Guia da Semana

"Aprendi a pensar mais no outro"

Com 60 anos de carreira no cinema, Lima Duarte fala dos seus trabalhos, da viagem à Índia que mudou sua vida e o que pensa da nova geração de atores no Brasil



Disciplina, humildade e dedicação. Essas parecem ser as principais características do mineiro, da cidade de Desemboque, que chegou a São Paulo em um caminhão de mangas e atuou em rádio, TV e cinema. No alto dos seus 79 anos, Lima Duarte tem no "pequeno" currículo 57 novelas, 32 filmes e mais dezenas de seriados, com um rol de personagens que marcaram diferentes gerações de brasileiros. Embora não pareça, o cangaceiro Zeca Diabo, de O Bem Amado (1973), o Bispo, de O Auto da Compadecida (2000) e atualmente o brâmane Shankar, de Caminho das Índias, carregam a mesma vontade e paixão do artista, que em 1949 participava de sua primeira película.

Para homenagear um dos atores nacionais mais completos, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) inicia, em São Paulo e no Rio de Janeiro, uma mostra Lima Duarte: Profissão Ator, com exibições de longas e debates com especialistas. Quem pensa que ele vai se aposentar depois disso, está enganado. Enquanto houver projetos interessantes e aceitação do público, ele estará na frente das câmeras.

O Guia da Semana conversou com o homem de personagens multifacetados, que vão muito além do Sinhozinho Malta, em Roque Santeiro, e de Sassá Mutema, no O Salvador da Pátria. Confira!

Guia da Semana: Considerado um dos mais importantes atores do Brasil, você se tornou conhecido por papéis memoráveis na TV e no Cinema, como Sinhozinho Malta e Sargento Getúlio. Falta alguma coisa ainda para Lima Duarte se realizar profissionalmente?
Lima Duarte:
Como diz o próprio Stanislavski: "O bom ator estreia todos os dias". Então, deixo de lado o que já fiz e penso no que estou por fazer. Se me perguntarem qual o personagem que gostaria de representar, falaria de Macbeth, que tenho visto no Som e Fúria (série da Rede Globo). Outra vontade seria atuar em Rei Lear, de Shakespeare, em um projeto ousado, com Antunes Filho na direção.

Guia da Semana: Você teve passagens por rádio, TV e cinema. Em qual meio teve maior identificação?
Lima:
Eu gostei muito do rádio, onde trabalhei com Oduvaldo Viana e outros grandes nomes. Mas onde me dei melhor foi na televisão, não sei se por causa do veículo ou da época, que era mais profissional. Quando fiz rádio, ainda era um pouco amador.

Guia da Semana: Entre os 32 filmes em que atuou, qual foi o mais marcante?
Lima:
O Sargento Getúlio (1983), que fez muito sucesso. Particularmente, gosto muito de A Ostra e O Vento (1997), assim como o Eu, Tu, Eles (2000).

Foto: divulgação

Lima Duarte afirma que o Sargento Getúlio é o seu melhor personagem

Guia da Semana: E em relação aos personagens?
Lima:
O Sargento Getúlio, isso com certeza. Ele era um sertanejo raiz que, de repente, mete uma farda e manda prender um homem. Enquanto vai de carro buscar essa pessoa, o automóvel vai penetrando a Caatinga, aquela coisa medieval vai entrando na cabeça dele. O mundo em transformação, a tecnologia começa a afetá-lo, até que ele diz: "Não gosto que as coisas mudem!". Mas elas se alteram independente da vontade dele, e essas mudanças tão agudas fazem o personagem enlouquecer.

Guia da Semana: Então, deve gostar bastante de Grande Sertão Veredas (livro de Guimarães Rosa), que trata da aridez sertaneja e da relação do homem com o mundo?
Lima:
Adoro, além de ser uma leitura eterna, é o meu livro de cabeceira.

Guia da Semana: Você acha que a pornochanchada teve importância na cinematografia do Brasil?
Lima:
Teve grande importância para todos, mas não me lembro de fazer nenhum não. Fiz um pornô só, mas não tinha chanchada, era Os Sete Gatinhos (1977).

Guia da Semana: Atualmente, o que um projeto precisa ter para atrair Lima Duarte?
Lima:
Um projeto precisa ser profundamente humano, ligado ao brasileiro - imagino isso principalmente depois de minha viagem à Índia, onde aprendi a pensar mais no "outro". Os indianos sempre se interessam pelo outro, ao contrário da Igreja Católica que colocou na cabeça do Brasil essa figura do Cristo único, o que fez tudo e que fora dele não há salvação. Gosto muito dos hindus, que acreditam no Cristo, no Brahma, no Ganesh, além de apoiar a razão dos muçulmanos, dos espíritas, e de todos os outros deuses. Isso é uma coisa que me interessa muito, a base do crescimento humano é o outro, gosto disso e quero fazer personagens com essa filosofia, seja o outro filho, o pai, a mãe, a avó, mas sempre entendendo a sua verdade, a tristeza, a melancolia, o drama, a existência, enfim.

Guia da Semana: Esse trabalho de Caminho das Índias é uma boa maneira da população conhecer novas culturas?
Lima:
Sem dúvida nenhuma! Espero estar passando isso para os espectadores. Gostaria de fazer todo o Gita. Assim como Paulo Coelho plagiou usando trechos do Mahabhahata, eu gostaria de fazer o mesmo sucesso como personagem da televisão. Mas a novela não tratou só disso, e foi uma pena.

Foto: divulgação

O Alto da Compadecida, dirigido por Guel Arraes

Guia da Semana: Durante os últimos tempos, você afirmou algumas vezes nas entrevistas que pretendia parar com as novelas e investir só no cinema. Depois disso ainda fez duas participações em telenovelas. É muito difícil abandonar a TV?
Lima:
Um dia tenho que parar. Não gostaria, mas vai chegar o momento em que não dá mais. Não faço isso agora porque primeiro sinto a necessidade de trabalhar. Depois, sou muito solicitado, tem sempre um diretor ou autor falando dos encantos de sua obra, me envolvo e acabo fazendo. Um projeto como esse de Caminhos da Índia é interessante, proporcionando a oportunidade de mergulhar no hinduísmo, onde fiquei durante meses, estudando aqueles hábitos e costumes tão interessantes. Quando o trabalho é assim, me entusiasmo e vou. Assim, o próximo projeto também deverá ter algum encanto.

Guia da Semana: E para o cinema, alguma nova atuação em vista?
Lima:
Vou fazer um filme em Portugal assim que terminar a novela. Será com um diretor com quem já filmei, o Paulo Rocha.

Guia da Semana: O que pensa sobre a nova geração de atores brasileiros?
Lima:
Eu, por exemplo, não conheço esse jovem pessoal que está fazendo teatro na Praça Roosevelt. Mas, o que vejo na televisão é tudo muito ruim, incultos. É preciso estudar muito pra ser ator e o pessoal leva isso muito na brincadeira, só quer sair em capa de revista. Ninguém quer estudar realmente para ser um ator, um mensageiro de ideias, um intérprete de povos. Nenhum deles pensa nisso.

Guia da Semana: O que o Lima Duarte faz agora que não fazia há 60 anos?
Lima:
Ah bom, o que faço agora... Ficar em casa todas as noites, lendo e ouvindo música. Há 60 anos, eu estaria na "zona" com a mulherada. Na verdade, eu morava naquela região, em São Paulo. Jamais faria isso hoje, não quero nem ouvir falar em sair de casa. Badalação não me interessa mais.

Bate bola

Trilha sonora: Björk, naquele filme Dançando no Escuro (2000).

Ator/ atriz nacional: tem vários, gosto do Matheus Nachtergaele, Selton Mello.

Ator/ atriz estrangeiro: o alemão Klaus Maria Brandauer que fez o personagem Höfgen, em Mefisto (1981); Anil Kapoor, que fez o animador de auditório Prem Kumar em Quem Quer Ser um Milionário (2009). Gosto de trabalhos especificamente, um ou outro, não do ator em si. Acho que um ator medíocre pode, de repente fazer um grande trabalho.

Filme: Meu Tio da América, de Alain Resnai (1980), Quem Quer Ser um Milionário e Dogville (2003).

Livro: Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa.

Personalidade: Estou muito entusiasmado com Barack Obama, muito culto e muito inteligente.

Um período da sua vida: Quando estava com meu pai e minha mãe, pois não me canso de lembrar dos momentos que passei com eles.

Uma frase: "As coisas boas que o dinheiro pode comprar, hoje tenho todas. As que o dinheiro não pode, sempre tive".



Serviço

 

Lima Duarte: Profissão Ator


São Paulo: de 28/7 a 16/8

Endereço: Rua Álvares Penteado, 112

Tel.: (11) 3113 3651


Rio de Janeiro: de 31/8 a 20/9

Endereço: Rua 1º de Março, 66

Tel.: (21) 3808 2000


Atualizado em 6 Set 2011.

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