Guia da Semana

Crítica: “Evereste” capta o espírito hostil e congelante da montanha, mas deixa pontas soltas

Filme narra a história contada por Jon Krakauer no livro “No Ar Rarefeito”

Dá para acreditar que já faz 15 anos que “Limite Vertical” chegou aos cinemas? Desde então, os alpinistas nunca mais tiveram o mesmo prestígio, nem estrelaram produções tão badaladas nos cinemas – pelo menos, até agora. “Evereste”, novo filme do islandês Baltasar Kormákur (“Dose Dupla”), traz de volta o espírito extremo e colaborativo da escalada em altas altitudes, com toda a falta de ar, o frio e a gravidade que o pico mais alto do mundo podem oferecer.

“Evereste” é baseado no livro “No Ar Rarefeito”, do jornalista Jon Krakauer. A obra já foi adaptada para um longa-metragem uma vez, em 1997, mas o filme foi destinado à televisão. Desta vez, a história das equipes que se encontram na base do Evereste para escalar a montanha no mesmo dia – e enfrentam, juntas, uma tempestade implacável – ganhou o tratamento completo: abriu o Festival de Veneza, vai estrear nos cinemas e tem até Jake Gyllenhaal e Keira Knightley no elenco.

O filme capricha na ambientação: para quem vive na aventura ou é escalador, o universo mostrado ali é bem real, das festinhas à moda esportiva, do heroísmo à teimosia que sempre aparece na hora H. Filmado realmente no Nepal, incluindo a base do Evereste, o longa ainda consegue transportar o espectador até aquele lugar inalcançável, fazendo-o sentir o frio e o cansaço dos atores, que de fato sentem dificuldade para respirar e se movimentar como seus personagens (dadas as devidas proporções).

Outro ponto forte é a relação entre os líderes das duas principais equipes, Rob Hall (Jason Clarke) e Scott  Fischer (Gyllenhaal). Os dois trabalham como “guias”, levando profissionais e amadores ao topo da montanha – e, sempre que possível, trazendo-os de volta em segurança. Rivais logo de início, os dois têm estilos diferentes, mas se respeitam e até inspiram um ao outro. Há um certo paternalismo, já que Hall parece ser o mais experiente, mas também há uma camaradagem que aparece em pequenos gestos.

O filme nos leva até o topo do Evereste, mas sofre para completar o percurso e nos trazer de volta com a mesma destreza. Empolgante no início, forte e belo em suas paisagens, o longa começa a perder força ao criar expectativas demais e não as concretizar.

Por exemplo, temos dois jornalistas que acompanham as equipes de Rob e Scott, mas não vemos o jornalismo em si. Um deles é Krakauer, mas só quem conhece o livro saberá que o filme se baseou nos seus relatos, pois isso não é nem mencionado. Além disso, depois de apresentados, os dois praticamente desaparecem em meio a tantos personagens. Não vemos o processo de produção das reportagens (com exceção de uma única pergunta não muito bem respondida), nem sabemos que fim levaram. Uma menção nos créditos finais já ajudaria.

Outra provocação que acaba não levando a nada é a de que um dos alpinistas teria prejudicado as outras equipes deliberadamente, deixando-os sem oxigênio nem cordas. O erro foi proposital? Houve algum sentimento de culpa ou responsabilização legal depois? Jamais saberemos. Assim como nunca saberemos qual deveria ser a função do personagem de Sam Worthington na trama. Parece que cortaram mais do que deveriam na edição e sua participação ficou sem sentido.

Esses detalhes enfraquecem o filme, mas não são perceptíveis o suficiente para que o espectador deixe de aproveitar a aventura. O verdadeiro problema está na escolha dos protagonistas. O roteiro dá atenção demais aos personagens que morrem, mas não se preocupa em criar a mesma identificação com os que sobrevivem, criando uma situação desequilibrada e levando a um final emocionalmente decepcionante.

“Evereste”, enfim, chama a atenção por conseguir recriar a atmosfera de “ar rarefeito” da montanha, mostrando a dificuldade de cada resgate e a consciência de que, às vezes, nada pode ser feito senão esperar. A tensão está presente durante todo o filme, que não fica cansativo, mas o excesso de personagens em cena acaba prejudicando a relação com o público. Entendemos o recado, mas não nos emocionamos tanto quanto deveríamos. A sensação é de que falta alguma coisa. Falta amarrar os pontos no final.

Atualizado em 15 Set 2015.

Por Juliana Varella
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