Guia da Semana

Crítica: “Chocolate” discute preconceito racial e arte na França do início do século XX

Omar Sy interpreta o primeiro artista circense a trabalhar nos teatros franceses

Biografias de artistas são um gênero encantador, mas quase sempre caem na mesmice de obedecer a um dos seguintes formatos: ascensão e queda por excessos com drogas ou obsessões; ou apenas a ascensão, de quem não tinha nada para quem dominou (ou mudou) o mundo, mesmo que, no caminho, tenha perdido um pouco de tudo. Não é assim com “Chocolate”: o longa francês que chega ao Brasil na semana que vem pelo Festival Varilux traz algo diferente e surpreendentemente mais humano.

O filme conta a história do primeiro artista circense negro a conquistar os teatros de Paris, na virada do século XX, que assumiu o nome artístico de “Chocolate”. O interessante, e que torna sua história muito mais complexa, é que ele não fez isso sozinho: ele tinha um parceiro branco e, juntos, eles foram pioneiros no dueto “Branco e Augusto”, formado por um palhaço mais atrapalhado e outro mais sério, em cujas rotinas, em geral, um agredia o outro.

Omar Sy (“Intocáveis”), novo queridinho do cinema francês, é quem carrega o papel principal, dando ao personagem uma transparência assombrosa. Seu Chocolate não é o artista ambicioso que sonha com um mundo mais igualitário, nem o coitado talentoso que é explorado pelos mais fortes – ele é algo no meio, mais inseguro e inconstante.

Nascido escravo e incorporado ao circo como um “canibal africano”, ele faz o que é preciso para ganhar seu sustento e ajudar sua trupe, entretendo o público com o que lhes agradar mais sem se incomodar com isso. Um dia, ele é abordado pelo palhaço Footit (James Thierrée), que lhe propõe a parceria, e os dois fazem tanto sucesso que são contratados pelo dono de um grande teatro parisiense.

A relação entre Chocolate e Footit é intrigante e foge de todo o tipo de estereótipos: ao mesmo tempo em que Footit escolhe trabalhar um humor baseado na opressão do negro, fora do palco ele trata o companheiro como igual, dividindo igualmente o salário (pelo menos no início), respeitando seus vícios (Chocolate é um mulherengo e gasta todo o seu dinheiro em jogos de azar) e lutando para que os dois sejam vistos como uma dupla – e não como “Footit e seu negro”, como a imprensa às vezes os chamava.

Por outro lado, Footit tem uma frieza natural que faz com que o espectador se questione, o tempo todo, se realmente existe um sentimento de amizade entre os dois, ou se a parceria é meramente profissional. Um outro lado do personagem é sugerido brevemente, instigando outras interpretações para o seu comportamento.

A consciência racial de Chocolate começa a se expandir no auge do sucesso da dupla, quando ele é preso por falta de documentos. Na cela, o artista conhece outro negro, mais politizado, que o provoca lembrando que ele só é amado pelo público porque se deixa apanhar de um branco todas as noites. Não seria a hora de provar seu valor como mais do que um palhaço?

“Chocolate” é um filme baseado em fatos reais e, como tal, retrata a sociedade francesa do início do século como o que ela era: preconceituosa e lenta em suas mudanças. Apesar de se passar num momento muito específico do passado, entretanto, a história ainda ressoa na atualidade, encontrando paralelos na questão dos imigrantes na Europa, nos diversos tipos de preconceito social e na discussão dos limites do humor e da publicidade.

O filme será exibido no Festival Varilux de Cinema Francês entre os dias 8 e 22 de junho, em 50 cidades brasileiras, e entrará em cartaz no dia 21 de julho. 

Atualizado em 2 Jun 2016.

Por Juliana Varella
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