Guia da Semana

Plumas e paetês

Nos tradicionais blocos, em carnavais de rua, as classes sociais se misturam entre os desfiles

Foto: Divulgação
 
O carnaval é um ritual em que toda a sociedade se orienta para esse evento, parando suas atividades cotidianas e abandonando a rotina de trabalho. É um intervalo que paralisa a normalidade das atividades, num feriado nacional. Traz um caráter extraordinário para a vida diária, que contrasta com o corriqueiro e repetitivo dia a dia.

Essa festividade é cultural e se estende por todo o território nacional, com suas especificidades em cada região do país, que brinca de acordo com seus costumes, mas que assumem uma mesma proporção como se fosse uma lei geral. Há os desfiles das escolas de samba que exageram em suas formas e estrutura, com temas e sambas enredo em que as comunidades competem entre si, já o carnaval de rua é marcado pela liberdade individual. 

Nas duas ocasiões aglutinam-se as pessoas, mas na rua a ocasião é informal e está fundada na idéia de espontaneidade, pois a possibilidade de se chegar atrasado para um bloco é muito mais difícil do que se fosse para um funeral, a alegria é majestade e impera sobre a tristeza. 

É um momento de trégua nas relações de poder, é quando se misturam pobres e milionários numa teatralização em que o pobre vira nobre e o nobre marginal. Com o uso das fantasias, há um resgate das figuras periféricas completamente fora do sistema onde o foco é o ilícito na maioria das vezes, pois é nesse momento que se pode realizar a idealização da realidade.

Ocorre uma inversão do mundo, que é habitado por julgamentos, e se encontra pelas ruas palhaços, prostitutas, hippies, malandros, presidiários que se revelam no cotidiano de maneira dolorosa, esses papéis aparecem como símbolos num ambiente destituído de dramas sociais.  Estão incluídos no baile também, personagens do mundo encantado e do mundo das sombras, representantes dos confins do mundo conhecido como gregos antigos, romanos, havaianos e vietnamitas, também encontramos celebridades como Ana Botafogo, Galvão Bueno, Zacarias e personalidades criadas por escândalos na mídia, como Geisy Arruda e Abdel Massih, todos debaixo dos mesmos confetes. 

Há uma diversidade de fantasias que se revelam na escolha daquilo que se quer representar, que é resultado da liberdade de escolha que une o papel da imaginação com os papéis reais, que resultam num personagem que desfila, brinca e interage com os outros num comportamento coerente com suas motivações, com aquilo que o define naquela ocasião. É um momento de exercer a civilidade de forma satírica pelos foliões, observadores das transmissões da mídia de massa.   

As fantasias carnavalescas criam um campo de encontro fantástico, pois mesmo com diferenças entre os papéis representados pelas vestes, todos estão dispostos a brincar; o bandido com o xerife, ser alvo do tiroteio de pistolas d'água (que mais fazem é refrescar) são tolerados sem conflitos, se for levar em consideração a incompatibilidade desses papéis na vida real, ou até mesmo no intervalo cronológico dos heróis de filmes e personagens de desenhos animados.

Há lugar para todos os seres, tipos e personagens que conjugam valores distintos, mas se permitem conviver no mundo da licença e da metáfora.

O carnaval é uma união temporária em que tudo se relaciona pela simpatia gerando um terreno fértil que produz uma abundância de significados e há o entendimento compartilhado da desintegração da hierarquia social, em que a purpurina permite brilho para todos.

Agora já passamos pelo período preparatório e entramos num ciclo de penitência e arrependimento, a Quaresma, nos resta esperar o Carnaval do ano que vem e de todos os outros anos e extrair dessa experiência festiva a criatividade para todas as situações da vida, fáceis ou difíceis, mas com alegria.

"Amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar, deixa o barco correr..."


Leia a coluna anterior de Renata Bar:

Durante três meses

Quem é a colunista: Renata Bar Kusano.

O que faz: Publicidade e Propaganda (FAAP), uma aprendizagem em edição em vídeo e suas correlações.

Pecado Gastronômico: carré de vitela ao molho de hortelã e camarão à provençal! 

O melhor lugar do mundo: debaixo d´água.

Fale com ela: rebarkusano @gmail.com ou acesse seu blog

Atualizado em 6 Set 2011.

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