Guia da Semana

50 anos de cinema

Documentário mostra a amizade de dois diretores, fazendo uma espécie de homenagem aos 50 anos da Nouvelle Vague

Foto: Getty Images

Embora a Nouvelle Vague tenha surgido com o filme Nas Garras do Vício (1958), do diretor Claude Chabrol, o movimento francês se concretizou com os clássicos Os Incompreendidos (1959), de François Truffaut, e O Acossado (1960), de Jean-Luc Godard.

Podemos considerar, então, que o documentário Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, que estreia nesta sexta (28 de maio) seja uma espécie de comemoração de 50 anos do movimento caracterizado pela juventude dos seus autores, dispostos a transgredir as regras do cinema comercial. 
 
Em 91 minutos, o diretor Emmanuel Laurent, em seu primeiro longa-metragem, destrincha a amizade entre os dois diretores que foi a força motora do principal movimento artístico dos anos 60. O roteiro saiu da mente de Antoine de Baecque, um dos maiores estudiosos da Nouvelle Vague na França e autor de François Truffaut - Uma Biografia e que está prestes a lançar uma biografia sobre Godard. Nada mais sensato que o roteiro ser de sua autoria.
 
Com impressionantes registros de arquivo com excelente qualidade de áudio e imagem (graças aos registros da TV belga, sempre engajada e interessada no movimento), Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague começa com a exibição de Os Incompreendidos no Festival de Cannes em maio de 1959 e a ovação da plateia, diante daquele novo modo de fazer cinema, assistindo ao "anti-filme" do Festival.
 
A bela ode à infância e descoberta da vida adulta dirigida por François Truffaut deu um novo frescor do mundo na mente de jovens que tinham muito a dizer e a mostrar com seu cinema. Jean-Pierre Léaud, no personagem Antoine Doinel (papel que faria pela primeira vez neste filme e eternizaria em diversos outros longas de Truffaut) no auge de seus 14 anos, trouxe em Os Incompreendidos um personagem encantador e incômodo, sufocado por uma sociedade conservadora e opressora. Era o alter-ego de Truffaut e Godard, de fato.

Paralelamente a isso, o documentário mostra o encontro de Truffaut com Godard que, de idades e ideias similares, vão se unir e tornar a Nouvelle Vague o que ela foi. Godard tem seu primeiro filme, Acossado, produzido por Georges de Beauregard. Filme que, curiosamente, vai de desencontro com a linguagem cinematográfica de Truffaut. São dois cineastas com os mesmos ideais que colocam seus pensamentos na tela de formas distintas.

Mostrando depoimentos da época, Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague preza pelo frescor do movimento primordialmente jovem. Não há ali, depoimentos do octogenário Godard, nem do sexagenário Léaud. Apenas Godard, Truffaut (morto de um tumor no cérebro em 1984, aos 62 anos) e Léaud, ainda jovens, ainda com o sonho de fazer cinema  inspirados em seus ídolos, como Alfred Hitchcock, Fritz Lang, Jean Renoir, Ingmar Bergman, Nicholas Ray, Roberto Rosselini e tantos outros. 
 
Com ritmo e linguagem característicos do cinema francês, o documentário vai mostrando, em narração off - mas nunca pedante -, conceitos, opiniões, reações e reflexões da Nouvelle Vague. Do espírito arisco de Godard à poesia de Truffaut, as contradições dessa amizade começam a se digladiar, como uma espécie de amizade de combate entre os dois gênios.

Após a decadência da Nouvelle Vague, acontece, em 1968, a demissão do ativista cinematográfico Henri Langlois por meio da decisão do Ministro da Cultura francesa, André Malraux Langlois, que comandava a Cinemateca Francesa, ganhou apoio de diversos cineastas e intelectuais da Cahiers Du Cinéma, revista de arte que trazia ensaios e críticas de Godard, Truffaut e os cineastas já citados logo acima. Tudo isso é registrado de forma acadêmica, como se estivéssemos assistindo a tudo de camarote, como no instante em que aconteceram.

Conhecido como "Maio de 68", os protestos pela volta de Langlois tiveram confronto direto com a polícia e exigiram o cancelamento do Festival de Cannes, considerado pelos intelectuais como uma farsa. Em 1973, Truffaut dirige seu filme-manifesto, A Noite Americana que é, na verdade, uma dedicação de seu amor ao cinema, o que não agrada Godard. O conflito intelectual entre os dois fica ainda mais tenso, influenciando na amizade dos dois cineastas. 
 
Nesse conflito, Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague mostra o papel do então jovem Jean-Pierre Léaud, espécie de filho de Godard e Truffaut, a peça chave do movimento. Léaud estava envelhecendo no mesmo momento em que o movimento. E a Nouvelle Vague, jovem e idealista, descobriu a realidade de um mundo que mudou, evoluiu, regrediu e abriu espaço para outros movimentos, mesmo que influenciados por ela. E Godard, em uma frase quase que perdida no documentário, explica isso quando diz: "O cinema é algo que aproxima a arte da vida". Só que (in)felizmente, muitas vezes, vida e arte caminham para lados opostos. 

Leia as colunas anteriores de Leonardo Freitas:

História Judia

Muitas perguntas
 
Está no sangue

Quem é o colunista: Um jornalista aficionado por cinema de A a Z.

O que faz: Dono do blog Dial M For Movies.

Pecado gastronômico: Lasanha.

Melhor lugar do Brasil: Qualquer lugar, desde que eu esteja com meus amigos.

Para Falar com ele: leonardo.g.freitas@gmail.com

Atualizado em 6 Set 2011.

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