Guia da Semana

Crítica: “Dior e Eu” registra o recomeço de uma das marcas mais tradicionais da alta costura francesa

Filme cria um paralelo entre chegada de Raf Simons à grife e a estreia de Christian Dior nas passarelas, nos anos 40

Quando o belga Raf Simons foi anunciado como o sucessor de John Galliano para a grife francesa Dior, o clima na casa foi de apreensão: afinal, conseguiria um estilista com experiência em moda masculina e inclinação para o minimalismo manter a identidade de uma marca famosa pela feminilidade?

Frédéric Tcheng, diretor francês que já investigara a carreira de outro estilista em “Valentino: The Last Emperor” e biografara a editora de moda Diana Vreeland em “The Eye Has to Travel”, decidiu mergulhar nessa história e registrar a estreia de Simons na Dior, com os bastidores de seu primeiro desfile pela marca e sua primeira coleção de alta costura em toda a vida. O resultado é o belíssimo "Dior e Eu".

O longa é uma viagem envolvente para quem gosta de moda, mas pode ser entediante para quem espera uma abordagem mais humana, como nos filmes “Coco Antes de Chanel” e “Yves Saint Laurent”, por exemplo. O foco, aqui, são as roupas na passarela e o processo criativo que as antecede.

Tcheng não deixa o lado humano, porém, completamente de lado. Pegando emprestadas frases de um livro autobiográfico de Christian Dior (intitulado, justamente, “Christian Dior e Eu”), o diretor faz uma colagem de reflexões do fundador da casa, nos anos 40, com as experiências vividas pelo novo estilista em meados de 2012, criando um diálogo e uma identificação surpreendente entre os dois.

Outro paralelo interessante é feito entre Simons e uma jovem modelo, que também se prepara para fazer na passarela da Dior sua grande estreia. O conflito entre a geração estabelecida e os novos personagens é expresso em comentários sutis, como “esta sala está bem moderna, não acha?” ou “podem chamá-lo de ‘Raf’, mas a mim continuem chamando de ‘Senhor’”. Fica claro que o desejo de renovação convive com um apego igualmente forte às tradições e com um medo generalizado de mudança. Rompê-lo é o verdadeiro desafio do estilista.

Diferente de outros documentários, que às vezes permitem um desleixo formal em nome do realismo, “Dior e Eu” trabalha com uma câmera firme, trazendo imagens limpas e bem enquadradas como num reality show, impressão que fica ainda mais forte quando se nota o roteiro bem planejado e amarrado. Tudo é cuidadoso e intencional, sem fios soltos – o que significa, também, que muito material deve ter sido deixado na ilha de edição e que nem todos os depoimentos, é claro, são tão autênticos assim.

Realidade ou ficção, o fato é que o filme se sai muito bem na proposta de transportar o espectador para dentro de um ateliê de alta costura, revelando os diferentes profissionais envolvidos na criação, o estudo da história da marca aliado às inspirações contemporâneas, a rotina das costureiras e todo o processo de construção de uma coleção, do conceito à passarela. Até mesmo o conflito entre arte e mercado é explorado numa sequência curta, mas reveladora.

“Dior e Eu” estreia no Brasil no dia 27 de agosto e engrossa a lista de filmes obrigatórios para quem estuda ou se interessa por moda – mas o melhor é que nem é preciso ser especialista para aproveitar o espetáculo.

Atualizado em 25 Ago 2015.

Por Juliana Varella
Compartilhe

Comentários

Outras notícias recomendadas

15 Filmes para ver em streaming e curtir o feriado no sofá

Neste Dia do Trabalho, assista aos melhores filmes em cartaz nos serviços de streaming

“La La Land” chega ao streaming para deixar seu feriado mais perfeito

Filme com Emma Stone e Ryan Gosling estreia no Looke, Now, Vivo Play e Google Play.

10 Filmes da seleção de Cannes que você vai querer ver em 2017

Biografia de Godard e novos filmes de Michael Haneke e Roman Polanski são destaques no festival

Filmes exibidos em Cannes têm desconto no streaming no mês de maio

Now e ITunes fazem promoção cinéfila para acompanhar o festival

26 remakes ou reboots que você nem acredita que estão nos planos de Hollywood

"Os Pássaros", "A Mosca" e "Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado" estão entre os filmes que podem ganhar novas versões nos cinemas

“Corra!” – terror sobre preconceito racial é uma das melhores coisas que você verá nos cinemas neste ano

Filme de Jordan Peele estreia no dia 18 de maio nos cinemas