Guia da Semana

Crítica: “Corrente do Mal” se distancia dos outros filmes de terror pela sutileza e tensão

Filme aborda tema tradicional do gênero com olhar fresco e juvenil

Não é de hoje que o cinema de horror gosta de explorar a culpa dos adolescentes em relação ao sexo, lançando maldições sobre jovens casais e preenchendo a tela com mortes e perseguições. Em “Corrente do Mal” (no original, “It Follows”, algo como “a coisa segue”), não é diferente, mas a sutileza com que o tema é tratado faz do filme de David Mitchell uma peça rara.

“Corrente do Mal” é um daqueles filmes levemente supervalorizados, que ganharam pontos extras pelo boca-a-boca antes de chegar aos cinemas. Mas nem tudo é exagero e existe, realmente, algo que faz esta obra muito mais interessante do que qualquer horror com espíritos que tenha estreado nos últimos anos.

Em primeiro lugar, a história é bem simples e não há grandes mistérios para desvendar: depois de transar com um garoto, Jay (Maika Monroe) descobre – de forma bastante sinistra – que ele era perseguido por “algo” e que ela, agora, será perseguida até que “passe” a maldição ao próximo. Vocês sabem como.

Esse “algo” toma a forma de diferentes pessoas, frequentemente seminuas, que andam em linha reta encarando o amaldiçoado. Nenhuma outra pessoa consegue vê-las e, caso encostem na vítima, podem matá-la (num processo bastante sugestivo que só reforça a ideia da culpa).

Em segundo lugar, muito pouco é realmente mostrado. Ao contrário dos seus companheiros de gênero, “Corrente do Mal” nunca mostra seu vilão (é um espírito? É uma força emanada por alguém? Ele tem uma forma? Jamais saberemos) e quase nunca mostra os resultados de sua vilania – os mortos e feridos são raríssimos. O foco, aqui, é na tensão que sua existência provoca; no estresse de se sentir observado e caçado após um ato sexual. Pior: o ato se torna uma violência quando a vítima sabe que está passando a “maldição” ao parceiro. Como lidar com essa responsabilidade?

Paralelamente ao terror, uma segunda trama se desenrola em torno de Jay, envolvendo suas relações com a irmã, os amigos e alguns amores platônicos. Se encararmos a “entidade maligna” como uma metáfora, essa história secundária se torna a principal, mostrando as oscilações da vida amorosa da protagonista e seu distanciamento da infância. 

Um dos grandes acertos do filme é a trilha sonora de Rich Vreeland, que dá um ar retrô à composição e faz pensar em clássicos como “A Profecia” e “Halloween”. A referência aos antigos filmes de terror se reforça na direção, que explora a sugestão no lugar do choque e do susto – há sempre a iminência de algo, mas nunca a certeza.

Como resultado, “Corrente do Mal” não é tão assustador de imediato, nem tão impressionante para quem está acostumado a muito mais sangue e efeitos. Este, porém, é um filme que permanece muito tempo após a sessão... Como nos velhos tempos.

Atualizado em 26 Ago 2015.

Por Juliana Varella
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