Guia da Semana

"Philomena" denuncia venda de bebês pela Igreja nos anos 60

Filme com Judi Dench conta história real de irlandesa que procurou o filho por 50 anos

Philomena Lee segura com força a foto de um bebê, um pedaço de papel envelhecido e em preto e branco. Sua filha observa, sem saber quem é. Ninguém sabe - Philomena Lee guardou seu segredo por 50 anos, e agora quer contar a verdade.

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Baseado no livro homônimo de Martin Sixmith, o filme “Philomena” reconta a busca dessa senhora irlandesa por seu filho – vendido para adoção pela Igreja quando ela era adolescente. A história é real e foi investigada por Sixmith, um jornalista que cruzou por acaso com aquela mulher cheia de perguntas.

É Judi Dench quem dá brilho a Philomena nas telas, delicada e inabalável. A personagem ainda está viva e ajudou a atriz a compreender seus dilemas: dividida entre a fé na Igreja e a mágoa de ter sido separada do filho, ela decide descobrir a verdade – sem vingança nem ódio, apenas a verdade com seus horrores expostos.

Steve Coogan (“Pelos Olhos de Maisie”) interpreta o autor: um ex-repórter arrogante da BBC que despreza histórias de “interesse humano”, mas decide aceitar o desafio por necessidade. Em mais de um momento, Sixmith pensa já ter terminado seu trabalho, só para ouvir da editora que é preciso ir até o fim. O fim, ele descobre, é a corrupta relação entre a Igreja irlandesa e o sistema de adoção americano, mais dissecado no livro do que no filme.

Mesmo sem detalhes sórdidos, o longa consegue causar repulsa pelas práticas católicas, da punição das meninas à queima de documentos estratégicos. Ao mesmo tempo, a presença de Philomena equilibra os valores religiosos, oferecendo um contraponto positivo que reforça o respeito e o perdão.

Judi domina praticamente todas as cenas, ora soando como uma idosa tagarela, encantada com os excessos da capital americana; ora assumindo a responsabilidade de mãe e avó e derretendo os corações mais resistentes. Pois é assim que ela age: com doçura, não importa a situação. Sentimo-nos pequenos, minúsculos, vingativos como crianças.

“Philomena” tem tantas camadasde significação quanto quisermos enxergar. É a Igreja Católica contrariando seus próprios preceitos (mostrando ganância e tentando fazer justiça com as próprias mãos), mas é também a defesa de certos ideais religiosos.

É ainda a gravidez na adolescência como consequência da recusa dessa mesma Igreja a oferecer informação. É o comércio de crianças travestido de adoção. É a homossexualidade sob os olhos de uma senhora católica - que não a condena, nem mesmo julga. É uma lição de humildade para um homem que achava já saber tudo, e para nós, que nos surpreendemos a cada sequência.

Stephen Frears, o diretor e coreógrafo dessa trama de erros e castigos, tem experiência com personagens maduras e com as maldades intrínsecas ao ser humano. Foi ele quem levou às telas o clássico “Ligações Perigosas”, com uma diabólica Glenn Close, e o drama “A Rainha”, com Helen Mirren se transformando na própria (e complicada) Elizabeth II.

Para Judi Dench, cujo papel mais frequente tem sido o da matriarca durona na série James Bond, Philomena é um presente. É ali que vemos a atriz completa, capaz de transmitir sutilezas e contradições de uma mulher pouco comum.

“Philomena” nos conquista tanto quanto nos desafia. Adorável do começo ao fim, não deixa de incomodar, seja você religioso ou não. Goste você de “interesses humanos” ou não.

Assista se você:

- Gosta de filmes com protagonistas mais velhos
- Se interessa pelas contradições da Igreja Católica
- Quer acompanhar os filmes que estão na corrida do Oscar

Não assista se você:

- Não gosta de filmes com pouca ação
- Não quer ver um filme sobre religião
- Procura um filme leve para o sábado à noite

 

 

Atualizado em 12 Fev 2014.

Por Juliana Varella
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