Guia da Semana

Reese Witherspoon enfrenta o deserto americano em “Livre”

Filme mostra atuação dramática da atriz, mas roteiro não se destaca entre outros sucessos do gênero

Um ano depois de dirigir dois atores rumo ao Oscar em “Clube de Compras Dallas”, Jean-Marc Vallée mergulha em outra história real, desta vez colocando em cena uma dupla feminina numa história de luto e redenção por meio de uma viagem solitária. Apesar de oferecer todos os elementos para impulsionar a carreira de Reese Witherspoon, “Livre” não encontra uma abordagem suficientemente original – perdendo-se entre filmes mais bem resolvidos como “Na Natureza Selvagem” e “127 Horas”.

Se Vallé conseguiu encontrar um lado ainda desconhecido da luta contra a AIDS em “Dallas”, o novo filme segue à risca o que se espera do gênero, sem surpreender ou provocar: a personagem lança-se numa trilha de mais de 1.700 km para se livrar de um passado cheio de erros. Diante da hostilidade da natureza (e da quase inverossímil solidariedade dos humanos), ela reencontra sua vontade de viver.

Enquanto carrega uma mala com muito mais quilos do que pode carregar por cenários desérticos e montanhas nevadas, Cheryl Strayed (Witherspoon)  lembra-se de sua mãe (Laura Dern), de seu divórcio, suas traições, as injeções de heroína e a gravidez indesejada.

Ela não é uma personagem amável e, como muitos, foi rude com a mãe antes de descobrir que a estava perdendo. O público pode se identificar com ela e compreender sua decisão de se isolar, mas, de alguma forma, a jornada parece fácil demais.

Seria injusto e incorreto afirmar isso sobre a viagem real, mas, quando pensamos em cinema, a realidade simplesmente não basta. Cheryl não está assim tão sozinha, afinal: seus amigos e parentes sabem onde está e enviam-lhe caixas de apoio a cada parada estratégica.

No caminho, outros viajantes lhe dão dicas e comida – ela é uma das únicas mulheres no percurso, por isso recebe atenção especial. Em diversos momentos, porém, isso se torna um problema e homens de todos os tipos ameaçam violentá-la – o estranho é que ela parece não sentir medo e, consequentemente, nós também não sentimos.

O fato de a aventureira ser uma mulher traz diversas sutilezas como essa ao papel. Cheryl é resistente, mas tem consciência de sua fragilidade e consegue percorrer num dia metade do que um homem faria. Além disso, ela tem instintos sexuais pulsantes, mas sabe que ceder a eles num lugar tão isolado pode significar sua morte.

O filme mostra o efeito destrutivo da jornada na feminilidade da protagonista: ela cheira mal, deixa de se depilar, exibe hematomas por todo o corpo e, ao chegar a uma cidadezinha, seu primeiro impulso é comprar um batom vermelho e seduzir um homem.

Esses detalhes mostram um estudo cuidadoso da personagem, mas não compensam a falta de transformações psicológicas mais profundas durante a viagem – Cheryl muda radicalmente quando toma a decisão de fazer a trilha, mas, depois disso, sua postura permanece equilibrada do primeiro ao último quilômetro, com uma ou outra lágrima para hidratar o caminho. Para que cruzar o país, então, se não se terá a companhia de um pouco de loucura?

Assista se você:

  • Quer ver uma atuação diferente de Reese Witherspoon
  • Gosta de filmes de sobrevivência na natureza
  • Quer ver um filme com personagens femininas fortes

Não assista se você:

  • Não gosta de filmes de sobrevivência na natureza
  • Quer ser surpreendido
  • Espera ver um filme forte com atuações viscerai

Atualizado em 3 Fev 2015.

Por Juliana Varella
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