Guia da Semana

Como lidar com os códigos dramáticos frente as modificações feitas em montagens de clássicos?

Colunista explica essa questão analisando o espetáculo Psicose 4h48.

Cena de Psicose 4h48
Foto: Divulgação


A dramaturgia contemporânea aprofunda-se sobre a solidão de cada um desde que Beckett a escancarou pela presença de mendigos e palhaços. Para ficarmos com os nomes atualmente encontrados em nossos palcos Jon Foss, Harold Pinter e Sarah Kane são claros exemplos da abordagem do indivíduo pelo silêncio e desencontro da alma com a realidade.

Em cartaz, em São Paulo, no Satyros 2, Psicose 4h48 último texto de Kane, em montagem da Marcos Damasceno Companhia de Teatro, apresenta outra oportunidade aos desconhecedores dessa abordagem da dramaturgia para se atualizarem.

Entrar na sala-porão subterrânea do teatro acaba transferindo a concretude do Real para a sublimação de um instante construído. A cada degrau, a rua, a praça, as pessoas são abandonadas, enquanto adentramos a realidade de uma existência virtual. Mas como o foco em si não é o pensamento do filósofo Pierre Levy, voltemos ao teatro.

A direção de Damasceno explicita a vontade de abstrair o drama burguês da cena, conduzindo os atores e o realismo dos diálogos a uma outra prosódia, mais próxima ao canto do que à fala. A transferência da dramaticidade do corpo "psicologizado" para a musicalidade, no abordar diferentes ritmos e dissonâncias, contudo, mais se aproxima dos preceitos trágicos do que pós-dramático especificamente.

Aí está o nó. Ao sugerir a presença de uma estética trágica julga-se a personagem que estão sob tais condições, determinando aos comportamentos em cena total incapacidade em se modificarem. Como se a solidão se formulasse inevitável e a opção pelo suicídio não tivesse solução.

Quando Sarah Kane escreveu Psicose 4h48 tratou de dar voz à inquietação proveniente da percepção de ser o homem contemporâneo incapaz de se re-significar frente à realidade. Literatura ou anúncio prematuro do seu suicídio, o fato é que identificamos as personagens irreversivelmente à autora, ficção à realidade.

Contrapondo-se a Levy, Paul Virilio vai defender a virtualização da realidade, a substituição dos valores reais pela idealização de seus contextos.

Montar as peças de Sarah Kane buscando o afastamento metafórico do real, por este se associar imediatamente aos fatos, enquanto valoriza-se o contexto deste à criação, seja objetivamente ou por negação, é igualar os conceitos de Levy e Virilio, não compreendendo que na distância filosófica das visões de mundo propostas reside igualmente um abismo estético para suas representações.

Psicose 4h48 faz-se denso, determinado, porém duro e matemático, com atores submetidos à forma, resistindo a procura de um realismo que se justifica como não-dramático, e que precisa, acima de tudo, esclarecer qual ser de fato a abordagem conceitual norteadora do teatro qual se quer apresentar, a visão de mundo qual se busca defender.

Leia as colunas anteriores de Ruy Filho:

? A contemporaneidade de uma tradição


? Closer


? Gob Squad


? O teatro de Henrique Diaz


? Mais Quero Asno... e os recursos do fomento


? El Chingo e os fantasmas de cada um


? Com prosecco e qualidade


? O teatro candango e a morte de todos os dias


? Entre o silêncio e a mudez


? A ciência como pretexto dramático


? A alma decepcionada frente à realidade


Quem é o colunista: Ruy Filho.

O que faz: diretor e dramaturgo.

Pecado gastronômico: carpaccio de pato do Piselli.


Melhor lugar do Brasil: Salvador fora de temporada.


Fale com ele: ruyfilhosp@yahoo.com.br ou acesse o blog do autor

Atualizado em 6 Set 2011.

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