Guia da Semana

"Fui coadjuvante no papel que me deu o Oscar"

Forest Whitaker, melhor ator por O Último Rei da Escócia, fala sobre seu Oscar, a relação com seus admiradores e torce por Barack Obama

De Los Angeles


Embora tenha construído uma imagem poderosa, imponente e agressiva, Forest Whitaker é um sujeito extremamente calmo e claro quando fala. Criado no Sul de Los Angeles, Whitaker é figura constante na indústria há mais de vinte anos e participou de mais de 70 filmes, mas construiu sua carreira com diversos papéis coadjuvantes que o colocaram sob o comando de diretores como Oliver Stone ( Platoon), Martin Scorcese ( A Cor do Dinheiro) e David Fincher ( O Quarto do Pânico). De todos esses momentos, porém, o mais transformador foi ter assumido o papel principal em Bird, de Clint Estwood, para interpretar a lenda do Jazz Charlie Parker.

Whitaker considera a si mesmo como um cidadão do planeta, pois entende como "excludente a idéia de que não nos consideremos um mesmo povo" e usa sua celebridade para impulsionar diversos programas de auxílio a necessitados na África. Pouco depois desta entrevista, o ator foi a Luanda, Capital de Angola, como parte do programa Idol Gives Back - movimento filantrópico criado pelo American Idol - para captar fundos em prol do combate à malária. Além de não poupar elogios a Alice Braga, com quem trabalhou na ficção científica ainda inédita Repossession Mambo, ele diz ter vontade de trabalhar no Brasil e conhecer mais atores brasileiros. Acompanhe!

O capitão Wander, de Os Reis da Rua, foi o primeiro papel que você assumiu logo depois do Oscar. A oferta devia ser intensa, não? O que te motivou a escolher esse?
Forest Whitaker:
Queria explorar um pouco mais essas facetas do poder. Nesse caso, a corrupção que vem do poder. As implicações do poder. Acredito que uma pessoa tenha mesmo que fazer tudo ao seu alcance para proteger aqueles que ama, mas, em alguns casos, há conseqüências desagradáveis. Ele é poderoso e vive esses conflitos, mas é bem diferente de Id Amim. É uma aproximação totalmente diferente do mundo.

Você considera que seus personagens sejam vulneráveis?
Forest Whitaker:
Gosto de ver o que acontece e afeta o personagem. Normalmente, quando as coisas que eles amam e são importantes estão em risco, um lado vulnerável pode, sim, vir à tona, mas é uma particularidade dos papéis, não algo que eu tente provocar constantemente. Em Os Reis da Rua, muita gente pode achar que ele é um sujeito vulnerável, pois é atacado constantemente, mas muitas pessoas crescem e encontram energia no calor da batalha e superam qualquer desafio. Muitos diretores e atores provocam conflitos e, fazendo isso, tornam-se mais criativos. Vulnerabilidade pode ser um ponto forte.

É comum ser influenciado por seus personagens? Quanto de cada um deles permanece com você depois que terminam as filmagens?
Forest Whitaker:
Partes de cada um deles acabam ficando. Não vejo muito problema nisso. Alguns deles valem a pena inclusive lutar para que permaneçam, mas, normalmente, sempre fica alguma palavra, algum jeito de se impor, etc. O que vale a pena é a sensação de ´reviver´ tantas vezes seguidas. Sem dúvida, o que sou neste instante é fruto de todas essas ressurreições, especialmente em termos de conhecimento. Tudo que eu faço agora foi influenciado pelos personagens, assim como coisas que aprendi na minha infância. Tento manter as coisas boas, de preferência. Sinto-me renovado e rejuvenescido, pois sempre aprendo. Sempre há algo novo. Agora vou ser um treinador e não jogo basquete muito bem, então, vou vivenciar um pouco daquele mundo, conviver com os jogadores e ter uma noção do que é essa vida de técnico. É tudo novo. Como um brinquedo de criança.

Você tem algumas metas bem definidas fora do mundo artístico, como trabalho humanitário...
Forest Whitaker:
Tenho visitas agendadas a Luanda [Angola], por conta do Idol Gives Back e vou ajudar a angariar recursos para o combate contra a malária. Também ajudo a combater a doença no Norte de Uganda. Tenho uma necessidade de me conectar com os outros, de me preocupar com o que acontece, em fazer a minha parte na "diferença". Gosto de usar minha celebridade dessa maneira.

A visita à África mudou seus conceitos?
Forest Whitaker:
A visita em si, não; mas a razão, sim. Não fui até lá para fazer um safári ou achar tudo bonito. Cheguei com o intuito de entender os costumes, as tradições, a comida, o jeito de ser, onde eles moram. Precisava entender tudo isso para poder criar o personagem [Amin]. Tudo isso era parte dele e acabei aprendendo tudo isso. Considero-me um cidadão do planeta. Não sou estrangeiro em lugar nenhum. Aposto na proximidade como arma modificadora e, se eu puder fazer, eu faço.

E essa vivência internacional, no que agregou profissionalmente?
Forest Whitaker:
Quero muito trabalhar no Brasil, em algum filme local, talvez. Conheci aquela jovem atriz, Alice Braga, e ela é fantástica! Trabalhamos juntos em Repossession Mambo e foi incrível. Tudo que vi dela me impressionou e o pessoal tem falado muito bem dessa garota.

Você se vê como um astro? Sua vida é muito diferente daquela que gostaria de ter?
Forest Whitaker:
Ainda tento viver minha vida como sempre, fazer aquilo de que gosto e não me preocupar com as pessoas. Não vou ser hipócrita e fazer de conta que não sei que sou reconhecido, mas não deixo isso me afetar. Se alguém aparece para conversar, eu atendo da melhor forma possível. É uma oportunidade de me conectar com mais gente. Não gosto do termo astro, sou um artista. E isso gera fama e também responsabilidade de continuar uma linha de trabalho. Eu sou do tipo de cara que pensa duas vezes antes de falar com alguém ou no meu próximo passo. Seja ele fazer um novo filme, produzir algo, desenvolver um roteiro.

O fato de ser o mais recente ator negro a receber o Oscar mudou algo para você ou para a comunidade?
Forest Whitaker:
Não fez muita diferença, não, pois outros três já haviam ganhado. Muita gente tentou dar muita importância, mas, naquela noite, a maioria das críticas e as pessoas apenas elogiavam a minha performance naquele personagem. Não era "mais um Oscar para um ator negro", foi um prêmio bem profissional. A transformação em Id Amin foi mais impressionante do que a minha cor. E já não é mais tão importante, os primeiros romperam barreiras.

Mas você entrou no radar e deixou de ser o cara dos "papéis pequenos", não? Ou isso já acontecia desde Bird?
Forest Whitaker:
Já fiz de tudo. Fui principal em Bird e Ghost Dog. Mas eu faço muita coisa como coadjuvante. Em Os Reis da Rua, Keanu Reeves foi o principal e eu sou apenas um coadjuvante. Honestamente, até mesmo em O Último Rei da Escócia eu era um coadjuvante para o James. Ganhei o prêmio por Melhor Ator, mas James McAlvoy estava em todas as cenas do filme, eu estava ali para dar suporte ao personagem dele. Só apareci em metade do filme.

O voto pode mudar o mundo?
Forest Whitaker:
Acho que todos os nossos votos podem mudar o mundo. A mensagem de Obama, que é a união, é muito importante para mim. Ele foi o único que se posicionou contra a guerra desde o começo. Ele tem uma diversidade que lhe possibilita olhar o mundo. Embora sejam votos americanos, essa é uma eleição para o mundo. Afinal, um de seus pais não é americano; aliás, eles nem são da mesma raça; e ele foi criado em outro país boa parte do tempo. Além do que, conviveu com a pobreza e teve que se superar para chegar a Harvard, por exemplo. Essas qualidades vão permitir que ele conecte a América com o mundo, seja do ponto de vista político e religioso. Não tem ninguém por aí com essa herança genética capaz de comportar tanta diversidade.

Os Estados Unidos estão prontos para votar sem considerar a cor da pele?
Forest Whitaker:
O racismo já foi tão envolvido na disputa que não adianta mais tentar evitar. Acredito que essa indicação e, futuramente, a eleição, será o único modo de dizer se estamos prontos ou não. O país está procurando por mudança e união. Barack Obama é o candidato que vai fazer isso. Realmente, espero que o escolham. Só saberemos se estamos prontos ou não, depois que o último voto for contado.

Leia as matérias anteriores do nosso correspondente:

  • Michael Steger: Astro da nova versão de Barrados no Baile fala da expectativa para o seriado

  • Trovão Tropical: Veja entrevistas com Jack Black, Ben Stiller e Robert Downey Jr.

  • Catherine Winder: Produtora fala sobre o trabalho com George Lucas na LucasFilm Animation


    Quem é o colunista: Fábio M. Barreto adora escrever, não dispensa uma noitada na frente do vídeo game e é apaixonado pela filha, Ariel. Entre suas esquisitices prediletas está o fanatismo por Guerra nas Estrelas e uma medalha de ouro como Campeão Paulista Universitário de Arco e Flecha.

    O que faz: Jornalista profissional há 12 anos, correspondente internacional em Los Angeles, crítico de cinema e vivendo o grande sonho de cobrir o mundo do entretenimento em Hollywood.

    Pecado gastronômico: Morango com Creme de Leite! Diretamente do Olimpo!

    Melhor lugar do Brasil: There´s no place like home. Onde quer que seja, nosso lar é sempre o melhor lugar.

  • Atualizado em 6 Set 2011.

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