Guia da Semana

“Até que a Sbórnia nos Separe” abraça o surrealismo e a poesia

Animação gaúcha dá vida à peça “Tangos e Tragédias” e homenageia artistas da literatura e do cinema

Nos últimos dois anos, o Brasil saiu da lanterna da produção mundial de animação para o topo do maior prêmio do gênero, chamando a atenção pela autenticidade de seus artistas. “Até que a Sbórnia Nos Separe” é mais uma dessas boas surpresas e finalmente chega aos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro neste mês.

“Sbórnia” é coisa de poetas. Fernando Pessoa, Mário de Andrade, Ed Wood e Fritz Lang estão todos ali, despejando seu expressionismo e seu “rrr... eterno” para quem quiser ver. O filme é certamente pretencioso, erguendo piadas para uma minoria rebater - mas é uma pretensão que falta ao cinema brasileiro, hoje tão amarrado à ditadura das bilheterias e das fórmulas emprestadas da TV.

A história é inspirada numa peça de teatro gaúcha famosa desde os anos 80, chamada “Tangos e Tragédias”. O filme, como a peça, conta as desventuras de uma cidadezinha com ares de Europa Oriental chamada Sbórnia, separada do continente por um estreitíssimo istmo e por uma muralha, construída das lavas de um vulcão.

Cena de Até que a Sbórnia Nos Separe

A vida desse povoado meio medieval vira do avesso quando, durante uma violenta partida de “machadobol” (um futebol americano com machados), a muralha se quebra, abrindo passagem para o moderno continente e seus carros, biquínis e fábricas.

Os protagonistas são dois músicos locais, Krauno (Hique Gomez) e Pletskaya (Nico Nicolaiewsky, falecido em 2014, a quem o filme se dedica). O primeiro é mudo por opção e muito apegado às tradições, enquanto o outro é um romântico incurável, sempre chorando por alguma desilusão amorosa.

Por ironia do destino, Pletskaya se apaixona por uma garota do outro lado da fronteira (Cocliquot, interpretada por Fernanda Takai), justamente a filha do empresário que está destruindo a Sbórnia.

Cena de Até Que a Sbórnia Nos Separe

O filme tem uma mensagem ambientalista e anti-capitalista, mas também brinca com os costumes selvagens dos sbornianos e com sua política totalmente ineficiente, a que chamam de “anarquismo hiperbólico”. Com tanta ironia, a animação se identifica mais com o modernismo anti-tudo dos paulistas de 1922 do que com o caretismo contemporâneo globalizado. Ponto para o Brasil.

O grande mérito de “Até que a Sbórnia nos separe” é essa liberdade criativa a que ela se permite. Não é todo dia que vemos um pombo-correio devorar uma carta, uma cafeteira italiana ser o obelisco da cidade ou uma comunidade inteira dormir de cabeça para baixo.

O surrealismo, porém, convive com um roteiro consistente e não faz com que o trabalho pareça mero experimentalismo. Pelo contrário, a Sbórnia nos prende e nos deixa curiosos, querendo saber mais sobre aquela terra de loucos e poetas. É bom saber que ainda há espaço para alguns deles nos cinemas.

Atualizado em 16 Jan 2015.

Por Juliana Varella
Compartilhe

Comentários

Outras notícias recomendadas

Veja os melhores cosplays da Comic Con Experience 2016 (CCXP)

Evento acontece no São Paulo Expo entre 1 e 4 de dezembro

CCXP 2016 surpreende com vídeos exclusivos no segundo dia de evento

Cena de novo “Homem-Aranha” e trailer de “Planeta dos Macacos: A Guerra” foram destaques na sexta-feira

"Jumanji" tem estreia no Brasil adiada para 2018

Anúncio foi feito pela Sony durante a CCXP

Assista à entrevista exclusiva com Fiuk e Sandy sobre a animação "Sing - Quem Canta Seus Males Espanta"

Filme estreia no dia 22 de dezembro nos cinemas

"A Múmia": Remake com Tom Cruise ganha teaser e pôster

Estreia está agendada para junho de 2017

Cahiers du Cinéma elege os melhores filmes de 2016

O brasileiro "Aquarius" aparece em quarto lugar na lista