Guia da Semana

Um bonde chamado Tennessee

No centenário de seu nascimento, Tennessee Williams ainda mexe com o público e com diretores, chegando aos palcos em diversas montagens

Foto: Divulgação

Erom Cordeiro e Cássia Kiss em cena da peça O Zoológico de Vidro

Se estivesse vivo, Thomas Lanier Williams, mais conhecido como Tennessee Williams, completaria 100 anos em 2011. Sua obra continua tão atual que, somente este ano, duas montagens do texto De Repente no Último Verão - baseado na lobotomia que a irmã do autor sofreu na infância - estão programadas para chegar aos palcos dos Estados Unidos, além de outras que devem entrar em cartaz ao redor do mundo.

O dramaturgo nasceu em 26 de março de 1911 no Mississippi, Estados Unidos, e era o filho do meio de um casal formado por um vendedor de sapatos alcoólatra e viciado em jogos e uma filha de ministro de humor instável. As brigas constantes dos pais futuramente inspirariam suas obras, classificadas por ele mesmo como "emocionalmente biográficas".

Ainda pequeno, teve difteria, afastou-se da escola e se tornou uma criança tímida que encontrava nos livros um outro mundo. Já na adolescência, escreveu artigos para revistas e recebeu pequenos prêmios em dinheiro. Passou por várias universidades e se graduou em Jornalismo pela University of Iowa. Lá, ele escreveu Spring Storm, começando sua carreira na dramaturgia.

Vida teatral

Seu primeiro texto organizado como uma peça teatral foi The Glass Menagerie (À Margem da Vida), um grande sucesso de público e de crítica, agraciado com um prêmio New York Drama Critics' Circle. Na história, uma mãe luta para criar seus dois filhos, Tom e Laura. A menina tem um problema nas pernas e coleciona miniaturas de bichos feitas em vidro. O irmão, para fugir da realidade, começa a se aventurar - sexualmente, segundo insinuações do autor - em cinemas da cidade.

A trama reflete a infância de Tennessee e apresenta uma construção psicológica dos personagens tão perfeita que mexe com o público. Ele atribuía isso ao período em que passou internado em um sanatório, quando se entregou ao vício da bebida. Conviver com outros internos trouxe material para seus textos que retratam as mazelas da sociedade de uma forma direta e contundente, fato que levaria os críticos a aclamarem suas obras.

Williams também ganhou o prêmio Pulitzer por A Streetcar Named Desire (Um Bonde Chamado Desejo) e Cat on a Hot Tin Roof (Gata em Teto de Zinco Quente) e o Tony Award - considerado o Oscar do teatro americano - por sua peça The Rose Tattoo (A Rosa Tatuada), de 1952. As três histórias são conhecidas por discutir fatos que eram (e ainda são) tabu para alguns: homossexualidade, drogas, traição, suicídio... A limpidez com que o autor retratava essas situações foi um dos fatores decisivos para sua apreciação pelo público - afinal, falar de temas polêmicos é escancarar os dramas que as pessoas vivem, mas dos quais poucos falam.

Mas a vida artística do dramaturgo não foi composta só de glórias. Os períodos de premiações e aclamação do público se alternavam com grandes fracassos embalados por duras críticas, fato que, após algum tempo, o levou a deixar de expor seus trabalhos. Em 1970, ele tentou retornar à ativa, porém, suas últimas obras não se reconciliaram com os críticos.

Em solo nacional

E não é só nos Estados Unidos que Tennessee faz sucesso. No Brasil, diversos atores conceituados já deram vida aos personagens que saíram da mente deste autor. Paulo Autran, no início de sua carreira, brilhou em À Margem da Vida. Foi após participar desta peça que recebeu um convite para estrelar uma montagem no conceituado Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC. Surgia ali o mito que o ator é considerado hoje. Cacilda Becker também encenou textos do dramaturgo ao longo de sua carreira.

Além dos símbolos do teatro nacional, Eva Wilma, Flávio Império, Maria Della Costa, Cleyde Yáconis - irmã de Cacilda Becker -, Beatriz Segall, Paulo José e outros atores e atrizes estrelaram produções de obras dele. Recentemente, em 2009, Cássia Kiss esteve à frente do elenco de O Zoológico de Vidro - outro título para uma nova tradução de The Glass Menagerie. A montagem foi um sucesso de público, com apresentações em nove cidades e mais de uma temporada em São Paulo.

O salto para as grandes telas

Foto: Reprodução

Cena do filme Um Bonde Chamado Desejo

Depois de William Shakespeare, Tennessee é o dramaturgo que mais teve textos adaptados para o cinema. Com o sucesso nos teatros, os estúdios ficaram interessados em abocanhar uma parcela da fama. Seu primeiro grande sucesso nesta empreitada foi À Margem da Vida, em 1950, que voltaria a ser filmado para a televisão e, de novo para o cinema, com John Malkovich no elenco.

Um Bonde Chamado Desejo foi adaptado em 1951, tendo Marlon Brando como protagonista. Seguindo a linha do primeiro longa-metragem, o texto foi ainda adaptado para a televisão, com Alec Baldwin no elenco. Mais tarde, personagens da série Os Simpsons homenageariam o dramaturgo com o episódio Um Bonde Chamado Marge.

Outros sucessos que chegaram às telas do cinema foram tramas que, de tão próximas da realidade, ganharam o coração do público e, na época, renderiam uma boa bilheteria, como A Rosa Tatuada, Boneca de Carne, Gata em Teto de Zinco Quente (com Elizabeth Taylor no elenco) e A Noite do Iguana. Ainda hoje, diversas obras de Williams chegam às telas do cinema e da televisão em novas adaptações a cada ano.

Tennessee Williams disse em uma entrevista que o teatro não é o espelho da vida, mas sim o seu sinônimo, pois ficção e realidade se confundem e não existem barreiras entre os dois. Nesta afirmação reside a sua genialidade.

Atualizado em 6 Set 2011.

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