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O colunista debate a polêmica função da arte

Foto: sxc.hu


Eu tenho muito orgulho colocar nos artigos que eu escrevo uma menção à "função da arte". Para quê serve a arte? Por que ela existe? Para mim é fácil perguntar essas coisas porque eu sei que posso me refestelar confortavelmente no fato que não existe resposta. Não existe resposta certa e nem única. A cada artigo que escrevo posso mencionar tranqüilamente que, por exemplo, instigar uma discussão (como é o caso do filme Tropa de Elite), é "uma das funções da arte".

Em um bate papo com um roteirista de cinema recentemente, fui alertado para uma outra "função da arte", que é formar a identidade do povo que a produz. Faz muito sentido que, quando se olhe antropologicamente para uma nação, etinia ou mesmo um grupo de habitantes, a primeira incursão seja através de seus rituais, sua mitologia, suas tradições e, claro, suas manifestações artísticas e artesanais. Podemos sim, pensar a arte como parte de um reflexo histórico e é possível mesmo acompanhar a evolução da história de um povo através das mudanças que sua arte sofre.

Você pode imaginar o que vão pensar de nós os antropólogos, arqueólogos e historiadores do ano 3000? Aliás, Matt Groening, criador dos Simpsons vive pensando e em geral, seu novo desenho "Futurama" que mostra o entregador de pizza congelado por acidente durante 1000 anos adorar tirar um sarro disso. Merecido aliás.

Meu amigo roteirista argumentava que cineastas detêm o poder de formar uma nação, enquanto que eu, publicitário, acusava o fato que as artes, assim como a publicidade, são um reflexo dos anseios da sociedade. Os desejos inatingíveis, as necessidades, o lado torpe das pessoas está todo ali e é por isso que os anúncios de carros caros sempre dizem que seu comprador será o alvo da inveja dos outros.

De comum acordo, eu e ele tínhamos apenas o ponto que o cinema é uma ferramenta poderosa de disseminação da cultura. Inevitavelmente também acabamos discorrendo sobre o cinema hollywoodiano, onde em qualquer comédia romântica há uma bandeira pendurada do lado de fora da casa ou todo soldado por mais raso que seja está disposto a ir até o outro lado do mundo ou até para outros planetas para defender o "american way of life".

Novamente, eu discordava do meu colega, que argumentava que o governo americano havia feito um investimento financeiro consciente nos filmes como forma de fomentar o nacionalismo. Eu acho que o investimento foi feito no próprio povo, fomentando o nacionalismo muito antes. Antes até das duas guerras mundiais. O Superhomem, a Mulher Maravilha, Capitão América, todos os heróis de quadrinhos foram criados com roupas das cores da bandeira para motivar os soldados que tomavam chumbo pelo resto do mundo.

Concordávamos ambos, no entanto, que os americanos são muito bons de propaganda.

O que nos leva de volta ao cinema nacional. De volta à Tropa de Elite, Cidade de Deus, O Que é Isso, Companheiro, Caixa Dois, Brasília 18%, Olga, O Invasor, Central do Brasil, que são todos filmes fundamentais para nós, que revelam aspectos importantes da nossa identidade, que denunciam atrocidades que acontecem logo ali na esquina de nosso país. E nós, cidadãos semi-conscientes de nosso papel temos mais do que a obrigação em saber.

Esses filmes todos são belíssimos e demonstram como o cinema nacional tem potencial incrível, é reconhecido no exterior e tem indicações ao Oscar e muitos outros prêmios. Assim como todas as outras artes e, aliás, como muitas outras áreas onde o povo brasileiro brilha com facilidade, como é o caso da publicidade, da moda, da física, da tecnologia de combustíveis, do sistema eleitoral, da culinária...

Mas o que os filmes nacionais têm falado sobre nós? O que nossa arte mostra para nós mesmos e para o resto do mundo?

Talvez isso seja, ainda, herança da ditadura, período onde os únicos heróis que o Brasil tinha eram os artistas e os revolucionários. Nesse período, exortar as maravilhas do nosso país era uma coisa odiosa que os militares faziam para tentar inutilmente pacificar a população enquanto quem discordasse do regime era brutalmente torturado durante anos e possivelmente morto.

Eu não acho saudável para nossa identidade esquecer as agruras que o País passou e nem um pouco recomendável que as artes deixem de denunciar o que há de errado conosco. Mas eu definitivamente não acho que perderemos nada se nossa arte também nos lembrar que o brasileiro é um povo talentoso e criativo que consegue fazer tudo o que faz cada vez melhor, seja o caso da publicidade, da moda, da física, da tecnologia de combustíveis, do sistema eleitoral, da culinária...

Talvez o nosso governo, também por medo do modus operandi da ditadura militar, nunca use o cinema como propaganda nacionalista. Mas também não censurará nada, mesmo que os filmes financiados pela Ancine falem mal do Brasil.

Se não cabe ao governo, a meu ver, cabe ao artista mostrar para o brasileiro e para o mundo o que o Brasil tem de melhor também, criando heróis que a gente possa se identificar e mocinhas que a gente possa salvar.

Já meu amigo roteirista discorda totalmente.

E você, o que pensa?

Leia as colunas anteriores de Felipe Tazzo:

? Cultura e mercado. Cultura é um mercado?


? Diversão e/ou arte


? Emoções embaladas para viagem


? Razões pelas quais o CD não vai desaparecer


? Brigando por uma fatia do bolo


? Carteirinha pra cá, carteirinha pra lá...


Quem é o colunista: Um tal de Felipe Tazzo.

O que faz:Publicitário, produtor cultural e da meia noite às seis, escritor. Autor de O Livro Das Coisas Que Acontecem Por Aí

Pecado gastronômico: Tudo o que for picante.


Melhor lugar do Brasil: Os butequinhos sujos do interiorrrrrrrr.

Fale com ele: acesse o blog do autor

Atualizado em 6 Set 2011.

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