai nunca mais te chama pra animar nada.

Engraçado, usando esse trocadilho infame, mas meu espetáculo usa do chamado humor inocente dos Trapalhões e fico admirado com a reação das pessoas. Se estivesse na minha platéia, eu certamente seria o chato que fica de braços cruzados querendo entender o porquê de tanta risada.

Queria poder me desprender de certas malícias que deduz o final de uma piada ou mesmo fingir que não sabe. Tenho saudade de ir ao circo e comprar aqueles palhaços que saem de dentro de um cone pra guardar como recordação. Talvez seja isso, hoje vou procurar um picadeiro, comprar um saco de pipoca e esperar o momento do palhaço entrar em cena.

Quem é o colunista: Guilherme Gonzalez.

O que faz: Paraense, radicado em São Paulo, Guilherme Gonzalez é uma mistura de ator e produtor cultural. É um dos fundadores da Cia. Teatro de Janela.

Pecado gastronômico: Sorvete de tapioca.

Melhor lugar do Brasil: Praia do Amor em Pipa (RN) bem acompanhado.

Fale com ele: gonzalezguilherme@hotmail.com

Atualizado em 6 Set 2011.

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