Guia da Semana

Rock and brega

Após atingir mais de 9 milhões de acessos no YouTube, a banda goiana Pedra Letícia mostra a sua irreverência em shows pelo Brasil inteiro

Foto: Divulgação



"No Brasil existem duas formas de ganhar dinheiro: uma é montando uma dupla sertaneja. A outra é escrevendo música com nome de mulher". Foi com essa pérola que o vocalista Fabiano Cambota abriu a apresentação do Pedra Letícia, no bar Lanterna, zona oeste de São Paulo. Ao lado de Thiago (percussão) e Fabianinho (violão e baixo), ele forma a banda que vem ganhando espaço com shows cheios de teatralidade e irreverência, em um mistura clássicos do rock e pérolas do brega.

Conheça mais sobre eles, pelas palavras do próprio vocalista, em uma conversa exclusiva ao Guia da Semana:

Guia da Semana: Como surgiu o nome Pedra Letícia? Teve relação com alguma namorada de alguém, com a mãe...
Fabiano Cambota:
Na verdade, é um nome ligado à mitologia grega e egípcia... Estou brincando! Não tem um significado. Surgiu de uma brincadeira, mas não tem uma lógica. Isso é ruim, porque as pessoas perguntam e a gente não tem o que falar. Aí, ficam esperando uma resposta hiper inteligente.

Guia da Semana: Essa fórmula de rock cômico foi algo planejado?
Fabiano:
No princípio, ninguém pensou em fazer uma banda com músicas engraçadas. Elas saíram porque estavam nas nossas conversas. Os shows cresceram e, hoje, nós viajamos com 14 pessoas, em apresentações para 6 mil pessoas. Vivemos um sonho de infância, mas não passamos pelo processo típico que vemos no cinema. No dia em que surgiu um convite de gravadora, pensamos: "O que eles querem com a gente?".

Guia da Semana: E como se deu a escolha dos ritmos musicais?
Fabiano:
Não queríamos fazer um cover óbvio, tocar o que todo mundo toca no boteco. Pensávamos em coisas diferentes, com um outro arranjo. Foi assim que achamos músicas mais antigas para tocar. Começamos com coisas muito bregas dos anos 70, como Odair José, uns negócios muito loucos. Nessa, veio também o Rossi (Reginaldo), a galera entrou muito na onda disso. Eu já tinha uma música que era Como Que Ocê Pode Abandoná Eu, que tinha escrito à toa, para tocar em churrasco e comecei a colocar nos shows.

Foto: Leonardo Filomeno

Com três anos de existência, a banda já tem repercussão nacional

Guia da Semana: O Paulão, do Velhas Virgens, diz que montou uma banda apenas para beber de graça e pegar mulher. Vocês também tiveram isso em mente?
Fabiano:
Cara, nem isso. Juro por Deus! Porque, na verdade, a gente ia pra se divertir mesmo. Nunca fomos baladeiros. Era um bando de nerd que gostava de videogame, saca? Como a gente tocava violão, um dia resolvemos nos apresentar em um boteco. Aí, as coisas vão se sucedendo, você começa a ganhar uma grana... A gente, que não pegava ninguém, começou a pegar. Mas não foi com esse intuito.

Guia da Semana: E as letras? Surgiram de experiências próprias?
Fabiano:
Tenho medo de falar isso e depois você me perguntar sobre a música do traveco (risos)... Toda música tem alguma coisa que te leva a fazer aquilo, nem que seja uma observação, que é o caso da música do traveco, claro! Como Que Ocê Pode Abandoná Eu, por exemplo, foi a primeira que escrevi, para uma ex-namorada. Era um negócio que estava me chateando e fiz piada para suportar. Eu Não Toco Raul foi a primeira escrita para a banda, por causa dessa chatice do boteco. Todo mundo adora Raul na banda, só que ninguém aguentava ver neguinho falando "Toca Raul!".

Guia da Semana: Você falou dessa referência ao brega. É bastante interessante reviver com outro arranjo e tornar a música atual novamente. Já pensa em novas homenagens ao gênero?
Fabiano:
Eu tenho muito cuidado com a homenagem ao brega. Fiz um show em Goiânia e lá estava o Odair José, um cara gente fina e extremamente inteligente, só que ele é subestimado, pois faz música para o povão. Eu adoro o Caetano, mas se ele faz uma música, neguinho paga pau. Se o Odair faz a mesma música, nego zica, porque ele atinge direto. Pare de Tomar a Pílula é uma das maiores contra-culturas que eu já vi. No meio da ditadura, o cara lança essa música! Tanto que ela foi censurada 15 dias depois. Isso neguinho não vê! Talvez você ache o Latino brega, mas eu acredito que ele é um cara esperto, pois bebe um pouco do funk, do brega e do dance, sacou?

Foto: Leonardo Filomeno

Fabiano mostra nas letras de crítica sutil sua versão bem humorada do cotidiano

Guia da Semana: Oportunista, talvez?
Fabiano:
Não diria oportunista, mas aproveitador. Eu duvido que ele escute e pense que o CD está ótimo. Ele não quer isso. A proposta é botar no mercado e alegrar o povão. Essa história elitista que a gente tem é diferente, você teve uma proposta de aprendizado que essa galera não teve. O erro está lá atrás, na educação. Não queira agora fazer o cara entender Chico Buarque. Então, que diga coisas interessantes para esse povo, porque eles também consomem e gostam de música. O mesmo vale para dupla sertaneja. O João Neto e Frederico, por exemplo, entendem de sertanejo e reproduzem isso de uma forma. Outras duplas não sabem nem o que estão fazendo no mundo. É bacana ter esse discernimento.

Guia da Semana: O rock de vocês caminha entre a irreverência dos Mamonas Assassinas e o escrachado do Velhas Virgens. Como vocês se definem?
Fabiano:
Aí vai aquela história de rotular. Quando conhecemos algo novo, tentamos aproximá-la do que já está no nosso repertório cultural. Não é um grilo nosso. Se alguém compara com Mamonas, beleza. Com o Velhas Virgens, acham a mesma coisa. Só que, depois que as pessoas têm acesso, percebem a diferença. Particularmente, acho que o nosso som é mais próximo daquele humor dos anos 80.

Guia da Semana: O vídeo da música Como Que Ocê Pode Abandoná Eu já ultrapassaram 9 milhões de acessos no YouTube. Vocês apostam nessa exposição gratuita de álbuns na web?
Fabiano:
Eu tenho uma teoria. Acho que, hoje, baixar música para ouvir na sua casa não é ilegal. Se dissesse que você está sendo babaca de baixar minha música, porque meu CD está na loja, vou estar sendo babaca do mesmo jeito, pois também baixo. O feio é o nego baixar, gravar um CD e vender no boteco. Isso é pirataria, porque o cara está ganhando uma grana com o suor de uma galera. Não sou eu quem está perdendo dinheiro. Se o CD não vende, só o pirata, não consigo gravar outro, pois encalha nas lojas. Parto do princípio que se você vai baixar uma música, massa. Duas, beleza. Agora, o CD inteiro é muita muquiranice. Se gostou, vai lá e compra, por uma questão de respeito e de valorização do artista.

Atualizado em 6 Set 2011.

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