Guia da Semana

O Homem que Não Estava Lá

Em mais uma obra prima dos irmãos Coen, o filme prima pela fotografia, roteiro e atuação de Billy Bob Thornton

Foto: IMDb


Sooner or later, everyone needs a haircut...
(Mais cedo ou mais tarde, todos precisam de um corte de cabelo)

Os irmãos Coen (Joel e Ethan Coen) - criadores de obras como Fargo, E aí Meu Irmão Cadê Você, Onde os Fracos Não Têm Vez, e que foram recentemente indicados ao Oscar por Bravura Indômita - fizeram um notável trabalho em O Homem que Não Estava Lá. Os cineastas são conhecidos por roteiros impecáveis, personagens característicos e estilo próprio. Seus filmes possuem, cada um, um tema central, que é explorado e traz à tona outros temas secundários muito bem desenvolvidos ao longo da trama, mas sem, jamais, perder o foco. O enredo gira em torno da vida do barbeiro Ed Crane (interpretado por Billy Bob Thornton - que está incrível no papel) e, assim como o personagem, toda a película é melancólica, profunda, misteriosa.


Me? I don`t talk much, I just cut the hair. (Ed Crane) (Eu? Não falo muito, eu somente corto o cabelo)

Na década de 40, Ed Crane (Thornton) é um barbeiro lacônico, fumante excessivo, que trabalha na barbearia de seu cunhado Frank (Michael Badalucco). Ao descobrir que está sendo traído por sua esposa Doris (Frances McDormand), Crane tenta se vingar. Porém, seu plano não ocorre como o esperado e acaba gerando terríveis consequências, incluindo assassinatos. Tentando escapar da prisão, Ed contrata um advogado eloquente, Freddy Riedenschneider (Tony Shalhoub), para defendê-lo. Sentindo-se deslocado, encontra refúgio nos cigarros e em conversas com uma estonteante pianista adolescente, Birdy (Scarlett Johansson), que parece ser a única a entendê-lo.


I`m saying that sometimes the more you look, the less you really know. (Eu estou dizendo que, algumas vezes, por mais que você olhe, menos você realmente sabe)

O longa é considerado neo-noir, embora muitos desacreditem por não possuir todos os aspectos que remetam ao estilo. Porém, a fotografia em preto e branco em alto contraste (o chiaroscuro), limpa, expressionista, detalhista, a ambientação nos anos 40 e até a trama em si são características clássicas do noir. A fotografia é de Roger Deakins - de Um Sonho de Liberdade, Um Homem Sério, Bravura Indômita - indicado nove vezes ao prêmio da Academia e um antigo conhecido dos irmãos.

A trilha sonora é constituída basicamente por sonatas de Beethoven adaptadas para o piano e de composições de Carter Burwell, que já trabalhou anteriormente com os Coen. Fantástica, é uma das peças essenciais que completam o universo da obra. Concorreu a Oscar pela categoria de Melhor Fotografia, mas perdeu para o imbatível O Senhor dos Anéis. Thornton não recebeu o reconhecimento merecido, assim como Frances McDormand, estupenda como sempre. 

No decorrer da película, são encontradas diversas simbologias e algumas referências a ovnis, que podem ser uma metáfora do sentimento do personagem principal de não pertencer à sociedade.

O resultado do perfeccionismo e do talento dos irmãos - que souberam dar vida à história de um ordinário barbeiro - é este magnífico pedaço de genuína arte. Menos conhecido filme dos irmãos, porém não menos importante, O Homem que Não Estava Lá entrelaça o simples enredo com o esplêndido roteiro, ressaltando sutilmente, com um quê de humor negro, as questões mais profundas da mente do ser humano. O que se pensa e não se fala. Diante da ironia de um homem comum, invisível, que nunca "estava lá", ser responsável por acontecimentos cruciais na vida daqueles que o ignoravam.

Crane preferia o silêncio, não encontrava vocábulos para descrever os próprios pensamentos e sentimentos, sentia-se preso em si mesmo, e, característico do homem comum, só foi visto após cometer um ato extraordinário: um crime.

I was a ghost. I didn`t see anyone. No one saw me. I was the barber. (Eu era um fantasma. Eu não via ninguém. Ninguém me via. Eu era o barbeiro).

(...)But I don`t regret anything. Not a thing. I used to. I used to regret being the barber. (Mas eu não me arrependo de nada. Nada mesmo. Eu estava acostumado. Eu costumava me arrepender de ser o barbeiro).


O Homem que Não Estava Lá (The Man Who Wasn`t There, USA, 2001) Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen. Elenco: Billy Bob Thornton, Frances McDormand, Michael Badalucco, James Gandolfini, Scarlett Johansson. Duração: 116 min.

Quem é a colunista:Professora apaixonada por cinema 24 vezes por segundo.

O que faz: Leciona Português e escreve para o Cinemaorama.

Pecado gastronômico: Brigadeiro.

Melhor lugar do mundo: Minha casa.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: Astor Piazzolla, Lou Rawls, Montserrat Caballé, Antonio Vivaldi.

Para falar com ela: natalia.alonso@ymail.com, siga seu Twitter ou seu site.


 

 

Atualizado em 6 Set 2011.

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