Guia da Semana

Memória e carnaval

Após 17 anos longe das câmeras, o cineasta Arnaldo Jabor volta às telas com A Suprema Felicidade, mostrando que a essência das relações humanas perduram no tempo

Fotos: Divulgação

O cineasta e jornalista no comando da câmera

Houve uma época em que alunos de colégios religiosos beijavam a mão do padre na entrada. As mulheres, mesmo submissas aos maridos, os defendiam perante os filhos e os jovens descobriam o sexo com prostitutas. E elas até se apaixonavam. Em meio a tudo isso, o ritmo de uma cidade onde era possível ser feliz.

É nesse clima de nostalgia que transcorrem os 120 minutos de A Suprema Felicidade, filme de Arnaldo Jabor que chega ao circuito nacional em 170 salas de exibição. Fora dos sets de cinema desde Eu sei que vou te amar, de 1984, Jabor volta ao cinema justamente pelo ofício de jornalista que nesse tempo desempenhou. "Escrevi muitos artigos sobre adolescência, infância, descoberta da sexualidade e histórias de meu pai e meu avô para colunas nos últimos anos. E misteriosamente o roteiro foi nascendo como uma planta lá em casa", romantiza o diretor.

Apesar do tom memorialista e fortemente biográfico, o filme quer mostrar os sentimentos perenes em qualquer época. "Mesmo sendo um filme de memória, tento falar de coisas que não se extinguem e estão sempre presentes como amor, ciúme, busca da educação, saudade", comenta.

Sentimentos presentes na vida de Paulo (vivido pelos jovens Caio Manhente, Michel Joelsas e por Jayme Matarazzo) em pleno Rio de Janeiro das décadas de 1940 a 1960. Infância, juventude e início da vida adulta são recheados pelas brigas do bairro e picardias sexuais dos meninos da escola. A descoberta da boemia e suas bebedeiras, das mulheres de vida fácil, do primeiro amor também estão lá, desenhando os contornos do personagem.

Junto a essa trajetória, a vida dos pais de uma típica família de classe média da época. Sofia, vivida por Mariana Lima, é uma jovem esposa arrebatada pelos padrões morais impostos pelo marido que a impedia de trabalhar. Interpretado por Dan Stulbach, o militar Marcos não consegue superar o dissabor de ser preterido como piloto de caças na FAB, entregando-se a rotina trabalho - casa - noites em boites.


Avô e neto - Marco Nanini e o pequeno Caio Manhente

O grande respiro do lar é a constante presença dos avós, vividos por Elke Maravilha e Marco Nanini. O trombonista Noel é o grande parceiro do neto, mostrando as dores e alegrias do mundo, enquanto a dançarina Marilyn, primeira atuação no cinema de Tammy di Califiori, reúne, de uma forma ou de outra, laços da vida de pai e filho.

Realidade e loucura na cidade

Parte da empreitada de A Suprema Felicidade ficou a cargo do produtor Francisco Ramalho Junior, responsável por organizar um elenco com mais de 200 atores, entre principais e figurantes. "Ao todo, três anos de produção, com a leitura do primeiro tratamento do roteiro em 2007, filmagens no final de 2008 e edição final no segundo semestre de 2009", esclarece o produtor.

Em uma montagem não-linear, as várias linhas dramáticas e histórias individuais vão se entrecruzando, fazendo passado e presente evidenciar as faces das personagens em cada fase, e não apenas pelas funções sociais. Os contrapontos estão também nas trajetórias dos personagens principais - neto e avô. Enquanto um constitui vida e memória, no outro ela se esvai, passando na tela os diferentes tempos da vida.


O pipoqueiro Bené (João Miguel), um dos personagens que representa a cidade

Outro personagem central e que também caminha no tempo é a cidade do Rio de Janeiro. A cidade-personagem acontece tanto em cenários como o quadrado da Urca, a praia do Leme e os casarões do Alto da Boa Vista quando entram em cena malandros, sambistas, prostitutas, rufiões e trabalhadores, identificando territórios já distantes como a velha Lapa, o mangue e as ruas do subúrbio.

Potencializada pelas belas imagens do fotógrafo Lauro Escorel, A Suprema Felicidade tem um leve cheiro de Fellini, com convenção de prostitutas, teatro de anões, bailados coreográficos em carnavais e festas de rua. "Não acho o filme realista, ele brinca com os tempos. Ele não tem obrigações morais e estéticas. Na cena do carnaval, apenas queria filmar um balé",destaca Jabor. O tom onírico é equilibrado por rimas imagéticas constantes na obra do diretor, feitas de sangue, nudez, virgindade e leves doses de violência, passeando pela tela ora inconscientes, ora desenhadas de forma detalhada .

Jabor recorre a antigas histórias e ao trabalho coletivo com os atores na construção dos personagens para falar de algo por muitos perseguido, vivido, ou sequer alcançado. Mas engana-se quem acha que ele aposentou o tom crítico por que se tornou conhecido. "Por fazer uma coisa bonita em um país com tantos problemas, acredito que, por si só, isto é um ato político".

Atualizado em 1 Dez 2011.

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