Guia da Semana

Persona non grata

De rei do suingue ao absoluto ostracismo. Confira a entrevista de Cláudio Manoel sobre a direção de seu primeiro e polêmico documentário sobre Wilson Simonal

Foto: Divulgação

Show de Simonal exibido no documentário Ninguém sabe o duro que dei

No final dos anos 70, a música de Simonal era considerada o som do Brasil. Com carisma, charme e simpatia, o cantor levantou multidões para cantar Meu limão, meu limoeiro e Pa-tro-pi. Tudo levava a crer que ele se tornaria um dos maiores ídolos nacionais, até o famoso incidente envolvendo a ditadura e seu contador, que culminou em um massacre de mídia, público e crítica. Agora sua história é contada pelos diretores Micael Langer, Calvito Leal e o "casseta" Cláudio Manoel, no documentário Simonal - Ninguém sabe o duro que dei.

Uma semana antes da estreia do longa (15 de maio), batemos um papo com Cláudio, que falou sobre a expectativa de seu primeiro trabalho como diretor, em um filme que tenta esclarecer a trajetória de um dos mais polêmicos artistas da música brasileira. Representante da pilantragem carioca? Amigo dos milicos? Ou simplesmente um grande talento? Tire suas próprias conclusões.

Você é bastante conhecido pelas piadas e personagens do Casseta e Planeta. Já tinha se imaginado como diretor de um documentário dramático?
Cláudio Manoel:
Uma questão como a do Simonal, por exemplo, é um assunto muito delicado e complexo. É a vida de alguém. Na verdade, a motivação foi fazer uma coisa diferente. Tanto que parti para um documentário com forte carga dramática. Embora o Simonal seja uma cara de humor, sua história é trágica. Tudo começou com uma trip individual e no meio do processo, com dois anos de projeto, entraram o Calvito e Micael. Acabou sendo um trabalho coletivo, um lugar onde eu nado de braçada.

Quais as conclusões que você tirou sobre o caso do Simonal?
Manoel:
Acho que existe até uma certa inocência dele. Porque na época específica que pintou o rolo do Simonal, a censura estava pesada e se ele fosse homem do sistema, seria protegido por ele. A única denúncia de tortura que saiu nos anos Médici foi essa, envolvendo o nome dele como acusador. A dificuldade é também a razão pela qual me aventurei. Por que essa história é tão maldita? Por que ela é tão mal contada? Por que ela é inédita e as pessoas se incomodam tanto com ela?

Foto: Diego Dacax

Integrante do Casseta e Planeta, Cláudio Manoel estreia na direção do documentário dramático


Encontrou  muitos problemas para filmar o documentário?
Manoel:
Tivemos dificuldades de arrumar parceiros. As pessoas não conheciam o Simonal, provando o quanto ele ficou soterrado, desaparecido. E quando conheciam, era pior. Muitos falaram para a gente não se meter nisso, para deixar como estava. Isso me deu mais vontade de produzir. Não deu para baixar algumas resistências, que preferiram não falar. A recuperação de imagens também foi outro grande problema. A legislação que trata disso é muito complicada. Se o Michael Moore fosse brasileiro e quisesse fazer um filme do presidente, precisaria da autorização do próprio.

Max de Castro, filho do Simonal, afirmou para a Folha de S. Paulo em março, que o documentário serve como uma introdução, mas com ressalvas, pois o depoimento do contador Rafael Viviani não dá poder de contra-argumento. Como vocês pensaram montar esse trecho?
Manoel:
Você pode contar uma história de 100 mil maneiras. Essa foi a que a gente contou. Discutimos muito antes da edição e a partir do momento que conseguimos a entrevista do Rafael Viviani, soubemos que ela era decisiva. Paramos de entrevistar a partir dali, por ter em mãos algo inédito, de grande impacto. Não era mais um artista, não estava analisando um ídolo e sabíamos que quando entrasse, desconstruiria. A nossa construção de narrativa pensava na ascensão e queda, brincando com a emoção do público. Uma hora você gosta do Simonal, outra hora não entende, fica puto, ou com dó.

Foto: Diego Dacax

Presente na pré-estreia, Simoninha opinou sobre o filme. "Achei um belo documentário. Tem o mérito de mostrar para as pessoas o artista que por muitos anos clamou inocência, mas viu as pessoas fecharem as portas"

Qual é a diferença entre a censura sofrida pelo Simonal e a de outros artistas liberados pela ditadura, como Dom e Ravel? Acredita que o fato de ele ser negro contribuiu para o cerco e ostracismo?
Manoel:
O racismo é um elemento de peso. Uma coisa interessante da época é essa questão do apoio à ditadura. Os artistas não apoiavam. Mas a Elis fez um show comemorativo dos 10 anos das Olimpíadas, porque o Ministro do Exército convocou. Queria ver que macho da época não faria. Era isso ou o exílio. A questão é que essas pessoas souberam construir pontes. Quando a Rita Lee foi presa por porte de drogas, sua primeira visita foi a da Elis Regina, que nunca perdeu a turma dela. O Simonal era outsider, a turma dele era da pilantragem. Não era uma coisa orgânica, como a galera da MPB.

O que sente depois de finalizar a sua primeira direção de um longa?
Manoel:
Essa é a coisa que mais compensa. Fiz o filme inteiro e depois as pessoas apoiaram para fazer a finalização e distribuição. Como tive que pagar tudo em "suaves prestações", é natural ficar sempre angustiado, pensando que vai morrer na praia, principalmente quando começa a editar uma quantidade enorme de materiais. Mas quando chega a um produto que não apenas te satisfaz, mas tem um feedback legal, com o público batendo palma, chorando e cantando, é como se fosse um gol.

Pretende trabalhar em outros projetos na área?
Manoel:
Na verdade, agora só penso no documentário, em transformá-lo em DVD e fechar o ciclo Simonal. Comprometi muito tempo, dinheiro e tenho primeiro que finalizar isso, já que tenho outro trabalho (referindo-se ao Casseta e Planeta), que não posso abandonar.

Como você definiria o Simonal?
Manoel:
Um dos maiores artistas que o Brasil já teve. Pioneiro de muitas coisas, que pagou um preço desproporcional por um erro que cometeu. A pena que ele recebeu foi de uma crueldade gigante. Ele acabou apanhando mais que o contador.

Atualizado em 6 Set 2011.

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