Guia da Semana

O cinema feito nos confins

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chegou ao fim. No meio das 400 obras apresentadas, pérolas que beiram o artesanal conquistam o colunista



Terminada a 33ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo fica aquele gosto de quero mais. Especialmente para os cinéfilos mais dispostos, que encaram de três a cinco filmes por dia durante duas semanas.

Eu, como sempre, vi menos filmes do que desejava. Afinal, o trabalho, a família, o cansaço e o preço meio salgado dos ingressos sempre são um impedimento. Mas do que vi gostei, e mesmo quando não gostei achei que valeu a experiência. É que sou do grupo que sempre dá prioridade aos filmes menos badalados, sou daqueles que durante a Mostra prefere descobrir, ser surpreendido, do que ir em pule certa, como se diz no turfe. Basicamente busco filmes de diretores que não conheço (nem ninguém conhece), ou produções de países cujos filmes não chegam até aqui.

No entanto, não vou falar aqui dos filmes que vi, até porque dificilmente alguém conseguiria vê-los agora que a Mostra já terminou. Mas quero falar do que sempre me espanta quando vejo a relação dos filmes da Mostra, que nos últimos anos tem girado em torno de 400 nomes.

É incrível como se filma em todo o mundo. Incrível como mesmo sem recursos, sem apoio e, ás vezes, sem qualquer esperança de exibição ou de público, ainda tem gente que pega uma câmera, junta uns atores e faz um filme.

Fico pensando comigo de onde vem toda essa necessidade de se expressar pela imagem, pelo movimento dela. Essa necessidade de transformar ideias, sentimentos, verdades e mentiras em uma realidade artificial de celulóide a 24 quadros por segundo.

É diferente de Hollywood e de países onde o cinema já flerta com uma condição de indústria. Nesses casos, mesmo o cinema de qualidade busca no maioria das vezes o lucro, o retorno financeiro, ou ao menos o de crítica. Claro que estou sendo reducionista nesta afirmação, mas a grosso modo é meio que por aí mesmo.

Quando se assiste a um filme, digamos, do Azerbaijão, da Sérvia, Croácia, Hungria, Romênia, Albânia, realizado com visíveis limitações de recursos técnicos, é de se pensar o que leva as pessoas a filmarem. E em alguns casos, independente das restrições técnicas, filmar muito bem, realizando ótimos filmes ótimas obras.

Acredito que seja neste tipo de cinema - feito do jeito que dá, mesmo quando parece que não vai dar, um cinema franco, sem enfeites, sem concessões, feito na carne e pela carne dos que se dedicam a fazê-lo - que está a pureza da arte. Ainda que seja uma pureza ingênua, mal articulada, precária. Mas ainda sim será mais cinema que qualquer blockbuster de Hollywood.

Sim, me espanto. Sei que o cinema é uma arte e, portanto, um meio de expressão subjetivo, poético, dramático. Como toda arte, serve, entre muitas coisas, para dar vazão ao pensamento, para exprimir um olhar sobre o mundo, a vida, a realidade que nos cerca, que nos toma ou mesmo para encantar simplesmente pela fantasia. E tudo isso faz parte da natureza humana em sua inclinação para a arte. Mas diferentemente da literatura, do teatro, da dança, das artes plásticas, fazer um filme dá um trabalho dos diabos. Entre roteiro, decupagem, filmagens, edição e montagem, vão aí dias de sofrimento e trabalho. Ainda assim, filma-se.

Sim, me espanto. Ainda que entenda um pouco o que move essa gente de longe que faz filmes (bons ou ruins, mas faz), pois sei que tudo é consequência do inexplicável fascínio que a sétima arte exerce sobre nós. Mas é espantoso o desejo voraz de se contar uma história, de se desenvolver uma idéia através de imagens.

Para mim é sempre uma alegria ver que o cinema ainda se faz e ainda se pode fazer em qualquer rincão periférico da dita globalização. Alegro-me muito em ver a câmera tremida na mão nervosa, o corte brusco descontinuando a cena, a luz mal colocada, os atores ruins, o som precário, mas de tudo isso exalando uma inacreditável e profunda vontade de fazer cinema, tão intensa e verdadeira, que até comove.

Quem é o colunista: gordo, ranzinza e de óculos.

O que faz: blogueiro, escritor e metido a crítico de cinema.

Pecado gastronômico: massas.

Melhor lugar do Brasil: qualquer lugar onde estejam meus livros, meus filmes, minhas músicas, meus amigos e minha namorada.

Fale com ele: rogerm00@terra.com.br ou acesse seu blog

Atualizado em 26 Set 2011.

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