Guia da Semana

Vilões ou mocinhos?

Imagem estigmatizada do crítico de cinema ronda a maior parte dos depoimentos de cineastas no documentário de Kleber Mendonça Filho



Qual a função da crítica cinematográfica? Até que ponto a crítica influencia na carreira de um filme ou de um diretor? Podem existir críticas instigantes em grandes veículos tendo em vista as limitações de público alvo, espaço e velocidade de produção que são impostas ao profissional? De que forma as ideias que o diretor quis transmitir em um filme ecoam no receptor? Estas perguntas ficam sem resposta ou são superficialmente abordadas no documentário Crítico, longa de estreia do cineasta e crítico recifense Kleber Mendonça Filho, que investiga a relação entre críticos e cineastas.

O filme, que abriu a 10ª edição da Retrospectiva do Cinema Brasileiro, promovida pelo CineSesc, privilegia depoimentos, bastante curiosos em sua maioria, sobre a maneira como cada cineasta lida com seus próprios medos e ressentimentos, ao invés de propor debates aprofundados sobre o tema.

É um desperdício, tendo em vista os importantes profissionais da área que o diretor entrevistou por quase dez anos, como Gus Van Sant, Tom Tykwer, Eduardo Coutinho, Carlos Reichenbach, Fernando Meirelles, Cláudio Assis, Walter Salles, Sérgio Bianchi, Carlos Saura e críticos da Cahiers du Cinéma, Positif, revista eletrônica Cinética, Variety, O Globo e O Estado de S. Paulo.

Alguns dos melhores depoimentos evidenciam a contribuição da crítica para o amadurecimento do cinema de forma geral. Carlos Reichenbach e Fernando Meirelles dizem que o bom analista do cinema ajuda o diretor a compreender melhor sua própria obra. Eduardo Coutinho conta que removeu uma cena de Edifício Master, em que havia sido inconscientemente preconceituoso, devido a um comentário de Neusa Barbosa, jornalista e crítica. Walter Salles evoca a nouvelle vague francesa para dizer que o bom cineasta é, antes de tudo, um excelente crítico.

Outro ponto alto do filme é o fato de retratar o modo de produção industrial a que os críticos são submetidos nos grandes veículos. Isso é evidenciado por meio de imagens de uma das edições do Festival de Cannes. Assim que uma sessão termina, os jornalistas literalmente saem correndo para a sala de imprensa para elaborar uma reflexão em apenas duas horas. Processo que se repete várias vezes por dia até o término do festival. Questiona-se, desta forma, como a velocidade própria do jornalismo pode limitar a construção de uma análise minimamente amadurecida de um filme.

O depoimento de Eduardo Valente enriquece esta reflexão. O crítico independente e cineasta afirma que o volume de filmes a serem vistos e a pressão de ter que tecer considerações sobre inúmeras produções faz com que o resultado final possa não ser tão satisfatório, ao passo que os blogueiros e cinéfilos, que escrevem movidos por paixão, podem por vezes oferecer análises mais interessantes.  

O filme perde densidade ao centrar-se em uma espécie de ressentimento e relação de amor e ódio entre críticos e cineastas. Muitos diretores se limitam a descrever sua reação intima de frustração e ego ferido ao ler uma crítica negativa. Andrucha Waddington afirma que o sentimento é semelhante ao de ouvir uma critica de um filho e Hector Babenco diz que se recusa a lê-las.

De forma a corroborar a mais ultrapassada acusação de que críticos são cineastas frustrados, Sérgio Bianchi afirma que alguns profissionais brasileiros de sua geração partiram para a análise por não terem conseguido viabilizar seus filmes.

O documentário apropria-se de uma frase de Oscar Wilde, de que a crítica seria um tipo de autobiografia, como um argumento infantil para desqualificá-la. Afinal, o trunfo de uma boa análise fílmica é justamente o de equacionar subjetividade, conhecimento histórico e técnico.

O bom crítico promove discussões, debates, oferece chaves de leitura para a compreensão de um filme, relaciona uma obra ao contexto no qual está inserida, traça paralelos entre diferentes produções, relativiza historicamente a importância de filmes e diretores, identifica marcas de autoria, temas ou recursos estéticos recorrentes na filmografia de um cineasta, além de ressaltar mudanças em sua obra.    

Pode passar despercebido, por isso é importante ressaltar que um crítico bem resolvido nutre enorme paixão ao cinema e profunda admiração aos cineastas, caso contrário não direcionaria sua carreira e grande parte de seu tempo à análise do audiovisual. A rixa entre críticos e cineastas, que sustenta grande parte do documentário, mostra-se reducionista uma vez que o crítico consciente é um aliado do diretor - e do desenvolvimento do cinema em última análise. Talvez, uma de suas maiores contribuições seja a de fazer um espectador em potencial sair de casa para ir ao cinema movido por um texto instigante.


Quem é a colunista: Jornalista e cinéfila Cyntia Calhado.

O que faz: Repórter do Guia da Semana.

Pecado gastronômico: Pizza, chocolate, açaí...

Melhor lugar do Brasil: Onde se tem paz.

Melhor filme que já assistiu até hoje: Como é impossível escolher um, fico com a obra dos diretores Pedro Almodóvar, Eric Rohmer, Walter Salles e Domingos de Oliveira.

Para falar com ela: cyntia.calhado@gmail.com ou acesse seu blog  ou site

Atualizado em 6 Set 2011.

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