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Arte
Por Redação Guia da Semana

Aversão da vida a dois

Mesmo sem grandes investimentos, o diretor e os atores mostram muito bem a história de um casal - cada um com a sua versão.

Foto: Simone Vidal


Eu fui assistir à peça "Aversão - a Comédia", escrito por Mariana Rebelo e dirigida por Rodrigo Sant`anna, em cartaz no Teatro Cândido Mendes. Foi uma bela surpresa!
 
Seria fácil julgar a peça pelo cartaz: produção de baixo custo, batalhada/suada por sua autora/produtora/atriz, com elenco de apenas dois atores... Falar mais seria incorrer num terrível preconceito da minha parte (cala a boca, João Pedro!). Afinal, o que vale é o resultado do espetáculo e, de mais a mais, quantidade não é qualidade. Mas eu confesso que não esperava muita coisa. No máximo um besteirol - uma boa dose de pipoca com tequila.
 
O meu preconceito se justifica. Já faz alguns anos que o teatro "off-Broadway carioca" (ai, ai, ai, não existe termo melhor do que esse?) vem sofrendo uma renovação natural, assim como uma cebola tem perdido as cascas e me feito chorar. Paradoxalmente, boa parte dessas montagens hoje em dia tem como objetivo o riso fácil. Sinceramente, eu até gosto... mas tudo tem limites.
 
"Aversão - a Comédia" conta a história de um casal de jovens que está se separando. Enquanto encaixotam as coisas, aproveitam para "lavar a roupa suja" e relembram os fatos que contribuíram para o rompimento. É uma guerra de versões estapafúrdias que retrata muito bem a atual geração de jovens urbanos que não namoram, "ficam"; que não se casam, "juntam".
 
"Aversão" me fez engolir a língua e os maus pensamentos sobre essa atual massa de atores ditos "desconhecidos" e produtores que escrevem e atuam. A peça é engraçada! Só isso já valeria meu ingresso. Mas além de tudo, a peça é atual, possui picardia, uma direção elegante e um elenco ousado. Se a estreia foi boa, sei que as próximas apresentações, com alguns retoques e com maior adesão do público, serão ainda melhores. A peça tem defeitos? Alguns, claro. A iluminação do teatro é muito precária, mas dá conta do recado. Em alguns momentos, as pausas longas e a falta de dinâmica dos atores me incomodaram. O texto também está longo e possui cenas redundantes que poderiam ser retiradas. O resto, não é digno de nota.
 
O ator Leandro Lamas é o responsável por grande parte do humor no espetáculo e está muito bem em seu papel. Ao vê-lo atuar, lembrei-me do elenco da peça "Surto" - único espetáculo que fez sucesso no Teatro Cândido Mendes. Lembro-me bem que, naquela época, o elenco era formado por atores talentosos e idealistas, recém-formados na Casa de Artes de Laranjeiras (CAL), amantes do teatro e avessos à péssima qualidade dos programas humorísticos da TV. Conversei com Lamas após a apresentação de "Aversão" e descobri que ele também é idealista, apaixonado pelo teatro, e - olha que coincidência - formado pela CAL. Espero sinceramente que ele continue a sua jornada no teatro e, mesmo com o sucesso - que certamente virá -, não seja estragado pelos atuais besteiróis televisivos - triste destino de todos os bons comediantes brasileiros.

Leia as colunas anteriores de João Pedro Roriz:

Tron e seus efeitos especiais

A versão 2010 de Hair

A rede social

Quem é o colunista:"Sou um bandido corrompido pelas paragens do bem, muito além do homem descrito como poeta".

O que faz: Escritor, jornalista e ator. Autor de nove livros e peças de teatro. Faz palestras em escolas de todo o Brasil. É apresentador do programa "Rio Cultural", da Rádio Rio de Janeiro.

Pecado gastronômico: Todos, principalmente cerveja quando sai com os amigos!

Melhor lugar do mundo: Sua casa, principalmente na hora de escrever e/ou quando os parentes e os amigos o visitam.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: É muito fã de Chico Buarque. Também gosta de música clássica, ópera, rock e MPB.

Para falar com ele: [email protected], ou no seu site.



Atualizado em 6 Set 2011.

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