Guia da Semana

Como enfrentar a morte na infância

Pais e outros adultos não devem poupar as crianças de saber a respeito da morte de uma pessoa próxima ou um ente querido

Foto: morguefile


Quando se fala nela todo mundo arrepia, disfarça e foge do assunto, porém, em algum momento da vida, a morte aparece e, inevitavelmente chega a hora de conversar sobre ela. Se entre os adultos essa é uma missão difícil, abordar a perda de um ente querido para uma criança é ainda mais complicado.

Geralmente, para evitar o sofrimento do filho, os pais acabam contando histórias como "esse alguém ou o animalzinho virou uma estrela" ou "ele foi viajar", entre outras frases que servem de suporte na hora de ter que abrir o jogo. No entanto, os especialistas explicam que esse tipo de atitude é equivocada. Para a psicóloga Célia Ferreira, ocultar a verdade perturba o processo de luto da criança, que se refere ao conjunto de reações diante da perda.

"Até mais ou menos os 5 anos, as crianças não fazem distinção entre seres inanimados e animados. Não percebem a morte como definitiva e irreversível. Aos 6, 7, elas sabem fazer a distinção, mas não dão respostas lógico-categoriais de causalidade da morte. Elas buscam aspectos perceptíveis, como a imobilidade para defini-la; contudo, já é capaz de perceber a morte como irreversível. E depois dos 8 anos, costumam reconhecer a morte como um processo do corpo".

Foto: morguefile
Por isso, cada criança vai entender de uma maneira diferente que aquela pessoa querida se foi. A doutora esclarece que tudo depende da maneira como se conta, "Dizer que ela viajou e foi para o céu, pode fazer com que a criança deseje ir também para encontrar esse alguém, principalmente se o vínculo entre eles era muito forte. Por exemplo, tem gente que diz: ele não vai mais abrir os olhos, nem poder caminhar, nem falar, nesse caso, a pessoa não mente e explica com carinho que as pessoas morrem." Além disso, se um indivíduo foi viajar, ele pode voltar e essa idéia cria uma expectativa nos pequenos: o pior é quando eles percebem que com o passar do tempo, ninguém retornou e daí, sentem-se abandonados.

Em 1996, um garoto de 11 anos que havia perdido o pai em 91 se suicidou ao se jogar do apartamento onde morava num bairro nobre de São Paulo. Ele sempre pareceu, diante de seus colegas e das situações, inconformado com a morte do pai. Falava dele o tempo inteiro e chegou a conclusão que se morresse, o encontraria. Existem raríssimos casos como esse, mas uma criança vive de acordo com o mundo que lhe é mostrado, portanto, não dizer coisas como: "em breve você vai reencontrá-lo", ou "quando você morrer vai vê-lo de novo", ajuda a superar essa etapa de perda.

Falar a verdade independente da idade é o ideal do ponto de vista da psicologia infantil. Thaís Petroff Garcia, psicóloga e especialista em psicologia da Infância, acredita que cada família deve comunicar a criança de acordo com sua crença e maneira de viver e encarar o luto, mas também conversando sobre a morte. "Até os 5 anos, é importante ser lúdico na linguagem, porém, explicar que a pessoa não vai voltar". Nesse momento, é fundamental perguntar se a criança deseja ir ao enterro, e ela deve optar por ir ou não. "Com menores de 4, não aconselho, porque o clima vai estar triste, as pessoas chorando, e é aquela imagem que os pequenos vão presenciar, porém quando são maiores e querem participar do funeral, devem fazê-lo: é uma etapa importante".

Foto: Photocase


Nessas ocasiões, conversar abertamente e deixar a criança se sentir a vontade é uma forma de dar suporte emocional. Permitir que ela chore, dê risada ou converse abertamente e obtenha respostas sinceras vai ajudar a aliviar a dor e expressar os sentimentos. "Nunca nenhum pai ou adulto deve reprimir uma criança de chorar ou de ter qualquer reação numa circunstância como essa. Isso pode trazer graves conseqüências para o corpo e comportamento dela, tal como omitir sobre a morte de alguém importante", alerta Thaís.

Geralmente, a criança pergunta como a pessoa morreu. Nesse caso, a mentira também não deve ser uma saída. A doutora Célia explica que apenas em caso de suicídio, deve-se dosar a informação. Isso porque, pode gerar um sentimento de culpa muito grave dentro da criança que não entende porque uma pessoa que ela gostava tanto resolveu se matar. "Os responsáveis terão que ter um jogo de cintura em não mentir, porém medir muito bem as palavras na hora de contar".

Foto: Photocase


As crianças ainda não entendem o mundo como ele realmente é. Cabe aos pais, ou responsáveis, dar um direcionamento para que elas não se percam no meio do caminho. É uma tarefa difícil, pois não existe um manual que determine exatamente como agir nesses casos, principalmente porque cada um é único e reage de forma diferente. Se alguém encontrar dificuldade em falar a verdade para a criança sobre a morte, o ideal é procurar um especialista, que pelo menos dê uma orientação para a família. Para os adultos, a morte ainda é um grande tabu na nossa sociedade, porém, ela não necessariamente precisa ser assim do ponto de vista dos pequenos.

Para assistir:

O filme francês Ponette aborda o universo de uma menina de 4 anos, que é confrontada com a morte da mãe, mas não consegue aceitá-la e acredita que ela irá voltar para junto de si. Durante as suas tentativas para falar com a falecida, Ponette questiona adultos e outras crianças, recebendo conselhos sobre religião, filosofia, magia negra e como falar com Deus.

Ponette.
Realizado por Jacques Doillon.
França, 1996 Cor - 97 min.
Com: Victoire Thivisol, Matiaz Bureau Caton, Delphine Schiltz, Marie Trintignant, Xavier Beauvois, Claire Nebout, Auriele Verillon, Leopoldine Serre, Henri Berthon, Carla Ibled.



Atualizado em 1 Dez 2011.

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