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Brasil Animado

Depois de participar de produção indicada ao Oscar, cineasta paulista Marcelo de Moura aposta no mercado de animação nacional


Indicado ao Oscar, O Segredo de Kells teve parte do filme realizado no Brasil, no estúdio de Marcelo de Moura

Pouco conhecido no Brasil, mas respeitado lá fora, o animador Marcelo de Moura conquistou algo raro entre os brasileiros. O cineasta viu mais um de seus trabalhos, a animação O Segredo de Kells, ser indicado ao Oscar. O filme, uma co-produção entre França, Irlanda e Bélgica, teve em sua equipe um grupo de brasileiros comandado por Moura. O trabalho - o desenho dos personagens de mais da metade do filme - foi realizado no estúdio do cineasta no Brasil, por ex-alunos do ArtAcademia, escola que fundou em São Paulo para aquecer este mercado no país.

Moura falou ao Guia da Semana e contou um pouco sobre a produção de O Segredo de Kells, sobre sua carreira e o crescimento do mercado de animação por aqui. De acordo com ele, que já participou de filmes como Mulan e Era do Gelo, e está preparando um longa-metragem em 3D brasileiro, em aproximadamente dois anos, o público já verá uma safra de boas animações nacionais nas telas. Confira a entrevista:

Guia da Semana: Como foi receber a notícia da indicação ao Oscar? Vocês já esperavam por isso?
Marcelo de Moura: Não. Para falar a verdade, todo mundo já ficou contente de o filme estar entre os vinte que a academia tinha selecionado para as cinco indicações. Foi uma jornada, porque muito filme de animação ficou de fora. E dentro desses vinte, a gente sabia que iria ser bem difícil, porque estávamos lidando realmente com blockbusters. Um dos maiores filmes em arrecadação estava entre esses vinte e acabou não sendo indicado. Na hora em que fomos para a lista de cinco indicados, foi aquela felicidade geral. A premiação, para todo mundo que trabalhou neste filme, foi esta indicação.

Guia da Semana: Já existe alguma previsão de distribuição de O Segredo de Kells no Brasil?
Moura: Por enquanto ainda não tem. O filme foi lançado em 2009 na Europa, está sendo lançado nos EUA e no Brasil ele passou somente no circuito alternativo. Ficou duas semanas em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro, no Festival do Cinema Infantil, do Cinemark.

Guia da Semana: Como foi o trabalho da sua equipe na realização deste filme?
Moura: Nós ficamos com a parte dos personagens, com a produção da animação deles. A parte de cenários ficou com a França; de pré-produção e criação com a Irlanda; e na Bélgica ficou a parte de pintura dos personagens e composição final. E aí, toda a parte de desenho dos personagens ficou entre o Brasil e a Hungria.

Guia da Semana: Essa divisão dos personagens entre os dois países era feita como? Pelo tempo do filme?
Moura: Pela quantidade de trabalho que tinha. Por exemplo, nós ficamos com um pouco mais da metade da parte dos personagens, e isso foi dividido em questão do tempo e da verba que tinha para se produzir.

Guia da Semana: Qual foi o caminho que você percorreu até entrar no mercado de animação?
Moura: O mesmo que fazem tanto na Europa quanto nos EUA e Canadá. A pessoa vai para uma escola de animação adquirir o aprendizado básico e depois para o mercado de trabalho, mas na minha época era diferente. Não havia escolas de animação, e você tinha que tentar entrar no mercado publicitário para adquirir conhecimento. Então, eu entrei neste mercado, passei três anos no Brasil trabalhando em animação publicitária, e logo arrumei meu portfólio e saí do país. Eu sabia que era necessário ficar trabalhando na parte de entretenimento para poder aprender bem, mas tinha o meu foco de querer trabalhar com a Disney.

Guia da Semana: E como foi este processo até chegar à Disney?
Moura: Eu mostrei o meu portfólio para eles e para um concorrente. A Disney gostou, mas não conseguiram arrumar visto de trabalho para mim. Mas o outro concorrente, o Don Bluth - que foi o diretor do Fievel, Um Conto Americano, feito com o Steven Spielberg, e que fez Anastasia -, tinha estúdio também na Irlanda. Eu decidi então ir para a Europa, trabalhar com o próprio Bluth, que tinha passado muitos anos na Disney. Esse foi meu primeiro emprego fora do Brasil. A partir disso, fiz o meu portfólio, mandei para a Disney e fui selecionado para o filme Mulan.


Mulan foi a primeira produção da Disney que contou com os traços do animador brasileiro

Guia da Semana: Após doze anos fora, por que voltar para o Brasil e montar uma escola de animação?
Moura: Nós tínhamos a intenção de trazer esse tipo de trabalho para o Brasil, só que para isso, a gente precisava criar mão de obra. O brasileiro é muito talentoso, mas precisávamos colocá-lo nos padrões internacionais de animação. Por isso a gente fundou a ArtAcademia, para treinar esse talento e trazer mais trabalhos para cá. E foi exatamente o que acabou acontecendo.

Guia da Semana: Os profissionais que estão saindo da ArtAcademia também querem contribuir para o mercado nacional ou querem trabalhar fora?
Moura: Uma coisa que é um fato é que muita gente da escola está entrando no mercado de animação. Eu percebo que esse pessoal que está entrando no mercado brasileiro, grande parte está contente de ver isto crescer e eles terem oportunidade de trabalhar no mercado aqui no Brasil. Para falar a verdade, nós tivemos alunos que saíram do Brasil, foram trabalhar fora, mas a maior parte acaba trabalhando aqui no país.

Guia da Semana: Existem no Brasil, muitos animadores respeitados, mas que trabalham para o mercado internacional, como, por exemplo, você e o Carlos Saldanha, de Era do Gelo. O que falta para que o país produza seus próprios filmes de animação?
Moura: Eu acho que já estamos chegando a esse ponto. Acho que, em mais dois anos, a gente tem vários projetos de animação aqui no mercado brasileiro, sendo desenvolvido pelas empresas brasileiras. Já temos séries de TV, então eu acho que nos próximos dois anos a gente já vai ter esse resultado. Mas o mercado já está se aquecendo.

Guia da Semana: E isso está crescendo junto com o cinema de atores ou não tem uma relação direta?
Moura: Sim, isso é natural até. A demanda por animação cresceu muito no mundo inteiro e o brasileiro consome muita animação. É um dos produtos que mais dá retorno de bilheteria aqui no Brasil. Então, obviamente, as produções brasileiras vão começar a chegar na tela.

Guia da Semana: E como está atualmente esse mercado?
Moura: Aumentou a quantidade de estúdios, o número de produções; já não se produz só para publicidade. A própria internet criou outros conteúdos. Então, para o entretenimento em geral, a cada ano expande mais esse mercado.

Guia da Semana: E você também tem um projeto de um filme de animação nacional?
Moura:  Existe um projeto de longa-metragem que irei começar em breve. Eu ainda não posso falar sobre o que é, mas é um projeto em computação gráfica, em 3D, para o público em geral, e é uma história bacana, com muita comédia e de coração.

Atualizado em 10 Abr 2012.

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