Guia da Semana

Mundo cão

Premiado no Festival de Gramado e selecionado para o Festival de Berlim, Broder entra em cartaz nos cinemas e busca atenção do público para os temas amizade e lealdade. Confira a entrevista com o diretor Jeferson De, em seu longa de estreia

Famoso jogador de futebol na Europa, Jaime (Jonathan Haagensen), está preste a ganhar uma vaga na seleção brasileira. Macu (Caio Blat) leva uma vida pobre em uma comunidade na periferia, onde está envolvido em um crime. Pai de família e sem perspectivas para o futuro, Pipe (Silvio Guindane) teve que sair do bairro onde mora para encontrar a paz. A criação humilde em Capão Redondo (São Paulo) e a forte amizade de infância unem esses personagens em um reencontro para reafirmar ainda mais suas diferenças e que pode intensificar os sentimentos de camaradagem que um tem com o outro.

Para levar a cabo as filmagens de Bróder, Jeferson De teve que superar o preconceito na sua vida e as privações que a maioria da população passa. O garoto negro da periferia de Taubaté veio para São Paulo estudar cinema, mas não deixou de lado o convívio com as comunidades carentes da Zona Sul paulistana. Após emplacar na direção de curtas como Distraída para a Morte e Carolina, entrou num projeto que conta muito da sua experiência de vida, narrando como três amigos de infância de uma favela podem tomar rumos opostos.

Os festivais de cinema aprovaram e Bróder ganhou o prêmio da crítica de Melhor Longa em Paulínia, além de cinco estatuetas em Gramado - incluindo nas categorias de melhor filme, ator e diretor. Agora, com mais de um ano de espera, o longa enfim entra em cartaz no São Paulo e Rio e pretende surpreender no cinema assim como fez nos festivais. Confira a entrevista com o diretor e a sua expectativa para o seu primeiro longa-metragem.

Guia da Semana: Quem vê o filme percebe a ambientação dos atores com o espaço e o uso de uma linguagem muito particular da periferia. Como isso foi trabalhado e quanto tempo demorou essa pesquisa?
Jeferson De:
É a somatória de da minha convivência no bairro com o profundo mergulho que nosso elenco fez durante o processo de produção do filme. Na hora de fazer, percebi que a comunidade desejava realizar conosco o Bróder, assim como o elenco, que tinha a mesma disposição. Acho que os primeiros filmes sempre estão ligados ao que você conhece. Um exemplo que dou é a dona Sônia do filme - personagem vivido pela Cássia Kiss - que tem o mesmo nome da minha mãe. Não tive vergonha de me expor e utilizei isso para fazer uma obra maior.

Guia da Semana: Seu filme usa a temática da periferia e foi dirigido por um cidadão negro, que viveu com esses dilemas sociais...
(Jeferson, interrompendo):
Quando fui fazer o filme, quis estar perto de pessoas que já conhecia. Quando vim estudar cinema em São Paulo fiz amizade na periferia da zona sul. Há mais de dez anos sou um assíduo frequentador do Sarau da Cooperifa, ouvindo Racionais MC´s, lendo livro do Ferrez e estando junto da ONG Capão Cidadão. Quando tivemos acesso ao dinheiro para as gravações, decidi compartilhar entre amigos. Alugamos até alguns imóveis, para que pudessem acolher nossa produção. Eu me senti bem, tenho isso até no meu blog; várias fotos de chinelo, calção, enquanto dirigia. O filme foi rodado completamente em casa, nenhum ator teve segurança para andar por lá.

Guia da Semana: Caio Blat, em particular, se apresenta nas telonas com um personagem da periferia personificado, diferente de tudo que ele já fez. Como você viu essa transformação no filme?
Jeferson:
Caio Blat é um ser humano grandioso e um ator que se preocupa com a profundidade da interpretação, basta dizer que antes da filmagem ele alugou uma casa no Capão e ficou morando lá. O registro que se tem dele em Bróder é surpreendente.  Durante as filmagens foi impossível conversar com Caio Blat, ele simplesmente só me atendia se o chamasse de Macu. Para mim ficou evidente ainda mais que ele participa, mesmo sendo tão jovem, de um panteão de ícones como Jardel Filho, Raul Cortez, Grande Otelo e tantos outros.

Guia da Semana: A trilha sonora do filme se destaca por vozes que representam a música negra, como Racionais MC's, Emicida e Nação Zumbi. Como ela foi pensada?
Jeferson:
Gosto da idéia de artistas que pensam além do conceito de ruptura ou continuidade. É possível evoluir sem romper ou aderir.  Então, pensamos em sonoridades que seguissem este tipo de atitude. Na trilha do filme, pensada junto com o produtor João Marcello Boscoli, escolhemos estes artistas. Tem ainda Max de Castro, Lucas Santtana, Baden Powell e Silvera, exemplos de compositores que experimentam dentro de uma concepção urbana, contemporânea e brasileira.

Guia da Semana: Qual a principal mensagem da película para o público?
Jeferson:
O filme é sobre família e amizade. O nome já diz tudo e, se eu pudesse escolher um outro, seria 'A Irmandade', mas com esse nome pareceria filme de terror (risos). É um nome que, tanto uma pessoa de 60 anos como um menino de sete sabem o significado.

Guia da Semana: Embora tenha entrado em cima da hora como concorrente em Gramado (2010), Bróder levou os principais prêmios do festival: diretor, ator e filme. Como foi essa trajetória?
Jeferson De:
A última vez que tinha ido a Gramado foi com o curta Carolina e acabei ganhando por melhor filme. A gente tinha sido convidado para abrir o festival, o que para mim é uma honra, pois foi onde comecei minha carreira, com Distraída para a Morte (2001). Era um diretor de longa estreante abrindo o festival, a exibição foi maravilhosa, tanto que, quando começou a exibição, comecei a chorar. Cássia Kiss, quando foi apresentar o filme, fez praticamente uma declaração de amor ao cinema e ao Bróder.

No final do Festival, sair de lá com os três principais prêmios foi um incentivo fundamental. O prêmio de melhor ator ao Caio Blat foi uma homenagem que o cinema fez a ele, reconhecendo o trabalho e os filmes que ele vem fazendo. O de melhor diretor é inédito para mim; e o prêmio de melhor filme, um extremo reconhecimento ao trabalho em conjunto, ao fato de historicamente a gente estar em um momento muito importante na nossa cinematografia.

Guia da Semana: Que momento é esse?
Jeferson:
Começou praticamente em 2000, com Cidade de Deus, apresentando muitos atores negros na frente da câmera. Achei legal, porque é uma forma de celebrar o cinema com a diversidade, com um negro dirigindo um filme. Acho que, mais do que nunca, o Brasil provou sua diversidade.

Guia da Semana: Como foi lidar com os preconceitos, considerando essa sua origem humilde?
Jeferson:
Às vezes, não precisa nem ser negra, mas só por ser da periferia, a pessoa sofre uma série de restrições e preconceito. Comigo não foi diferente. Na minha testa não está escrito "diretor de cinema premiado", então, nenhum segurança de banco, policial ou madame da Oscar Freire sabe disso. Sofro como qualquer outra pessoa; diferente se fosse jogador de futebol, cantor de pagode, músico famoso ou um ator da televisão, como Lázaro Ramos. Para mim, que escrevo e dirijo as histórias, isso é fundamental; porque quando vou fazer filmes, boa parte disso transparece - embora ache que a arte está bem acima disso, muito acima das nossas relações cotidianas, ela (a arte) supõe muita sensibilidade e apuro técnico. Sofri e sofro, mas isso é típico de um país preconceituoso e machista.

Guia da Semana: Cidade de Deus é um filme referência para o gênero. Como você vê o papel do Bróder para a continuação do debate dessa temática?
Jeferson:
Desde que comecei a fazer cinema, o filme mais importante que paguei ingresso foi Cidade de Deus, que mais me impressionou. É tecnicamente mais bem resolvido e, ao mesmo tempo, dá possibilidades enormes para jovens negros dos centros urbanos. Fiquei muito chocado com esse filme e Bróder é uma alternativa para me livrar dessa influência de Cidade de Deus, porque me sinto meio "filho" dele. No ano passado foi publicado no Estadão que a minha relação com o filme é freudiana, mas é mais edipiana. Quero matar meu pai ( Cidade de Deus) e casar com minha mãe (o cinema).

Guia da Semana: Seu filme foi um dos que mais demorou a estrear, ocasionando uma espera de mais de um ano da data inicial. Quais as dificuldades que ocasionaram essa demora toda?
Jeferson:
Desde que tivemos a première em Berlim cheguei com muita ansiedade, mas não queria que o filme fosse simplesmente jogado em alguma sala. Fiz um filme delicado e singular. No Brasil, são muitos filmes e poucas salas. A questão ainda é delicada para o governo brasileiro e os produtores sofrem no momento do lançamento em conseguir que os filmes nacionais fiquem estréiem e fiquem em cartaz. Pessoalmente, só tive que dominar a minha ansiedade e já aproveitar para escrever meu próximo filme.

Guia da Semana: O filme passou por diversos festivais (Gramado e Paulínia) e foi premiado pela crítica e pelo público presente. Como você espera a recepção das pessoas agora no lançamento?
Jeferson:
Em primeiro lugar espero que as pessoas saibam que o filme existe. Este trabalho de marketing é difícil e no Bróder penso que exige uma delicadeza. Então, a partir do dia 21 de abril se você ver no final da sessão um negro, de óculos chorando de emoção pode saber que sou eu, pois estou louco para ver o filme também com o público.

Atualizado em 6 Set 2011.

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