Guia da Semana

Operação Valquíria: Redenção Multitarefa

Novo filme de Tom Cruise retrata Alemanha contrária a Hitler para redimir uma nação e, de quebra, uma carreira manchada pela cientologia

Mais de 60 anos recheados de histórias sobre as atrocidades nazistas, imagens reforçando o fanatismo da Alemanha comandada pelo partido Nazista e a aterradora imagem de Adolph Hitler foram mais que suficientes para convencer boa da população mundial de que os alemães eram a pior raça da Humanidade na primeira metade do século passado. O cinema não fez muito para desfazer esse mito, pelo menos, até a estréia de Operação Valquíria, que reconta a última tentativa de assassinato ao Füher do Terceiro Reich. Tom Cruise apostou alto e ganhou numa trama ininterrupta, tensa e eletrizante, mesmo com o final conhecido e previsível.

Bryan Singer conseguiu alguns milagres na última década. Ele foi um dos maiores responsáveis por, finalmente, mostrar a real versão cinematográfica dos super-heróis com seu X-Men - O Filme e abriu terreno para tantas adaptações - que devem atingir seu ápice com a chegada de Watchmen aos cinemas, em março - e ainda conseguiu ressuscitar o Super-Homem em filme que dividiu opiniões. Agora, porém, o cineasta e produtor recebeu o maior de seus desafios: redimir uma nação e um astro desacreditado. E, acredite ou não, recuperar a imagem da Alemanha nazista é muito mais fácil do que superar os rompantes de loucura de Tom Cruise. Felizmente, Singer foi bensucedido em ambos os aspectos por dirigir um filme de roteiro complexo, mas orientação simples: recriem o atentado de 1944 e o subsequente golpe de estado que livraria a Alemanha do comando nazista.

O elenco ajudou nessa tarefa, pois nomes irrepreensíveis como Bill Nighy, Terrance Stamp, Kenneth Branagh, Tom Wilkinson, Eddie Izzard e Thomas Kretschmann estavam à disposição do diretor, além, é claro, do próprio Cruise, que assumiu a responsabilidade do projeto e reviveu o coronel Claus Von Stauffenberg, o homem que quase matou Hitler. Cruise convence e merece o reconhecimento. Mas estava tão cercado por boas condições para garantir uma interpretação impactante e longe da canastrice esperada de seu "alemão".

Operação Valquíria é uma história sobre lealdade e a verdadeira luta pelo bem maior. Hitler foi alvo de inúmeras tentativas de assassinato desde seu malfadado golpe de estado em 1923. Em princípio, seus "Camisas Marrons" o protegiam e, no momento em que o filme se passa, é a elite da SS quem cumpre o papel de segurança do Füher, tornando o acesso ao ditador praticamente impossível para inimigos externos. O único modo de tirá-lo do poder seria por um complô interno, que aconteceu quando o restante da liderança política alemã e uma ala descontente do alto comando decidem agir para evitar a matança que assolava a Alemanha, conforme os aliados avançavam.

Entretanto, matar Hitler não seria a única tarefa, pois homens como Himmler, Goebbels ou Hermann Göring prontamente assumiriam o comando com a ajuda da SS e, claro, com o exército.  Sabiamente, o filme começa com o momento crucial da ascensão de Hitler ao poder: quando ele faz com que a Werchmacht jure lealdade incondicional ao Füher, ou seja, impedindo que qualquer unidade do exército se rebele contra o ditador. E é justamente nesse detalhe que toda a trama de Operação Valquíria se desenrola e garante a atenção, pois há todo um jogo de poder, interesses obscuros e, claro, medo em caso de fiasco que moveu os homens envolvidos no complô.

A recriação de época não deixa a desejar e tudo ali se encaixa perfeitamente.  Cruise aproveitou a chance para apresentar um Stauffenberg obstinado, mas, ao mesmo tempo, apaixonado pela família. Ele não era um maníaco por poder ou assassino sanguinário, pelo contrário, foi seu constante contato com a morte de seus soldados do Afrika Corps que o moveu a tentar impedir mais mortes desnecessários. Naquele momento, o cenário estratégico estava perdido e todos sabiam, provavelmente até o próprio Hitler - embora não admitisse - que a derrota era questão de tempo.

O tempo requeria urgência, os riscos são grandes e qualquer erro resultaria em tragédia. Os elementos criados por Bryan Singer conseguiram cumprir as necessidades, o elenco ajudou e a trilha sonora de John Ottman (Superman Returns) garante a boa tensão, se bem que ver uma sala repleta de oficiais da SS e o próprio Hitler já contenha mais tensão que qualquer filme jamais conseguirá recriar. É imperdível por diversos fatores: ver Tom Cruise em boa forma, encarar um momento histórico marcante e entender um pouco mais sobre os dilemas do povo alemão perto do final da Segunda Guerra Mundial.

Curioso notar que Operação Valquíria segue a versão oficial dos fatos e, por exemplo, deixa de lado o possível envolvimento do Marechal de Campo Rommel no complô, sem dúvida, um dos pontos mais polêmicos envolvendo esse acontecimento. Rommel foi acusado de alta traição pouco depois do atentado - ele já estava descontente depois de ter descoberto a existência dos campos de extermínio e outras atrocidades cometidas pelos nazistas - e, por conta de seus imensos serviços prestados, teve a opção de cometer suicídio para poupar sua família e gabinete. Aliás, esse era o parâmetro de misericórdia praticado por Hitler num momento que nem mesmo seus mais fiéis seguidores acreditavam piamente em seu julgamento.

Em caso de êxito, a Operação Valquíria teria poupado a vida de milhões de pessoas que morreram ao longo dos nove meses que se seguiram até a invasão aliada a Berlin, o suicídio de Adolf Hitler e o fim da guerra na Europa. Tudo por culpa dos detalhes, ínfimas escolhas capazes de alterar o rumo da história eternamente e condenar uma nação à constante sombra de seu passado atroz. Sorte de Tom Cruise, que aproveitou tudo isso para se levantar e mostrar que ainda sabe como ser um grande astro.


Quem é o colunista: Fábio M. Barreto adora escrever, não dispensa uma noitada na frente do vídeo game e é apaixonado pela filha, Ariel. Entre suas esquisitices prediletas está o fanatismo por Guerra nas Estrelas e uma medalha de ouro como Campeão Paulista Universitário de Arco e Flecha.

O que faz: Jornalista profissional há 12 anos, correspondente internacional em Los Angeles, crítico de cinema e vivendo o grande sonho de cobrir o mundo do entretenimento em Hollywood.

Pecado gastronômico: Morango com Creme de Leite! Diretamente do Olimpo!

Melhor lugar do Brasil: There´s no place like home. Onde quer que seja, nosso lar é sempre o melhor lugar.


Atualizado em 6 Set 2011.

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