Guia da Semana

Inquietante e interessante

Colunista escreve a respeito do filme chileno, vencedor de diversas premiações do cinema internacional



Distúrbios psicóticos podem se manifestar de diversas formas. Em Tony Manero, mais recente filme do diretor chileno Pablo Larrain (que dirigiu e roteirizou Fuga, em 2006), o personagem gasta seu tempo - e pouco dinheiro - dedicando-se à caracterização do personagem principal do filme Os Embalos de Sábado à Noite, que projetou John Travolta na década de 70.

Em uma obsessão desmedida, seguimos o dia-a-dia de Raúl Paredes (uma interpretação impressionante de Alfredo Castro). No Chile de 1978, onde o regime ditatorial de Augusto Pinochet imperava com repressões, Raúl dedica-se a ir ao cinema incansavelmente, para observar todos os passos de dança e trejeitos do personagem.

A história vai ganhando contornos cada vez mais sombrios, que levam Raúl a cometer assassinatos e roubos sem nenhum arrependimento, com o intuito de ganhar um concurso na TV que pode o eleger como o melhor intérprete do personagem.

Indicado chileno como melhor filme estrangeiro no Oscar 2009, o longa causa incômodo, com um personagem constantemente ameaçador, favorecido pelo aspecto documental de uma câmera vertiginosa e tensa de cada próximo ato inesperado. A fotografia lavada dá o aspecto de um Chile despedaçado pela ditadura, com imagens muitas vezes fora de foco, esmiuçando um personagem de meia-idade, frustrado e marginalizado: aos 52 anos, desempregado e instável, Raúl pode ser considerado um dos muitos chilenos que perderam sua identidade após o regime ditatorial.

Tony Manero é um retrato de todos nós, latino-americanos, que sofremos com regimes militares, mergulhando na cultura norte-americana com intuito de fugir de suas frustrações, para sentir-se cada vez mais próximos de uma vida de "Primeiro Mundo".

O paradoxo de sangue da ditadura versus holofotes das pistas de dança, mostra exatamente como vivem os Estados Unidos que, mesmo em guerra, sabem que o show tem que continuar. E o ator Alfredo Castro cria isso com maestria, em olhares capazes de demonstrar ódio, medo e aflição, acompanhados por uma câmera sedenta de sua ótima caracterização.

Sem ideologias políticas ou sociais, Raúl é, na verdade, um semi-analfabeto, obcecado pelo estrangeiro que observa no Tony Manero de John Travolta, um personagem marginalizado que se destaca pela dança. Ele acredita ser essa a sua chance de ter um espaço, ser visto e sair da vida angustiante em que vive no Chile.

Vencedor do 4º Sanfic - Festival de Cinema de Santiago do Chile, com prêmios de melhor filme e melhor ator no 26º Festival de Turim (Itália), Tony Manero levou também os prêmios Coral de melhor filme e melhor ator na 30ª edição do Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano de Havana, estreando no Festival de Cannes 2008 (Quinzena dos Realizadores).

Inquietante sem deixar de ser interessante, Tony Manero pode agradar caso não tenhamos medo de enxergar a realidade escondida nas entrelinhas (ou nas luzes da pista de dança).

Leia as colunas anteriores de Leonardo Freitas:

Outra adaptação

Retratos de Almodóvar

Novo filme de Laurent Cantet

Quem é o colunista: Um jornalista aficcionado por cinema de A a Z.

O que faz: Jornalista, tradutor e fotógrafo de uma editora de quatro publicações segmentadas.

Pecado gastronômico: Lasanha.

Melhor lugar do Brasil: Qualquer lugar, desde que eu esteja com meus amigos.

Para Falar com ele: leonardo.g.freitas@gmail.com

Atualizado em 6 Set 2011.

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