Guia da Semana

Crítica: “Julieta” narra tragédia familiar com intensidade, mas não deixa espaço para a imaginação

Novo filme de Pedro Almodóvar estreia no dia 7 de julho nos cinemas

Um novo Almodóvar é sempre motivo de ansiedade para quem ama cinema. Mesmo que o diretor tenha seus erros e acertos, o fato é seus filmes sempre trazem uma reflexão profunda sobre relacionamentos, angústias, traumas e suas consequências violentas sobre as vidas de seus personagens. Pois em julho conheceremos mais uma de suas protagonistas despedaçadas: Julieta.

O longa que leva o nome de uma das personagens mais trágicas de Shakespeare narra, em si, uma tragédia: quando conhecemos Julieta Arcos (Emma Suárez), ela não vê nem sabe o paradeiro da própria filha há 12 anos – e não porque a garota foi sequestrada ou se perdeu, mas porque escolheu isso.

A história de Julieta é narrada quase completamente em flashbacks. Sua versão jovem é interpretada por Adriana Ugarte, que chama a atenção com seus olhos expressivos, mas não emociona da mesma forma que Suárez, mesmo com muito mais tempo de tela. Descobrimos que ela se apaixonou por um pescador no mesmo dia em que provocou um suicídio (ou, pelo menos, não conseguiu evitá-lo), depois perdeu o marido no mesmo dia em que tiveram uma briga e, por fim, perdeu a única filha, Antía, logo depois de superar uma depressão profunda. (Compreendemos, ainda, que sua relação com a filha não é tão diferente da que tem com o pai.)

Há que ser forte para recomeçar e Julieta, de fato, recomeça. Ela está de malas prontas para abandonar Madri e ir morar em Portugal com o namorado quando um encontro repentino com uma antiga amiga de Antía a faz recuar. E se a filha tentasse se comunicar com ela, depois de todos esses anos?

A tragédia da protagonista é contada ao espectador por ela mesma, que se debruça sobre um diário para escrever suas memórias enquanto espera por qualquer sinal. É triste, é intenso, mas também é tudo um pouco fácil demais. Tentado a descrever sua visão para o público, Almodóvar não deixa espaços para a imaginação e responde todas as perguntas que se possam ter ainda em cena, da forma mais didática e explícita possível. Isso torna o “miolo” do filme lento e frustrante, após um primeiro ato instigante e envolto em mistério.

Como é a marca do diretor, os cenários fazem toda a diferença: um quadro borrado de preto transmite dor e vazio, um detalhe vermelho sugere paixão e uma parede escandalosamente estampada mostra a confusão de sentimentos de culpa, amor, felicidade e tristeza em que vive Julieta quase o tempo todo. Quando ela finalmente coloca tudo para fora e compreende a si mesma, as cores se acalmam e a simplicidade se instala.

“Julieta” é dirigido e escrito por Pedro Almodóvar e baseado em três contos do livro “Fugas”, de Alice Munro. Estreia no dia 7 de julho.

Atualizado em 7 Jul 2016.

Por Juliana Varella
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