Guia da Semana

Alegria proibida

O narrador quer encontrar o assassino e matá-lo, para ter o respeito do povoado. Mas ele está mais próximo do que imagina

Foto: Getty Images


O badalar forte dos sinos invadiu meu sono feito tiros na janela. De novo isso? Há semanas que nada acontece e agora os sinos de novo!

Pulei de minha cama o mais rápido que pude, peguei uma faca e fui para a porta de minha casa. Todos da vila estavam na rua, todos os 50 rudes e chatos habitantes. Os vultos negros com formas contornadas pela luz da lua cheia remexiam-se ansiosamente de um lado para o outro, se amontoando nos pequenos feixes de luz emitido pelos postes com estruturas fracas daquela pequena vila.

Fiquei parado. De repente não entendia o porquê de todo o caos. Por que todos estavam em volta daquele poste?

Foi quando olhei para os pés da multidão e, numa brecha do conglomerado, eu vi. A luz amarelada iluminou seus cabelos castanho-claros caídos no chão, a boca entreaberta carmim, os olhos ainda abertos, vidrados na centelha de tempo que a separou da vida, e que olhavam em minha direção, ainda amedrontados.

Era Anita.

Seu "não" na última festa jamais me deixaria esquecer quem ela era. Raiva por aquela humilhação transbordou em meu peito.

-Vamos pegá-lo! Vamos pegar o monstro que assombra nossa vila há anos! - Disse uma voz forte de um dos vultos no meio da multidão.

- Convoco todos os homens que tenham alguma coragem e coração que venham comigo e acabem de uma vez por todas com ele!

Nunca ouvi alguém gritar com tanta intensidade. Tentei me lembrar de quem era aquela voz e logo veio em minha mente como um baque: era o marido de Anita.

Senti os músculos de minha face e de meus braços se contraírem, a arritmia tomou conta de mim e só me dei conta do quão nervoso estava quando senti minhas unhas cortarem as palmas de minha mão.

Respirei fundo.

Vou ajudar a procurar o monstro. Sou uma boa pessoa, vou ajudar. Além disso, eu já tenho a faca, pensei agarrando fortemente seu cabo.

Olhei para o chão e vi as pegadas do monstro.

Eu serei o herói, todos vão me adorar e ninguém vai me tratar como Anita se eu o achar. Toda a raiva fora substituída pela alegria que fazia meu peito prazerosamente subir e descer.

Corri até onde as pegadas me levaram.

Pensei em Anita a cada passo, eu a amava mais do que amava a mim mesmo. O coração batia ainda mais descompensado quando pensava nela, e odiava isso. Eu a queria para mim sem dor, aflição e ansiedade.

Olhei as mãos peludas do monstro em minha frente, e cravei a faca em seu peito.

Dor, alegria, nostalgia, ansiedade, alívio. Todas as emoções me acertaram como um tiro de uma só vez.

Mas algo incomodava em meu peito, olhei para baixo, lá estava a faca, cravada em meu peito que pouco a pouco retornava a forma humana.

Caí no chão não aguentando meu próprio peso.

Matei o monstro! Pensei satisfeito, agora todos passariam a me adorar, nem mesmo Anita me humilharia!

O paralelepípedo do meu lado estava quase todo tingido de vermelho conforme o líquido se espalhava pelas entranhas da pedra.

Mas que importância tem isso?

Antes que tudo escurecesse para sempre, pensei com prazer:


Eu te amo, Anita.


Leia as colunas anteriores de Gabi Diehl:

Esquizofrenia nacional

A bluma - continuação

A bluma

Quem é a colunista: Adolescente, estudante, autora do livro as Bruxas de Westfield e bookaholic assumida.

O que faz: Escrevo contos e livros quando não estou estudando para as provas do terceiro colegial.

Pecado gastronômico: Chocolate, de preferência, meio amargo.

Melhor lugar do mundo: Praia.

O que está ouvindo no carro, rádio, mp3: Switchfoot, Katy Perry, The Kooks, Oasis e Capital Inicial.

Fale com ela: contato@gabrieladiehl.com.br, ou siga seu Twitter, site e Facebook.
 

 

Atualizado em 11 Fev 2014.

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