Guia da Semana

“O Hobbit: A Batalha Dos Cinco Exércitos” é um final amargo para a trilogia de Peter Jackson

Terceiro filme não consegue prender a atenção do espectador e peca pelo excesso de imagens geradas em computador

Foi-se o tempo em que se esperava ansiosamente, a cada ano, pelo próximo passeio na Terra Média. Isso foi lá, pelo início dos anos 2000, quando os fãs aproveitavam os meses de jejum entre um “Senhor dos Anéis” e outro para folhear novamente as páginas de cada exemplar e, diante dos créditos finais, sentiam o coração apertar com um misto de saudade e êxtase. Foi-se o tempo.

A saga literária mais famosa de J. R. R. Tolkien ganhou uma adaptação tão bem feita para os cinemas que muita gente considerou os filmes melhores que os livros (blasfêmia!), por narrarem a jornada de Frodo de forma mais concisa. Por isso, quando Peter Jackson anunciou que levaria às telas “O Hobbit”, livro que serviu de prólogo para a trilogia, as expectativas foram as melhores possíveis.

Isso, até o diretor anunciar que faria a adaptação em três filmes. A escolha, descaradamente gananciosa diante de uma história menor, mais simples e mais infantil que a da trilogia principal, fez murchar a empolgação dos leitores progressivamente. Agora, depois de “Uma Jornada Inesperada” e “A Desolação de Smaug”, chega aos cinemas o último e mais fraco capítulo da saga, “O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos”.

Mais fraco, como era de se esperar, pois Jackson concluiu a maior parte da história no segundo filme. Para o terceiro, deixou sobrar apenas uma guerra pouco contextualizada e, como qualquer batalha que dura mais que trinta minutos na tela, entediante.

Depois de expulsarem o dragão Smaug da Montanha Solitária e recuperarem o lar de direito dos anões, Bilbo (Martin Freeman), Thorin (Richard Armitage) e o restante da Companhia se protegem dentro da fortaleza enquanto Smaug incendeia a cidade do lago e é finalmente derrotado por Bard (Luke Evans).

Assim que a notícia da tomada da montanha se espalha, exércitos de todos os cantos se unem diante de Thorin para reivindicar parte do tesouro – os humanos, como pagamento pela hospitalidade; os elfos, para recuperar suas joias de estrelas; os orcs, pela posição estratégica; outros anões, em socorro aos familiares; e as águias, convocadas pelo mago Radagast (Sylvester McCoy) para salvar o dia.

 

Entre todos os personagens, Thorin é o que mais se transforma durante o filme, sofrendo uma influência do ouro de Smaug comparável à obsessão de Bilbo, Frodo ou Gollum pelo Anel. De comandante justo e corajoso, ele decai para um rei isolado e covarde, recusando-se a cumprir promessas ou a ajudar na guerra.

Mais uma vez, quem consegue manipular a situação infiltrando-se em diferentes facções e furtando objetos-chave é Bilbo, o hobbit do título e o mais adorável dos personagens da trilogia. Infelizmente, a batalha não é apenas sua, então também voltamos a testemunhar cenas do romance açucarado entre Kili (Aidan Turner) e Tauriel (Evangeline Lilly), reencontramos o valente e humilde-até-demais Bard, além do “alívio cômico” Alfrid (Ryan Gage).

Com a extensão do livro em três filmes, algumas cenas parecem inseridas apenas para preencher espaços vazios, como a batalha de Gandalf (Ian McKellen), Galadriel (Cate Blanchett), Saruman (Christopher Lee) e Elrond (Hugo Weaving) contra um tosco feixe de luz vermelha que representa Sauron. A sequência serve para ligar os acontecimentos de O Hobbit com O Senhor dos Anéis, mas soa desnecessária e avulsa.

É interessante notar que a trilogia “O Hobbit” custou, no mínimo, o dobro da trilogia “O Senhor dos Anéis” e é citada pelo jornal The Guardian como a mais cara produção cinematográfica de todos os tempos (considerando-se os três filmes juntos). Os números oficiais nunca foram divulgados, mas estima-se algo em torno de US$ 200 milhões por longa, contra US$ 94 milhões ou menos para a saga anterior.

O mais caro, curiosamente, tem a aparência mais barata: enquanto “O Senhor dos Anéis” impressionava pelos cenários grandiosos e naturais filmados na Nova Zelândia e incrementados por computador, “O Hobbit” teve grande parte de sua produção feita dentro do estúdio Pinewood, na Inglaterra. O que vemos na tela, especialmente neste último episódio, é pouca Terra Média e muito fundo verde.

O resultado é um visual de “video game”, artificial demais. Algumas cenas parecem falsas, sem o peso ou o movimento correto, e outras simplesmente não impressionam como deveriam. Para os fãs, é uma pena ver que um livro tão importante da literatura fantástica se transformou em três filmes esquecíveis, pensados como diversão passageira por um diretor capaz de fazer melhor.

Foi-se o tempo.

Assista se você:

  • Gostou dos dois primeiros filmes da trilogia O Hobbit
  • Gosta de filmes com muitos efeitos especiais
  • Quer ver um filme previsível e um pouco piegas, para não pensar muito

Não assista se você:

  • Não gostou de “A Desolação de Smaug”
  • É fã do livro e acha que o filme pode estragar sua experiência
  • Espera que o último filme seja melhor que os outros dois

Atualizado em 11 Dez 2014.

Por Juliana Varella
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