Guia da Semana

Aceitando o mundo moderno

Crítica do filme independente Juno

De Los Angeles


Juno aposta no bom humor e na simplicidade para falar de gravidez na adolescência e outras coisas mais. Até a Academia se rendeu ao filme, que concorre a quatro estatuetas, incluindo de Melhor Filme!

O início meio descontraído e descompromissado de Juno, com sua animação aparentemente caseira, deixa bem claro ao espectador que está diante de um filme leve. Mas não entenda isso como sinal de superficialidade, muito pelo contrário. Tudo começa e termina com Juno MacGuff (Ellen Page), uma adolescente que fica grávida em sua primeira vez com o namoradinho (Michael Cera) e precisa decidir o que fazer da vida.

Como uma história "simples" conseguiu receber quatro indicações nas principais categorias do Oscar (Melhor Filme, Direção, Atriz e Roteiro)? A resposta também é simples: por ser autêntica. Sem muito segredo e sem invencionismo na história, Juno acontece como se alguém contasse a história de uma vizinha ou amiga. E o ato de contar histórias não requer engajamento político, mensagens subliminares ou algo que o valha. A pessoa conta, você se interessa, ri ou fica triste ao se envolver e descobre como tudo se resolveu. Ou não.

Claro que a direção de Jason Reitman (filho de Ivan Reitman, diretor de Os Caça-Fantasmas) foi fundamental para que tudo isso acontecesse. Seguro da história que tinha em mãos, com um elenco escolhido a dedo (pois os personagens foram escritos para cada um dos atores envolvidos) e sem a obrigação de ser um sucesso imediato de bilheterias (gastou "apenas" US$ 7,5 milhões), o diretor pôde criar um filme marcante e repleto de bom humor.

No final das contas, o grande trunfo de Juno é mesmo a surpreendente atuação de Ellen Page, uma jovem atriz que vem se destacando há algum tempo. Ela esteve em X-Men - O Confronto Final e já reúne mais de dezessete indicações a prêmios, incluindo o prêmio de Melhor Atriz no Oscar e no BAFTA. Ela tem repentes de genialidade ao conseguir mudar o humor da personagem instantaneamente, imprimindo todos os trejeitos e conceitos típicos da idade da personagem, sem, entretanto, parecer boba e desinteressante.

Como elenco de apoio, ela contou com dois nomes bem relevantes: Alysson Janney ( West Wing e Hairspray - Em Busca da Fama) e J.K. Simmons (o J.J. Jameson, da cinessérie Homem-Aranha, leia entrevista aqui), no papel de seus pais. O maior dilema de Juno não é revelar a gravidez, mas sim decidir o destino de sua criança. De qualquer forma, a reação vinda dos pais é uma mescla de espanto e apoio. Nada de posição extrema para defender um ponto de vista, apenas a reação que tem a maioria das pessoas que passa por essa situação; gerando, então, uma maior identificação.

A decisão de entregar a criança para adoção abre o caminho para que Jennifer Garner e Jason Bateman entrem em cena, como o casal de ricaços que pretende adotar o bebê. Claramente, como todo mundo, eles têm problemas que nem mesmo uma casa de cinema e um estoque de Don Perrignon na despensa conseguem esconder. A personagem de Jennifer incomoda um pouco, mas, aos poucos, se entende o que a faz ser irritante a princípio. Ela acaba respondendo pela parte realmente emotiva da história, já que Juno não está muito aí para sua condição e acaba direcionando as atenções para suas dúvidas sobre as pessoas, sobre o que é o amor e como os casamentos se sustentam.

Como todo grande filme tem uma trilha sonora à altura, Juno não poderia ser diferente. Numa seleção que mescla clássicos de David Bowie, Lou Reed, Buddy Holly e The Kings, cruza o rock moderno com Sonic Youth e passeia pelo mundo moderninho com ícones indie e do folk americano como Belle & Sebastian e Moldy Peaches. A trilha se encaixa perfeitamente com o clima e o universo da personagem - um pouco excêntrica, em busca de estilo próprio e cheia de convicções. Destaque para a composição de Courtney Love Anyone Else But You, interpretada por Ellen Page e Michael Cera.

O maior mérito de Juno é mostrar que o cinema ainda pode estar próximo das pessoas e que nem tudo são efeitos especiais caríssimos ou recriações de época. É uma história moderna, sobre aceitação e, sem dúvida, amor. Fraterno e casual. Real e de aparências. Ou seja, a vida como se está acostumado a ver, mas com um toque especial. É aquele filme que faz as pessoas saírem do cinema com um sorriso aberto sem saber ao certo por quê.

E, por isso, a incerta Juno MacGuff disputa a estatueta com "os sérios" Sangue Negro, Onde os Fracos Não Têm Vez, Conduta de Risco e Desejo e Reparação. Curiosamente, ela tem boas chances de vencer na noite de domingo. Como a briga está mesmo entre Sangue Negro e Onde os Fracos..., existe a possibilidade de que os votos fiquem divididos e Juno dispare rumo à vitória entre os favoritos para Melhor Filme. É uma situação similar àquela que viveu Pequena Miss Sunshine no ano passado, mas a impressão é de que Juno chega com mais força e com a única mensagem positiva e divertida no meio de tantos homens atormentados e mulheres sofridas. Já, em Melhor Roteiro, tudo indica que Juno leve a estatueta. Nada mais justo.

Veja também a entrevista com J.K. Simmons, do elenco de Juno Foto: Divulgação

Leia as outras críticas do nosso correspondente:

  • Senhores do Crime

  • Sangue Negro

  • Cloverfield - Monstro


    Quem é o colunista: Fábio M. Barreto adora escrever, não dispensa uma noitada na frente do vídeo game e é apaixonado pela filha, Ariel. Entre suas esquisitices prediletas está o fanatismo por Guerra nas Estrelas e uma medalha de ouro como Campeão Paulista Universitário de Arco e Flecha.

    O que faz: Jornalista profissional há 12 anos, correspondente internacional em Los Angeles, crítico de cinema e vivendo o grande sonho de cobrir o mundo do entretenimento em Hollywood.

    Pecado gastronômico: Morango com Creme de Leite! Diretamente do Olimpo!

    Melhor lugar do Brasil: There´s no place like home. Onde quer que seja, nosso lar é sempre o melhor lugar.

  • Atualizado em 6 Set 2011.

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