Guia da Semana

Periferia feminina

Levantando questões de peso como a prostituição, pedofilia e as falhas no sistema de ensino brasileiro, Sonhos Roubados resgata o olhar da mulher diante da vida na favela

Foto: Vantoen Pereira Jr

Kika Farias, Amanda Diniz e Nanda Costa vivem Sabrina, Daiane e Jéssica em Sonhos Roubados

O contexto já é conhecido do grande público que aprecia o cinema nacional. Uma favela, problemas corriqueiros que envolvem violência e falta de estrutura. Dessa vez, porém,  quem conta a história não são os chefes do tráfico ou policiais, mas sim três mulheres unidas por um único propósito: a felicidade.

Vividas por Nanda Costa, 23, Kika Farias, 25, e Amanda Diniz, 15, Jéssica, Sabrina e Daiane, respectivamente, moram em uma periferia carioca e enfrentam dilemas familiares que se contrapõem a fatos de vida como: um namoro novo, bailes funks, o sonho de ter um mp3 e ter a tradicional festa de 15 anos.

Entre confidências, Sonhos Roubados, ganhador dos prêmios de melhor atriz (Nanda Costa) e melhor filme - Jurí Popular - no Festival do Rio 2009, aborda questões específicas de comunidades cariocas e apresenta a vida de reféns da marginalidade.

Roteiro da vida real

Dirigido por Sandra Werneck - Cazuza, Amores possíveis e Pequeno dicionário amoroso - o longa traz à tona mulheres que encontraram na prostituição uma saída para seus problemas. Inspirado no livro As Meninas da Esquina - Diários dos Sonhos, Dores e Aventuras de Seis Adolescentes do Brasil, da jornalista Eliane Trindade, a produção apresenta também no elenco Nelson Xavier, Ângelo Antônio, Marieta Severo e marca a estreia de MV Bill nas telonas.

O enredo gira em torno de Jéssica (Nanda Costa) que divide suas atenções entre cuidar do avô Horácio (Nelson Xavier) e de sua filha Britney, fruto do relacionamento com Andresson (Silvio Guindane). Já sua amiga Daiane (Amanda Diniz) vive em busca do afeto de seu pai, Germano (Ângelo Antônio), que reluta em ajudá-la a dar sua tão almejada festa de 15 anos. Para completar, a sonhadora Sabrina (Kika Farias) se apaixona por um traficante da comunidade e vive o drama da gravidez na adolescência.

Mulher no comando

Foto: Vantoen Pereira Jr

A diretora Sandra Werneck, ao centro, junto de Nelson Xavier e Nanda Costa

O contato da diretora com histórias que envolvem mulheres não surgiu apenasnessa longa. Autora do documentário Meninas, de 2006, ela acredita que seu filme é feito para que o Brasil conheça a realidade das mulheres que moram em comunidades carentes. "Quando fiz Meninas tive a sensação que estava conhecendo uma parte dessa realidade. Nesse momento, li o livro da Eliana e aprofundei a questão. Quis abordar o papel da menina na comunidade, porque sempre vemos a história sob o ponto de vista masculino. Nunca abordam o universo delas separadamente", ressalta.

A escolha do elenco era fundamental para compor a história e dar vida aquelas personagens. Para isso foram realizados diversas avaliações, até que Sandra escolheu as três protagonistas. "Fiz cerca de cem testes. Muitos rostos conhecidos da TV, gente que nunca havia feito nada e desde o início queria meninas que não fossem conhecidas do grande público. Passamos seis semanas na comunidade. Trabalhar com elenco jovem foi ótimo. Não deram trabalho algum, foram esforçadas, com uma garra muito grande".

O próximo projeto de Sandra já tem nome: O lugar do desejo, que também trará mulheres à frente do enredo. No caso, Duda e Laura são amigas de infância e passarão por uma série de fatos que têm como pano de fundo as escolhas da vida. 

Trio

Desde muito novas as escolhidas por Sandra são ligadas à arte. Atualmente vivendo a Soraia na novela Viver a Vida, e vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival do Rio 2009, a carioca Nanda Costa ingressou aos 10 anos no teatro e logo aos 14 foi para São Paulo se profissionalizar.

Foto: Vantoen Pereira Jr

No filme as meninas enfrentam problemas com a falta de aula no colégio

"Quando estávamos gravando tentei abrir o coração e me joguei de cabeça. Me coloquei no meio da comunidade e me identificava com essas meninas, por conta dos objetivos. Minha mãe teve filho aos 17 anos e me inspirei nela para viver a Jéssica". Quanto ao prêmio, Nanda acredita ter sido uma alavanca para seu papel crescer na TV. "Foi um susto delicioso. No dia, fui sem expectativa até que me chamaram ao palco. Acredito que isso tenha ajudado o Maneco a me dar um espaço maior na novela", orgulha -se.  

De Recife para a telona

A recifense Kika continua a estudar teatro e sempre esteve ligada ao cena cultural do Nordeste. Em uma viagem despretensiosa ao Rio, foi chamada para um teste depois de ser vista em outras avaliações para longas. A jovem credita o resultado positivo da obra à preparação durante o período que passaram na favela, onde tudo foi rodado. "Visualizávamos muito a questão da família em relação a ajudar na realização dos sonhos. Estamos dando voz às meninas que não têm oportunidade. Me doei para ser a voz delas. Não vivi o que elas viveram, mas o filme mostra que ela sonha em ter uma estrutura, por isso, se apaixona, busca no namorado algo que ela não teve e se frustra", afirma.
 
Primeira vez

A mais nova no trio, Amanda, começou no teatro aos 7 anos. Ganhou uma bolsa de estudos em arte e logo subiu aos palcos. Em seguida, viveu durante um ano a personagem Narizinho, do Sítio do Picapau Amarelo, exibido na Rede Globo, até ser aprovada para estrelar seu primeiro longa. Ao lado da veterana Marieta Severo, Amanda não se intimidou e assume ter pedido dicas durante as gravações. "Foi maravilhoso estar do lado dela. Eu não tinha experiência com cinema e estava disposta a tudo para aprender. Se tinha uma dúvida eu perguntava, pedia ajuda. As vezes eu nem pedia e ela me dava uns toques, eu adorava", conta.

Para dar veracidade a sua personagem, a jovem se instalou na casa da tia, na Baixada Fluminense, para ver de perto como as garotas se comportam. "Já conhecia um pouco, mas precisava buscar mais referências. Fiquei morando no Vidigal e fui ao baile funk, conheci algumas meninas da minha idade, falei com as que fazem programa e foi muito bom para compor a Daiane", confessa.

Sexo para sustento

Foto: Vantoen Pereira Jr

As cenas de prostituição foram muito trabalhadas pelas produção

Além da pedofilia, problemas no ensino e violência, um dos pontos polêmicos levantados no filme é a prostituição. As atrizes passaram por uma preparação para que as cenas de sexo chegassem o mais próximo possível da realidade. "É muito triste pensar que existe isso. Quando estava gravando, tentei me colocar naquela situação. Se eu amolecesse não conseguiria fazer. Somos mulheres e tratar disso é mais difícil", afirma Nanda.

Já para Kika o essencial foi sentir o momento como se estivem realmente na pele das meninas. "Tínhamos que ficar muito a vontade para fazer as cenas. As personagens estavam à vontade durante os programas e precisávamos trazer isso para o momento" comenta. A caçula Amanda sabe que, na realidade, a vida das garotas é muito mais difícil. "Eu tive uma preparação para compor o personagem e é muito ruim saber que meninas fazem aquilo a troco de dinheiro para se sustentarem", lamenta.

Sandra ressalta que o longa não foi feito para mostrar apenas o fato, mas sim conscientizar a população que existem causas a serem discutidas no país "O filme tem um senso crítico. Elas são meninas que, para sobreviver, transam com pessoas da comunidade delas. Tentei ser delicada em relação às cenas de violência, são mais subjetivas que objetivas. É muito mais a vida delas do que o lado sexual", conclui.

Atualizado em 6 Set 2011.

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