Guia da Semana

Cara de cinema

Com mais de dez longas nacionais na bagagem, o ator baiano João Miguel conquistou o público e a crítica é um dos destaques do cenário cinematográfico atual

Foto: Cyntia Calhado

João Miguel faz parte do elenco de Hotel Atlântico, dirigido por Suzana Amaral, que está em cartaz nos cinemas

Aos nove anos, o menino João começou a fazer teatro em Salvador, onde nasceu, e já demonstrava aptidão pelo universo das artes. Com um talento precoce, ele apresentava um programa onde os atores eram os repórteres. Na época, um de seus entrevistados foi ninguém menos que Glauber Rocha, mas só mais tarde teve consciência de quem era aquela personalidade: um dos ícones do Cinema Novo. Hoje, aos 39 anos, João Miguel é considerado um ator privilegiado. Além de ter estrelado 15 filmes, protagonizou algumas das melhores produções brasileiras dos últimos anos e foi muito prestigiado pela crítica, como em Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, e em Estômago, de Marcos Jorge. Atualmente, ele está nas telonas com o filme Hotel Atlântico, de Suzana Amaral.

Ator criador

O grande divisor de águas em sua carreira foi o monólogo Bispo, apresentado por quatro anos em diversas cidades do Brasil. A peça aborda a trajetória do Bispo do Rosário, artista que ficou enclausurado 50 anos em um hospital psiquiátrico, onde produziu as mais diversas obras utilizando restos da sociedade, como lixo e sucata. João Miguel passou cinco anos debruçado em um árduo trabalho de pesquisa, mas que lhe rendeu reconhecimento. Brilhante no palco, o ator recebeu o convite de Marcelo Gomes para participar dos testes de Cinema, Aspirinas e Urubus. Em meio a centenas de candidatos, João conquistou o personagem Ranulpho, cuja interpretação lhe garantiu os prêmios de melhor ator do Festival do Rio e da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2005.

Depois do longa de Marcelo Gomes, João Miguel dedicou-se inteiramente ao cinema. Um dos pontos interessantes de sua trajetória é a participação em diversas produções de diretores estreantes, mas que fizeram sucesso entre o púbico e a crítica, como Cidade Baixa, de Sérgio Machado, Eu Me Lembro, de Edgar Navarro, Mutum, de Sandra Kogut, e Deserto Feliz, de Paulo Caldas. Para o baiano, atuar no primeiro trabalho de um cineasta possibilita uma experiência autoral maior. "Por um lado é bom e por outro não. Em todo processo há insegurança. O bom de trabalhar com diretores estreantes é que, normalmente, há um ambiente maior para descobertas e questionamentos, porém pode gerar uma certa insegurança em toda equipe", diz.

Foto: Divulgação

João Miguel e Júlio Andrade em cena de Hotel Atlantico

Demasiadamente humano

A maioria dos personagens interpretados por João é caracterizada pela falta de conhecimento e pela ingenuidade. Ele também é marcado por várias atuações nordestinas. Contudo, ele diz que não se sente estigmatizado por seus papéis nordestinos, por que além de ter muito orgulho de suas raízes, escolhe o trabalho pela força da figura dramática. "Procuro fazer personagens que interessam e que têm algo a dizer. O sertão do nordeste representa muito para o país, resgata a origem do Brasil, como foi muito bem explorado pelos filmes de Glauber", afirma. Em relação à inocência transmitida nas atuações, o ator acredita que seja reflexo de uma sensibilidade inata. "Meus personagens imprimem uma humanidade que é minha. Apesar de serem diferentes um do outro, mostram uma característica que faz parte de mim. Parto de mim mesmo para construí-los".

Para ele, o cinema possibilita um espaço de desnudamento que é muito rico para o ator. Ao ser questionado pelas preferências, o artista diz que não há um papel predileto. "Em cada filme me entrego por inteiro. Me apaixono por cada personagem. Sou um apaixonado pela arte. Vivo intensamente cada um", conta. Em Hotel Atlântico, seu mais recente lançamento, interpreta Sebastião, que no livro homônimo de João Gilberto Noll é negro e faz parte de uma minoria gaúcha. Já na obra de Suzana Amaral, ganhou outros contornos, mas que foram bem vistos pelo autor. "Suzana preservou as características de ser um personagem deslocado daquele contexto. Recebi um elogio do escritor pela atuação", revela.

De volta ao teatro

Foto: Divulgação

O ator baiano em cena do monólogo Só, adaptado do texto da dramaturga italiana Letizia Russo

Com saudades dos palcos, em fevereiro de 2009 estreou a peça Só, escrita pela italiana Letizia Russo e dirigida por Alvise Camozzi. Novamente sozinho em cena, João partiu desse sentimento de solitude para retratar o reencontro de um homem com uma mulher com quem viveu, na adolescência, uma intensa relação. Ainda em 2009, o ator foi convidado a integrar o elenco de Tropa de Elite 2, de José Padilha,  porém, em uma decisão tomada em conjunto com o resto da equipe, deixou o filme por incompatibilidade ideológica com a forma de produção. "Fiz um acordo com José. Achamos melhor que eu não participasse do filme", diz.

Apesar de fazer teatro desde cedo, João Miguel só obteve reconhecimento depois dos 30, o que lhe deu mais maturidade para lidar com as críticas e desenvolver os trabalhos. "Apesar de ter feito muitos filmes, não sou um ator popular, o que não tira a minha liberdade. Eu preciso da rua para criar", pontua. João ainda não fez novelas, mas já participou de programas televisivos e minisséries, como Antônia, transmitida em 2007 pela Rede Globo, e Ó Paí, Ó, série global de 2008. Entretanto, afirma que pretende atuar em telenovelas, mas os convites até agora foram incompatíveis com a sua agenda voltada para o cinema. Por enquanto, os fãs poderão conferir o trabalho de João Miguel em Bonitinha Mas Ordinária, de Moacyr Goés, e na refilmagem de A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Vinicius Coimbra, que devem estrear em 2010.


Atualizado em 6 Set 2011.

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