Guia da Semana

“O Doador de Memórias” propõe futuro utópico em preto-e-branco

Adaptação de livro dos anos 90 chega aos cinemas no dia 11 de setembro

A ficção científica adolescente está em alta, ainda bem. Questionar a realidade, afinal, nunca é demais. “Jogos Vorazes” lançou a moda nos cinemas em 2012, seguido por “Ender’s Game” e “Divergente”, e um novo título chega às telas neste mês para  aquecer essa onda futurista.

O Doador de Memórias, dirigido por Phillip Noyce, não é mais uma adaptação de um romance verde, escrito às pressas por uma autora estreante para aproveitar o momento. Lois Lowry, a criadora, escreve livros infantis desde o final dos anos 70 e seu “Doador de Memórias”, de 1993, é o primeiro de uma quadrilogia que ficou popular tanto entre jovens adultos quanto entre professores que buscavam um desafio para pequenos leitores.

Isso não significa que seja uma história infantil, é claro: significa que as questões colocadas nos livros são universais e dizem respeito à formação do jovem, que passa por aquela fase crítica de escolhas e julgamentos para encontrar seu lugar no mundo (como em “Apanhador no Campo de Centeio”, “Harry Potter” e mesmo “Divergente”, que tem raízes óbvias na obra de Lowry).

Por ser uma ficção científica, “O Doador de Memórias” também aborda a formação (e a deformação) da sociedade por meio da ciência. No caso, estamos numa comunidade fechada e totalmente vigiada, onde todas as emoções foram banidas por meio de injeções diárias e as profissões dos jovens são determinadas pelos anciões, evitando ambições e disputas.

A criação de Lowry lembra um pouco o “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, mas os detalhes fazem dessa comunidade um espaço único e curioso, com regras próprias. Nesse lugar, não há cores para não haver diferenças. É proibido mentir e a linguagem deve ser sempre precisa – o que parece uma regra estranha, mas é um indício da forma linear como pensam aquelas pessoas. Os bebês são pesados e avaliados antes de serem aceitos na sociedade, e os mais velhos (exceto no caso dos que governam) são automaticamente excluídos.

O controle obsessivo vem de um passado traumático, de guerras que chegaram ao limite. Apagar toda a memória histórica e recriar a realidade foi a solução encontrada para evitar novos confrontos, mas há uma falha no sistema. Sem o conhecimento do passado, os anciões não podem tomar decisões para o futuro, por isso, de tempos em tempos uma pessoa é escolhida para receber as memórias da humanidade.

Jonas (Brenton Thwaites) é o novo receptor, e deverá aprender com o Doador (Jeff Bridges) tudo o que é necessário para guiar a civilização. Aprender não apenas pelos livros, mas por experiências e memórias reais transmitidas pelo toque – esse é um detalhe bastante mágico no universo até então científico de Lowry, mas faz sentido enquanto Jonas e o Doador são pessoas especiais, nascidas diferentes das outras. O problema é quando elementos fantásticos como esse se estendem a outras pessoas, tornando aquele universo um pouco menos provável e as soluções, mais fáceis.

Thwaites pode não ter a presença de uma Jennifer Lawrence, mas segura bem o papel de jovem em transformação. Suas reações são genuínas, seu terror e seu encantamento diante de todo aquele conhecimento acumulado são paupáveis. Seu sorriso é fresco e simpático. Bridges, por outro lado, parece limitado pelo papel, querendo desesperadamente se expressar e tomar atitudes, mas sendo obrigado a esperar. Mesmo assim, é um dos pontos fortes do longa.

Jonas é cercado por dois amigos de infância: Fiona (Odeya Rush), uma enfermeira, e Asher (Cameron Monaghan), um piloto. Rush não surpreende, ainda, mas certamente a veremos com frequência nos próximos anos, com seus olhos belos e expressivos. Monaghan acerta o tom, mesmo discreto, e gera alguma curiosidade sobre seu futuro e sobre como ele agiria se tivesse acesso às emoções.

Katie Holmes interpreta a mãe de Jonas, num papel um tanto tedioso, mas quem rouba a cena é Alexander Skarsgård, que vive o pai. A bondade em seu olhar é contrastada com a imprevisibilidade de suas ações, criando um personagem apenas levemente rebelde, que parece questionar o estado das coisas inconscientemente.

Meryl Streep é a inflexível chefe anciã, que centraliza decisões sobre a vida e a morte, num papel excessivamente caricato. Já Taylor Swift impulsiona a publicidade do filme, mas sua participação é bastante curta.

“O Doador de Memórias”, que chega aos cinemas no dia 11 de setembro, é uma adaptação inteligente de Noyce. Ao invés de tentar imitar minuciosamente o livro, o diretor prefere criar uma jornada de transformação tipicamente adolescente apoiada numa perturbadora ideia central: a de que poderia haver um futuro sem cores e sem música, em nome da igualdade.

Assista se você:

  • Gosta de ficção científica com foco em política
  • Gosta de romances de formação
  • Gosta de distopias e utopias

Não assista se você:

  • Não gosta de filmes voltados para adolescentes
  • Não gosta de ficções futuristas
  • Não gosta de adaptações de livros

Atualizado em 13 Set 2014.

Por Juliana Varella
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