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Arte
Por Redação Guia da Semana

Alguém viu as orelhas de Van Gogh?

Sim, talvez exista uma fórmula de sucesso teatral. Felizmente, nem todo mundo procura (só) isso.


Foto: Reprodução

Há uma página em branco que precisa ser preenchida. Ela deve ter uma história que cative o público, personagens interessantes e situações que permitam uma variação no enredo, alternando sentimentos e apresentando uma vasta gama do ser humano.

Essa é a fórmula pronta da arte, uma regrinha básica que faz os criadores arrancarem tufos de cabelo durante algumas noites. No teatro, isso aparece da seguinte maneira, caso se queira sucesso garantido: atores conhecidos nos papéis centrais, atores de teatro bons nos papéis coadjuvantes e jovens bons atores cobrindo as brechas.

Ao mesmo tempo é necessário um bom texto, com começo, meio e fim objetivos, e uma direção que não apresente muitas "invencionices", ou seja, que deixe o diretor como um juiz de futebol que não gosta de dar pênalti errado apenas para aparecer. Um pouco de humor e muita grana para produção e principalmente divulgação sempre ajuda. A quem quiser se candidatar ao novo posto de melhor produtor teatral do último minuto, está aí a receita.

Para quem realmente pensa trabalhar com arte, e não com entretenimento, essa fórmula pronta surge como uma visita inesperada na hora em que você mais quer ficar sozinho. Ou seja, pura inconveniência. Obviamente ninguém precisa ser um Van Gogh, arrancando orelhas a cada momento para criar algo significativo, mas um pouco de Barth Simpson vem a calhar.

Meu grupo teatral, a Cia de Orquestração Cênica, estreou em maio uma mostra no Centro Cultural São Paulo que reúne cinco peças. Aos que estão interessados em ver um espetáculo nos moldes que citei aí em cima, recomendo que não apareçam.

Isso não significa que o que está lá é melhor do que qualquer coisa, mesmo porque há dois espetáculos sem texto, um monólogo, uma peça que reúne oito crônicas e uma encenação a partir de textos de Samuel Beckett, até pouco tempo atrás considerado um escritor que fala sobre o nada. Ou seja, tudo para dar errado, dentro da idéia convencional de teatro.

Se dentro do interesse da sociedade atual, e talvez de todos os tempos, o que se vê são bobagens constantemente batendo recordes de audiência e espetáculos comerciais com casa cheia, por que então o cidadão aqui resolveu fazer essas peças? Para a família?

Mais ou menos. A família vai, com certeza, mas há muito público cansado da chateação da falta de ideologias do mundo atual, do status à frente de qualquer coisa, da informação tratada como produto e do marketing à frente do mérito do que está sendo vendido.

Esse público costuma invadir locais como o Espaço Unibanco, a Reserva Cultural, o Espaço dos Satyros. São pessoas cansadas também da vida, mas que não sentam em suas poltronas esperando o dia em que o mundo se transformará. Elas buscam absorver conteúdos de todas as formas. Mas numa época em que tudo é conteúdo, tudo é arte, é difícil saber diferenciar um Goethe de um Paulo Coelho. Aliás, quando estréia a novela mesmo?

Leia as colunas anteriores de Cesar Ribeiro:

? A platéia invade os camarins

? Estamos todos felizes?


? Os progressistas não ouvem bossa nova

? Um axé bem cuidado ainda é um axé

? Underground de Souza e a natureza morta

Quem é o colunista: Cesar Ribeiro.

O que faz: diretor da Cia. de Orquestração Cênica.

Pecado gastronômico: comidas gordurosas & óleos adjacentes.

Melhor lugar do Brasil: metrópoles com multidão, sirenes & fumaças.

Fale com ele: acesse o blog do autor


Atualizado em 6 Set 2011.

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