Guia da Semana

Lugar marcado



Sábado à noite, restaurantes cheios, estacionamentos lotados, eu e metade do beautiful people no cinema. Salas superequipadas, pipoca de primeira, organização idem, poltrona reclinável, pessoal bonito... e é aí que entra o problema. Não com a beleza e os perfumes importados, mas com as pessoas em si e a sua formação.

Atrações à parte, a própria fila para comprar os ingressos se torna um desfile sem fim de casacos, lenços, bolsas e botas. Até aí, tudo bem, ver gente arrumada é bom. Há alguma coisa lá dentro que ainda se engana e deseja acreditar que a miséria não é tanta, que muita gente pode ter acesso à cultura; é o próprio me engana que eu gosto.

Depois da compra do ingresso, nada de fila. Uma beleza, não posso negar! Dá até para ir andar, comer um negocinho, tudo ótimo, até começar o filme. A dor de cabeça começa quando as luzes se apagam e a tela ganha vida, pessoas aparentemente inofensivas se transformam. As primeiras indicações de que o tormento apenas começou aparecem à medida que a trama apresenta seus personagens e você se lembra que agora os lugares são marcados, ou que a sala está abarrotada de gente e não tem para onde correr. Vale tudo! São comentários, suspiros, elogios à interpretação de determinado ator, risadinhas, gente que atende o celular e daí pra frente... Imagine se a sua poltrona estiver ocupada por um gênio que acha que "este-negócio-de-lugar-marcado-é-bobagem"?

Sabe o que é assistir a duas horas de filme com uma tiete de Anthony Hopkins ao seu lado? Não é mole não. Ou então grudado com o pai que leva a filha ao cinema e resolve mostrar que conhece tudo quanto é lugar que aparece na tela, explicando onde fica um por um? Ninguém merece! Fora que o sujeito ainda erra um monte de coisas e você nem pode dizer à menininha: Seu pai é um idiota!

O filme acaba, as luzes voltam e todo mundo se veste de santo, quase podemos ver as auréolas. É impressionante! Nem se a hipocrisia fosse matéria obrigatória nas escolas de todo país teríamos tantos alunos aplicados. Onde está a educação? Cadê toda aquela pose? Viver em sociedade exige mais do que dólares no bolso: é preciso saber que posição social não é desculpa para falta de respeito. Definitivamente o hábito não faz o monge, meu caro!

Fotos ilustrativas: www.photocase.de

Leia as colunas anteriores da Juliana:
? Spoilers: Os estraga-prazeres estão espalhados na internet.

Quem é a colunista: Juliana Petrilli.

O que faz: Publicitária e jornalista.

Pecado gastronômico: Fios de ovos.

Melhor lugar do Brasil: depende da hora

Fale com ela: jufaap@uol.com.br



Atualizado em 10 Abr 2012.

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