Guia da Semana

Uma flor de pessoa

Requisitado no cinema brasileiro, Milhem Cortaz mostra seu lado sensível e fala da carreira

 Ele tem 1,82m, traços fortes, voz grossa de um tom bem imponente. Já interpretou um assassino em Carandiru, se destacou no filme Tropa de Elite como o Capitão Fábio, o "02" do Bope, usou saia e salto alto no filme Se nada mais der certo e foi um mau caráter na novela Poder Paralelo, da Rede Record. Milhem Cortaz, 36 anos, um dos nomes mais requisitados no cinema brasileiro, tem mais de 40 longas no currículo e um jeito sensível de ser. Em entrevista para o Guia da Semana, no intervalo das filmagens do filme Vips, de Tonico Melo, o ator paulistano de raciocínio rápido, muitas palavras e super sincero, conta como mudou com a paternidade e como foi interpretar o pai do presidente Lula, no filme Lula, o filho do Brasil.

Guia da Semana: Você morou na Itália e fez teatro de rua. Como foi sua transição do teatro para o cinema?
Milhem Cortaz: Quando morei na Itália fiz parte do Picolo, de Milão. Vim para o Brasil com a esperança de fazer teatro de rua, mas não consegui. Aqui as pessoas acham que teatro de rua é pobre, porque não tem glamour. Então trabalhei com o Antunes Filho, onde aprendi a ter disciplina e fiz teatro de palco. Depois de um tempo, quando eu já tinha explorado o teatro, decidi fazer cinema, que era uma coisa que eu já tinha vontade de fazer, e resolvi me dedicar a isso.

Guia da Semana: O teatro é sua paixão?
Milhem: Sim, é a minha grande paixão. O teatro é a minha casa, onde eu sempre fui bem recebido. Logo mais eu vou interpretar na televisão e no cinema um pai, avô, bisavô, e no teatro eu tenho a possibilidade de fazer papéis mais jovens. O teatro é onde eu me exercito, onde eu tenho a liberdade de errar. O legal do teatro é que ele te exercita todo dia, é uma coisa de frescor, esse é um desafio do caralho! Eu sou apaixonado pelo teatro, não trocaria por nada. Se o teatro me desse o dinheiro que o cinema e a televisão me dão, eu não faria outra coisa. Só um filme de vez em quando se eu tivesse vontade.

Guia da Semana: E o cinema?
Milhem: O cinema também é minha paixão. Cinema é eterno. O que mais se aproxima do teatro é o cinema, que é uma arte artesanal em pequenos detalhes. No teatro a gente presta muita atenção nos pequenos detalhes, nos movimentos, no corpo. Foi com Carandiru que eu ganhei respeito dentro do cinema, ninguém me conhecia.

Guia da Semana: Você já fez novelas e seriados. Gosta de fazer televisão?
Milhem: A televisão de certa forma seduz e exige muito pouco, porque ela limita. Você tem 40 cenas para gravar por dia, tem que resolver aquilo rápido, mas ela também é uma necessidade de todo ator. Não é romantismo isso que estou falando, é verdade, a TV  é uma necessidade. Mas se depois de 18 anos você continua naquilo e nada mais, acaba se acomodando. E o ator tem que estar sempre atualizado, sempre em exercício. É igual ao médico, não adianta ele achar que se formou e não precisa ler mais nada, ele tem que se atualizar, e o ator é a mesma coisa.

Guia da Semana: Carandiru foi seu primeiro destaque. Depois em Tropa de Elite outro personagem marcante, o que fez com que o público gravasse de vez o seu rosto. Como foi interpretar esses dois personagens?
Milhem: Foi uma sorte. Entre talento e disciplina, e uma série de outras coisas que faz você ser vitorioso naquilo que você faz, é a sorte. Eu estava no lugar e na hora certa e os caras acreditarem que eu era o cara para fazer aquilo. Carandiru veio no momento exato para eu começar a ter respeito e as portas começarem a se abrir para mim no cinema. Quando fiz Tropa de Elite eu estava mais maduro, sabendo mais o que eu queria.

Guia da Semana: Depois Tropa de Elite, você fez um travesti, em Se nada mais der certo. Como são essas mudanças bruscas de personagem para você, de um machão a uma mulher?
Milhem: Eu e o Zé Eduardo Belmonte (cineasta e diretor do filme Se nada mais der certo) somos muito parceiros. Ele me dá liberdade artística que eu não consigo ter com outras pessoas. Nós conseguimos dialogar muito bem. Quando ele estava escrevendo o roteiro, ele me perguntou o que eu queria fazer naquele momento e eu disse que queria falar de amor, trabalhar o feminino, a fim de entender a delicadeza para melhorar como pessoa e artista. Aí ele me presenteou com a Sibele, que é uma personagem de muita solidão, com uma ironia macabra, um humor negro. Eu me identifiquei com ela nessa parte do humor, meus amigos falam que eu não sou engraçado, eu sou escroto.

Guia da Semana: Você estava com vontade de fazer algo mais feminino? Seu lado feminino é muito forte?
Milhem: De uma certa forma eu queria me mostrar de verdade. Esse meu lado feminino é o lado que meus amigos conhecem, o lado que eu me entrego, sou puro, é aquilo que sou. Todo mundo vê uma coisa e tira suas conclusões, mas meus amigos dizem que eu sou uma flor que precisa ser cuidada. Eu sou uma pessoa esclarecida. Da mesma forma que eu não tenho medo em dizer que tenho orgulho de ser homem, não tenho vergonha de admitir que na minha infância eu colecionei papel de carta. Não é porque eu sou alto, forte e tenho a voz grossa que eu sou bruto. Nosso grande problema é ficar julgando o outro. Eu não ligo mais para o que falam, sou sincero e seguro.

Guia da Semana: No filme Lula, o filho do Brasil, você interpreta o pai dele, que abandonou a família e foi viver em Santos. Ele era um homem violento, então como foi viver esse homem? Você chegou a conversar com o presidente sobre o pai?
Milhem: Conheci a família inteira do Lula em um almoço. Foi tipo a família inteira mesmo, umas 150 pessoas. Nesse dia o Lula não estava, mas eu conversei com ele por telefone. Ele e os irmãos não tinham nenhuma referência sobre o pai, além de saber que ele era um cara bruto, e um cara que, enquanto viveu com eles, não deixou faltar nada em casa. Essa era a referência deles, então para interpretar o Aristides eu fui buscar o que tinha de mais próximo daquele universo, que são os meus avós. Meu avô tinha muitas coisas próximas, a forma como ele via o amor e a educação. Esse personagem é quase uma homenagem a ele.

Guia da Semana: Por que quase uma homenagem?
Milhem: Todo mundo tem um super herói e o meu é meu avô. Eu o tenho em praticamente todos os personagens que fiz na minha vida. Ele me batia muito, ficamos 11 anos sem nos falar. Essa maneira dele me tratar, era a forma que tinha de me educar, de mostrar que tinha amor por mim. Então, interpretando, conhecendo histórias parecidas, eu entendi que na verdade meu avô era uma figura mitológica na minha vida. Descobri que ficar sem falar com ele me marcou para o bem, que eu o admirava porque era puro, tinha uma forma de amor inocente. Passei a perceber que meus personagens tinham uma respiração, forma de olhar, coisas dele. Eu exorcizei esses anos que fiquei sem falar com ele nesse filme, e foi muito bom. Acho que é um personagem que vai marcar meu interior. É uma pena que meu avô não vá assistir, porque ele morreu há dois meses, mas eu gostaria muito de ganhar um prêmio para dedicar a ele. Para falar o exemplo que era pra mim.

Guia da Semana: Você mudou com a paternidade?
Milhem: Ter um filho é uma benção de Deus. Tem coisas que a gente conquista na vida e tem que se sentir vitorioso. Eu me sinto vitorioso com isso,  melhorei muito como pessoa depois que a Helena nasceu. O grande barato é como você consegue se apaixonar por aquele ser antes de vê-lo, mas quando aparece na sua frente, você se transforma em um homem melhor. Eu nunca mais na minha vida vou fazer algo melhor que a minha filha. Eu sou muito pequeno perto dela.



Foto: Michel Ângelo / Record

Atualizado em 6 Set 2011.

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