Guia da Semana

A hora de crescer

Existe um fato que marca a passagem da adolescência para a vida adulta?

Tenho a carteira cheia de cartões, sou adulto?
Foto: Stck.Xchng

Quando eu tinha uns 11 anos, tinha certeza do momento exato em que eu saberia que seria adulta: para mim, a hora chegaria quando eu tivesse um monte de cartões na carteira. Vou explicar: olhava para minha mãe, grande e independente, com a carteira cheia de cartões de todos os tipos. Iniciei, assim, minha empreitada por cartões. O primeiro foi um daqueles coloridos, que a gente recarregava com créditos pra brincar nos parques dos shoppings, que davam direito a tickets que você trocava por brinquedos (que, aliás, ninguém nunca conseguia pegar, já que exigiam sempre milhares de tickets que nenhuma criança seria capaz de juntar).

Depois, aos 16, tirei CPF e título de eleitor e precisei até de uma carteira maior. Aí, entrei na faculdade: a conta universitária me trouxe um cartão de crédito, um de débito, os talões de cheque... já no emprego novo, me vi atolada de cartões: passe municipal, passe intermunicipal, cartão do seguro de vida, vale-alimentação, outra conta em outro banco...

Havia atingido meu sonho mais antigo, cultivado e alimentado desde a mais tenra infância - o acúmulo de inúmeros cartões. Hoje, quando chego no metrô, preciso pegar a carteira uns cinco minutos antes de passar na catraca, vasculhando em busca do cartão certo. Uma vez tentei entrar na faculdade com o CPF; outra, quase consegui tirar dinheiro do banco com o cartão de créditos de passe, mas a operação não se completou, para o meu desespero (ou alívio).

O pensamento mais recorrente que me lembro ter desde sempre é que eu queria crescer. E logo, para poder ir para onde quisesse, como quisesse e com quem quisesse, sem pedir permissão - no máximo, comunicar. E o tempo veio vindo, veio vindo... e, aparentemente, eu cresci. De fato, faço quase todas essas coisas. Não tenho um carro, mas já dirijo (o da minha mãe), e vou para onde quiser - só preciso avisar. Além disso, os cartões transbordam na minha carteira, eu trabalho das 8h00 às 18h00, tenho contas a pagar no fim do mês e um futuro para planejar. Isso sim é ser adulto, não é?

O problema é que, nem tanto tempo depois de ter esse desejo tão intenso de me livrar logo dessa praga que era a adolescência, eu me vejo querendo mais do que tudo poder voltar a ela. E a minha tal adolescência foi, de fato, péssima. Dos 12 aos 17 eu sofri, na escola, todo o tipo de perseguição possível, direta ou indireta. Quando isso não acontecia, eu me sentia intimidada pelo ambiente hostil, ou pelas exigências cruéis da juventude de vestir a roupa da moda e freqüentar os lugares legais. Todas essas coisas foram muito prejudiciais num sentido amplo (não para minha terapeuta, que acumulou três anos de renda fixa e constante), mas contribuíram imensamente para a formação do meu caráter.

Eu não quero viver a vida de adulta, embora eu não tenha escolha na maioria da vezes. Mas, na essência, eu ainda sou uma adolescente. Não consigo me ver como alguém que cresceu e de fato deixou a juventude para trás, e não sei quando vou conseguir. Talvez eu devesse estabelecer um novo parâmetro, mais condizente com a realidade atual - do tipo, "vou me tornar adulta quando acumulhar milhagens de companhias aéreas", ou algo assim. Mas o que me importa é que, mesmo que pareça clichê, eu só vou ser adulta quando eu quiser, e todos nós podemos escolher ser assim. E, dessa perspectiva, a vida chata de adulto parece muito mais atraente.

Quem é a colunista: Ana Paula Freitas.

O que faz: Trabalha muito e estuda Jornalismo nas horas vagas.

Pecado gastronômico: Comida japonesa!

Melhor lugar do Brasil: Ainda não encontrei.

Fale com ela: anabsf@gmail.com

Atualizado em 6 Set 2011.

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