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Por Redação Guia da Semana

Ano novo ou novo ano?

Menos diálogo e mais ação - é isso que a nova ministra da pasta pretende para sua gestão.

Foto: Agência Brasil

A ministra da Cultura, Anna Buarque de Hollanda

O ano nem mesmo começou e já temos dois pontos fundamentais no que deve ser a Cultura. A eleição de Dilma modifica a gerência do Ministério da Cultura, agora liderado por Anna Buarque de Hollanda. Contrariando muitos pedidos para que Juca Ferreira continuasse, a troca expôs os dois pontos que identifiquei: primeiro, de que não será tão fácil o diálogo com a nova presidente para os artistas, visto que a pressão feita não foi nada pequena e setorizada. Ao contrário: envolveu diversas áreas e agentes culturais, com nomes de peso e importância, mas não foi suficiente para que Dilma reavaliasse suas vontades. Segundo, o discurso menos polemizador da ministra que optou, na sua posse, não esbarrar em polêmicas e identificar apenas os pontos de continuísmo dos projetos em tramitação no Congresso, somando, ainda, a tonalidade da fala a favor do artista mais do que ao servir a população.


Nos dois pontos que podem parecer circunstanciais à primeira olhada, o que se tem é uma mudança gerencial, estrutural e conceitual de como a Cultura será administrada no país. Enquanto a independência da presidente e a contenção da ministra revelam que as decisões serão menos dialogadas e mais efetivas - o que é bom se nos ativermos ao excessivo processo de discussão pública da gestão Juca, estacionada às assembleias e resoluções eternamente em refinamento, já se prevê uma linha menos precisa de observação sobre a própria pertinência da Cultura na constituição do plano de governo.

Anna de Hollanda mostrou por aqui e ali sua aptidão para a administração em ambientes culturais. Por isso, talvez, se sinta à vontade em se proteger e trabalhar menos o debate acirrado que envolve tantos interesses dos setores culturais, lembrando, como custou a Juca perceber, que muitos desses interesses escondiam em populismo a face oportunista da classe dominante. Ao se proteger, Anna pode vir a ter menos prestígio com o passar do tempo. Certamente a mesma classe, que inclui renomados artistas, indústrias culturais, produtores de toda espécie e patrocinadores gigantes travestidos de investidores preocupados, irá saltar sobre sua jugular com fome e sedução. Se Anna conseguir se manter distante e centrada em um projeto próprio, talvez a Cultura ganhe mais em resultados do que fora o plenário popular de Juca. Isso, por si só, já seria um grande acontecimento.

Acompanhar pelos jornais o desenvolvimento desse processo não será suficiente. É preciso, desta vez, que nos afastemos um pouco mais para que consigamos observá-lo em movimento. Cabe ao artista, então, realizar seu trabalho sem tanta manipulação de conchavos e planos mirabolantes para dominar o tal mercado. Enquanto nos ativermos à compreensão (correta em muitas acepções) de ser o mercado o foco principal do fazer artístico, nada do que construiremos irá além de eventos e banalidades temporárias. A expectativa de que a ministra pode vir a ser útil no baixar da bola da classe cultural e conduzi-la para uma reorganização de sua existência anima, ainda que boa quantidade dos artistas deva estar desde já sem dormir.


Anna de Hollanda tem a faca mas quem poderá lhe dar o queijo é Dilma. Sem força política junto à Presidência, a pressão da classe artística dominante será esmagadora. Apenas Dilma é capaz de sustentar Anna de Hollanda frente aos interesses mesquinhos com que a Cultura tem sido sorvida pelo mercado. O problema é que Dilma, assim como Lula, não parece muito interessada. Como sempre, o Ministério da Cultura circula os discursos presidenciais casualmente, aos interesses da fração do instante para plateias específicas. E, enquanto a Presidência não se atentar à existência da Cultura como algo mais amplo que o entretenimento, nem Gil, nem Juca e, muito menos, Anna chegarão a algum lugar. A nova presidente tem o poder de fortalecer a pasta para que a ministra possa realizar o que precisa ser realizado. Talvez essa seja, em última instância, a verdadeira revolução possível. Teremos, enfim, um Ministério da Cultura independente de pressões políticas, manipulações mercadológicas, e mais voltado à sua própria função: deixar a Cultura existir. Boa sorte pra todos nós, então.


Leia as colunas anteriores de Ruy Filho:

A Fúria domesticada

Pássaros também desejam

Desabafo eleitoral

Quem é o colunista: Ruy Filho.

O que faz: Diretor e dramaturgo.

Pecado gastronômico: Carpaccio de pato do Piselli.

Melhor lugar do Brasil: Salvador fora de temporada.

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Atualizado em 6 Set 2011.

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