Guia da Semana

Crepúsculo da puberdade

Novo hit cinematográfico reinventa os filmes adolescentes com romantismo demais, porém, sobrenatural de menos. Chega a hora de Crepúsculo e a saga da família Cullen nos confins dos Estados Unidos

Los Angeles


Os vampiros estão em alta no mercado americano. O ano em que os Garotos Perdidos retornaram às telas também foi marcado pela estréia da fantástica série True Blood na HBO. Seguindo esta linha, o gênero fechou 2008 com chave de ouro nas bilheterias com Crepúsculo, de Catherine Hardwicke. É romance adolescente assumido, com pitadas de sobrenatural e a certeza de longa vida nos cinemas, para a sorte de Robert Pattinson (Harry Potter e o Cálice de Fogo) e Kristen Stewart, que interpreta Bela.

O sucesso de Crepúsculo, livro de Stephenie Meyer, foi determinante para sua adaptação cinematográfico, garantindo a recepção alucinada do filme e dos atores em Los Angeles. A première oficial foi presenciada por mais de dois mil fãs que, mesmo sem poder assistir ao longa, transformaram a porta do cinema em um inferno, por conta dos gritos, flashs ininterruptos e tentativas de agarrar os "novos astros". Pattinson sofreu a pior delas, ao ser agarrado algumas vezes e ouvir pedidos de "me morda, por favor". É fanatismo exacerbado. E tudo isso, mesmo antes do filme estrear.

Claro que tamanho alvoroço só poderia ser traduzido como hit nas bilheterias, afinal, Crepúsculo tem tudo que o momento precisa: romance adolescente, mundo da geração iPod e, claro, vampiros bonitões, prontos para arrebatar corações (e pescoços) das jovens espectadoras. Crepúsculo beira à idolatria nos Estados Unidos e, curiosamente, abrange muito mais que as adolescentes ensandecidas. A segunda maior fatia de espectadores é composta por crianças entre 10 e 12 anos, afinal, ao verem seus irmãos e irmãs mais velhas falando tanto sobre a história, os pequenos pegam gosto pela coisa.

Bom, para Hollywood e, claro, para o hábito da leitura, que é reforçado com esse tipo de fenômeno. Situação que, aliás, não era vista desde o surgimento de Harry Potter. Porém, Crepúsculo vai além de mera atualização de filmes de vampiros - o produto revitalizou os filmes adolescentes com suas fórmulas manjadas e dramas envolvendo "amigas para sempre" e "popularidade". Crepúsculo foca na individualidade e no potencial da força de vontade de cada um de seus personagens. Por conta disso, tanto os vampiros - em especial Edward (Pattinson) - quanto os humanos podem atravessar seus ritos de passagem e amadurecer ao longo do processo. Tudo isso sem ser óbvio, um ponto mais que positivo.

Claro que, retirados os elementos vampirescos, Crepúsculo seria apenas mais uma história de amor juvenil, uma espécie de Romeu e Julieta, com desfecho feliz. São dois mundos em conflitos e dois jovens ensaiando os primeiros passos de uma vida eterna juntos. Mas, nem tudo são flores (o próprio trailer já apresentava um inimigo e uma luta homérica). O confronto é frustrante e resolve-se rapidamente sem grandes demonstrações de poder extremo dos seres da noite envolvidos. Talvez aí esteja o ponto fraco de Crepúsculo: sentimentalismo demais e sobrenatural de menos.

A revelação de Edward como vampiro gera uma cena belíssima, com sua pele revestida em diamantes microscópicos e toda a admiração causada em Bela. Os hábitos peculiares dos Cullen também geram boas situações, mas tudo é sempre ditado pelo aspecto social e familiar. Claro que ninguém esperava por vampiros com capa e sotaque estilo Bela Lugosi, mas o aspecto fantástico ficou em segundo plano, o que poderia garantir mais impacto no público adulto e nos seguidores mais fiéis ao mundo dos vampiros.

Crepúsculo é bem-feito, cumpre sua função e entrega um belo romance. Mas até quando o final feliz pode durar? Afinal, um deles ainda é mortal e o tempo é inexorável.


Quem é o colunista: Fábio M. Barreto adora escrever, não dispensa uma noitada na frente do vídeo game e é apaixonado pela filha, Ariel. Entre suas esquisitices prediletas está o fanatismo por Guerra nas Estrelas e uma medalha de ouro como Campeão Paulista Universitário de Arco e Flecha.

O que faz: Jornalista profissional há 12 anos, correspondente internacional em Los Angeles, crítico de cinema e vivendo o grande sonho de cobrir o mundo do entretenimento em Hollywood.

Pecado gastronômico: Morango com Creme de Leite! Diretamente do Olimpo!

Melhor lugar do Brasil: There´s no place like home. Onde quer que seja, nosso lar é sempre o melhor lugar.


Atualizado em 6 Set 2011.

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