Guia da Semana

Cineastas visionários

Equipe e elenco de Ensaio Sobre a Cegueira falam em São Paulo sobre a produção, adaptada de obra de José Saramago

Foto: Gabriel Oliveira
Andréa Barata Ribeiro, Alice Braga, Fernando Meirelles, Julianne Moore, com sua tradutora, e Niv Fichman

Em 1995, o escritor português José Saramago lançou o que deveria ser mais um volume de seu legado, mas que acabou se tornando uma das principais obras em língua portuguesa. Ensaio Sobre a Cegueira, que conta a história de uma cidade fictícia assolada por uma estranha epidemia de cegueira, atingiu altos patamares, primeiro ao render ao autor, no mesmo ano, o prêmio Camões. Depois, em 1998, foi laureado com o troféu máximo dado a uma obra literária, recebeu o Nobel de Literatura, comprovando a importância de seu texto.

Natural seria que o livro fosse adaptado aos cinemas. Porém, esta não seria uma missão tão simples. O produtor canadense Niv Fichman logo garantiu os direitos sobre as filmagens, mas demorariam dez anos para que o filme ficasse pronto. Era necessário um diretor de coragem que assumisse a responsabilidade. E o escolhido foi o brasileiro Fernando Meirelles, de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel. A produtora Andrea Barata Ribeiro revela que demorou três anos desde o momento que Fichman os procurou até o lançamento.

Os produtores, o diretor e as atrizes Julianne Moore e Alice Braga fizeram questão de passar pelo Brasil para lançar Ensaio Sobre a Cegueira. Durante a entrevista, Moore chegou a se intimidar com o grande assédio dos fotógrafos. Estes, porém, também se assustaram com a câmera de Niv, que aproveitou para registrar o momento. Apesar da produção internacional, Meirelles faz questão de ressaltar que "não é um filme hollywoodiano". A produção fica por conta do Canadá, que forneceu os direitos, Brasil, que trouxe a equipe e algumas locações, e Japão, que financiou 70% do orçamento.

Foto: Gabriel Oliveira
Julianne Moore durante coletiva de Ensaio Sobre a Cegueira em São Paulo

Mesmo sendo uma grande produção, o longa é independente, assim como foram os outros de Meirelles. "Já tive convites para fazer filmes de estúdio, mas pretendo continuar não aceitando". Moore, que também prefere os independentes, não se poupou de elogiar o diretor. "Em geral, nos filmes dele, você vê muito as pessoas e não as atuações. É uma atuação que se parece com o comportamento normal", diz. A atriz também se encantou com o autor. "Fiquei impressionada com a linguagem do roteiro e achava que era pela dificuldade com o idioma, mas logo percebi que não, que era o estilo do Saramago".

Para adaptar esse estilo não foi tão simples. Meirelles precisou usar uma série de truques para fazer o espectador entrar no clima da história. Além de, em muitos momentos, a tela ficar bastante branca, ele usa muito o reflexo de imagens, planos mal-enquadrados, imagens fora de foco e, no fim da projeção, imagem e som se dissociam. Esta dificuldade também foi para os atores, que sequer sabiam o histórico de seus personagens. "A maneira como eles interagem é muito parecida com a vida real. Quando você conhece alguém, não conhece seu histórico, mas aquilo que vê", diz Julianne.

Uma cena, em especial, acabou sendo mais difícil que as demais. Nela, há um estupro, filmado de forma bastante realista. Nas exibições teste, Fernando viu que aquilo estava demais e achou melhor tirar. "Eu percebi que a cena, ao invés de ajudar o filme, desconectava o espectador". Ele ainda completa que "você gosta da cena que rodou, mas chega uma hora, quando vai assistir ao filme inteiro, que vê que não funciona". Sem a parte mais pesada, o longa conseguiu algo inédito, foi a primeira produção a abrir e concorrer à Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Foto: Gabriel Oliveira
Alice Braga posa para foto com Julianne Moore e Fernando Meirelles

Apesar de Ensaio Sobre a Cegueira não retratar nenhuma cidade real, grande parte dele foi filmado em São Paulo. Como a população está cega, houve um grande trabalho para fechar as ruas e deixar tudo sujo para as filmagens. "A gente tinha que chegar às duas da manhã, espalhar todo o lixo, filmar na hora que aparecesse a luz e, duas da tarde, recolher tudo, limpar o lixo e liberar a cidade", diz Meirelles. Sobre este caráter social de seus últimos filmes, o diretor é claro, "não me considero um cineasta engajado, sou uma pessoa que se interessa pelo mundo".

Como este interesse se converte em bons filmes, fica muito mais fácil. "Eu tenho a possibilidade e a sorte de só fazer as coisas que eu gosto e que mexem comigo". Assim, cria um clima agradável nas filmagens. Algumas das cenas mais tensas, no hospital, foram feitas em um presídio no Canadá, mas a tensão ficou só diante das câmeras. "É engraçado porque o presídio tinha um lago na frente, um gramado verde lindo, que eu ia jogar bola com os filhos da Julianne, brincava com o Kiko, do Fernando, ficamos todos muito amigos", diz Alice Braga. Mesmo assim, Meirelles pretende descansar agora. "O próximo filme eu quero fazer um bem pra cima, uma comédia".

Atualizado em 6 Set 2011.

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