Guia da Semana

Crítica: “Quando Meus Pais Não Estão em Casa” discute relação entre famílias e empregadas domésticas em Singapura

Filme produzido em Singapura surpreende pelas convergências com o cinema brasileiro atual

É interessante ver como o cinema de nações tão distantes geograficamente pode dialogar nos temas mais íntimos. “Quando Meus Pais Não Estão em Casa”, do singapurense Anthony Chen, estreia por aqui poucas semanas após “Casa Grande”, do brasileiro Fellipe Barbosa, trazendo uma perspectiva diferente sobre a mesma questão: a relação entre os filhos da classe média e seus empregados.

Os dois filmes são inspirados na juventude de seus criadores e se passam em momentos de crise em seus respectivos países. Dificuldades financeiras, afinal, ajudam a trazer à tona o lado mais belicoso da vida doméstica. Além do contexto, ambos têm como protagonista um menino que questiona as atitudes e os segredos de seus pais – mesmo que não o façam diretamente.

No caso de “Quando Meus Pais...”, o garoto é Jiale (Jia Le Koh), de dez anos. Endiabrado, ele enlouquece a mãe (Yann Yann Yeo) com a mesma facilidade com que briga com os amigos ou negocia com o professor. Sua conduta só começa a melhorar quando Teresa (Angeli Bayani), a nova empregada da família, se dispõe a enfrentá-lo de frente e oferece, aos poucos, a segurança emocional que lhe falta.

Não há nada de novo nesse formato – pais ausentes precisam de uma ajuda externa para reatar laços e acalmar os nervos pré-adolescentes do filho. A forma como Chen conta essa história, entretanto, faz com que o público se sinta dentro da casa, vivendo com cada um dos personagens suas angústias e pressões. Logo, compreendemos que todo aquele descontrole é fruto de uma situação econômica e social contraditória que espelha a do próprio país, o que fica claro numa cena escolar em que crianças entoam um discurso moderno de “justiça e igualdade”, diante de um ato violento que representa a tradição e a intolerância.

Chen usa essa sequência para realçar a ironia que é a relação dos pais de Jiale com Teresa: no discurso, eles afirmam respeitar a religião e a liberdade da empregada, enquanto, na prática, proíbem-na de rezar à mesa e confiscam seu passaporte. Obcecados em manter uma hierarquia socialmente aceitável, eles nem percebem que estão no mesmo barco que a filipina: seja dobrando os turnos, seja mudando de cidade, todos abdicaram de cuidar de seus filhos para trabalhar. Quão diferente é essa situação daquela que vivemos no Brasil?

“Quando Meus Pais Não Estão Em Casa” foi o vencedor da Câmera de Ouro em Cannes, em 2013, e impressionou a crítica internacional. Para brasileiros, o filme pode soar familiar e até banal, mas este é justamente o seu brilho: conseguir mostrar a nós, do outro lado do mundo, que as diferenças nem sempre são tão profundas quanto imaginamos.

Atualizado em 24 Abr 2015.

Por Juliana Varella
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