Guia da Semana

Sem lei, sem permissão

Osgêmeos, Gustavo e Otávio Pandolfo, relembram suas origens no grafite, falam sobre o acesso às grandes galerias e revelam o processo criativo de suas obras

Fotos: Leonardo Filomeno e Nathalya Buracoff


Eles começaram a desenhar nas paredes de casa, saltaram dos muros do Cambuci, em São Paulo, e ganharam cenários como castelos escoceses, galerias de Nova Iorque e até a fachada do Tate Modern, em Londres. Com 13 exposições individuais e 44 coletivas no currículo, os grafites da dulpa Osgemeos, formada pelos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, refletem um universo onírico de forma urbana e moderna, extraído diretamente do imaginário da dupla.

Logo após refazerem a arte do túnel que dá acesso à Avenida 23 de Maio, apagada por um engano da prefeitura, Osgemeos conversaram com a equipe do Guia da Semana, em meio às latas de sprays e traços certeiros, enquanto grafitavam um mural na ONG Despertar, no Jardim Villas Boas, periferia da Zona Sul paulistana, onde reafirmam na prática o que nos diriam algumas horas depois: "Lugar de grafite é na rua. O jovem precisa para ir pra rua e se manifestar."

Guia da Semana: O que o grafite representa para vocês, desde o começo até os dias de hoje?

Gustavo Pandolfo:
O spray representa a nossa "arma", no bom sentido, sabe? É uma forma de protestar, de dizer o que a gente ama e o que a gente odeia. De mandar todo mundo para aquele lugar.Ou então de alertar as pessoas para reparar no que está acontecendo. É a nossa veia.

Otávio Pandolfo:
Quando você está pintando na rua, está sujeito a qualquer coisa. Isso é o legal, é o tesão do grafite. A gente também gosta desse lado de contravenção. Do fato de você transformar alguma coisa, de não aceitar aquilo do jeito que é.

Guia da Semana: Como vocês enxergam o ingresso do grafite nas galerias?

Gustavo:
Grafite é na rua. A partir do momento em que ele entra em um lugar fechado, na galeria ou no museu, não é mais grafite, não pode ser chamado assim. Seja na galeria Fortes Villaça ou no Museu Oscar Niemeyer (a dupla está com uma exposição em cartaz no museu curitibano, confira aqui!) não é grafite, não tem nada a ver. Perde o espírito da intervenção, sabe? De você ocupar um lugar para modificar, seja com autorização ou sem.

Guia da Semana: Vocês já afirmaram que não tem importância em diferenciar grafite e pichação. Dá para considerar as duas coisas como a mesma forma de expressão artística?

Gustavo:
São dois movimentos diferentes, mas que tem muita coisa a ver, pelo fato de ocupar a rua. De colocar o nome ali. Eu acho que tudo é uma manifestação. O jovem precisa ir pra rua e se manifestar. A gente não concorda com essa história de "Ah! Grafite é bonito e pichação é feio". Acho que as pessoas estão ocupando um espaço e falando o que querem. Isso é melhor do que ficar quieto, assistindo televisão.

Guia da Semana: E sobre as invasões de pichadores na última Bienal e na Galeria Choque Cultural? O que vocês teriam a dizer sobre isso?

Gustavo:
Eu prefiro não comentar. Prefiro falar mais sobre o meu trabalho.

Fotos: Leonardo Filomeno e Nathalya Buracoff


Guia da Semana: Vocês gostam de outras formas de intervenção urbana, como stencil, stickers e lambe-lambe?

Gustavo:
Depende. Se é um projeto autêntico eu acho bacana. Mas não gosto muito quando vira moda e todo mundo imprime e sai colando papel, sabe? Você tem que ter um critério, um objetivo. Tem que querer evoluir, transformar. Se for assim eu acho bacana, senão é só mais um. É bonito, é legal, mas é só mais um. Eu gosto de olhar para as coisas e falar: "Meu, aquilo ali dá tesão de ver! Olha o que o cara fez!". Por exemplo, tem o JAR, um francês que fotografa as pessoas, imprime e cola. Ele fez um trabalho super legal no Rio de Janeiro, acho que foi na favela da Rocinha. Ele fotografou por um tempo a galera de lá e então colou os papéis na favela inteira. Você via a favela e tinha vários olhares, vários olhos mesmo, vários rostos gigantes. Isso eu acho legal! Ele tem um estilo original de colar papel.

Guia da Semana: É possível conciliar a Lei da Cidade Limpa e dar liberdade para os artistas de rua mostrarem seu trabalho?

Gustavo:
Não dá para conciliar, tem que acabar essa história de pintar de cinza. Não bate, não tem a ver. Acho que cidade limpa deve ser aplicada para limpar outdoor, limpar as ruas, limpar o rio. Nosso rio é todo fodido. A cidade tem infraestrutura para isso. Agora, limpar grafite, não acho legal.

Otávio: Não tem que entrar em acordo. O grafite faz parte da cidade, é isso. Ele não tem que ser canalizado. A prefeitura falar que aqui pode pintar, aqui não pode, sabe? Ele tem que ser feito de maneira espontânea. Onde o cara achar que tem que colocar, ele deve colocar. Acho que as subprefeituras têm que respeitar isso. Faz parte da expressão artística dos jovens. O sonho do cara é esse: se expressar. Pegar a tinta dele, ir para a rua e pintar. Não é certo cortar as asas do cara pintando tudo de cinza. O grafite é mais velho do que essa gestão, ele tem mais de 20 anos em São Paulo, essa campanha começou há uns dois. Então, peraí, meu! A gente tá aqui primeiro.

Guia da Semana: Como foi refazer o painel da alça para a 23 de Maio? Vocês tentaram passar uma mensagem diferente do que a de antes?

Gustavo:
Mudou tudo, não é a mesma idéia. Mudaram os artistas também. A gente convidou dois artistas novos, o Zefix e o Finok, da ANX. São jovens que têm uma idéia nova, com um estilo muito bom. O Finok tem um estilo muito original, então a gente procura dar oportunidade para essas pessoas mostrarem seu trabalho, porque é a geração atual. Os temas mudaram, a gente trabalhou bastante essa questão do meio ambiente, do lado social, de reivindicar os problemas que a gente enfrenta na cidade. Está bem mais questionador agora.

Fotos: Leonardo Filomeno e Nathalya Buracoff


Guia da Semana: Atualmente dá para viver somente do grafite ou também é preciso que vender suas obras?

Gustavo:
Eu acho que é mais fácil do que há 15, 20 anos. As pessoas já estão mais acostumadas a ver o grafite em galerias. Hoje tem internet, blogs, loja especializada onde se compra tinta spray só para grafite. Porém, também tem um outro lado. Hoje, tudo é descartado muito rápido. Se você não tem um estilo bom, um trabalho autêntico, é mais difícil se manter no meio.

Guia da Semana: Como vocês lidam com o reconhecimento aqui no Brasil e no exterior?

Gustavo:
Existe uma grande diferença. Aqui o nosso reconhecimento vem mais do povo. Você vai pintar embaixo do viaduto e ouve a galera que mora ali agradecendo por embelezar o lugar. É muito gratificante. Lá fora tem muito mais campo de trabalho, de reconhecimento, para exibir em lugares em que aqui jamais seria possível mostrar sua arte. Há dez anos a gente começou a pintar fora do Brasil e o primeiro trabalho que a gente fez aqui em São Paulo foi em 2006, na Galeria Fortes Villaça. Olha quanto tempo demorou? Foi aí que realmente reconheceram o nosso trabalho como arte contemporânea. Em Nova Iorque existem galerias que trabalham com artistas de grafite desde o final dos anos 70. Mas hoje já estão abrindo novas galerias relacionadas a este tipo de arte por aqui.

Guia da Semana: Isso está virando uma tendência?

Gustavo:
Acho que sim, tem muita gente pintando. Às vezes, acho que o grafite é mais do que contemporâneo, chega a ser atemporal. Ele transcende o espaço privado, uma galeria, um museu, vai além disso. A galeria ou o museu é só um espaço que nos cederam para a gente poder fazer um trabalho que pode ser tridimensional, misturado com música, por exemplo. Algo que na rua não acontece. Na galeria você tem liberdade e suporte para criar uma escultura, uma instalação. E a gente manda bala!

Guia da Semana: E nessas galerias, dá para lucrar alto? Qual foi o trabalho mais rentável que vocês já fizeram?

Gustavo:
Na verdade, não é a grana que importa. É pelo reconhecimento que aquilo vai trazer. Isso que é foda! Mas quando você faz um trabalho como este na ONG, ou quando você pinta na rua, isso é o que vale. Você pintar e ter contato com as pessoas que querem falar com você. Isso vai melhorar a vida desse cara. Isso sim é valor. Dinheiro a gente ganha mas depois gasta, se perde, não vai levar a nada. Essas coisas não. Elas fazem a gente mudar de comportamento. Isso para mim é o real valor.





Conteúdo extra: saiba mais sobre o processo criativo da dupla Osgemeos.



Atualizado em 6 Set 2011.

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