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Arte
Por Redação Guia da Semana

Durante três meses

O espetáculo O inferno sou eu conta com a direção do professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, José Rubens Siqueira.

Foto: Divulgação
 
A peça O Inferno Sou Eu trata da passagem de três meses de Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre pelo Brasil, especificamente pelo Recife, na década de 60. O cenário é o quarto da casa de uma amiga do casal, com quem Sartre terá um caso e Simone, que contraiu tifo, se encontra enferma e tem como acompanhante a brasileira Dorinha, estudante de letras que domina a língua francesa e se esforçou em ser a escolhida para cuidar da estadia de Simone, por quem tem enorme admiração.

No princípio da peça, instala-se uma relação aparentemente frívola, de fã e celebridade, que possui um caráter folhetinesco perigoso para a grandiosidade, força e relevância da personalidade em exposição.

Mas é interessante nesse meandro, o "diz-que-diz" trazido por Dorinha sobre a irreverente Simone de Beauvoir e Sartre, como por exemplo, a fama de que ela e seu companheiro "comem criancinhas"!

Essa visão deturpada sobre os intelectuais de vanguarda, visto aqui de dentro do Brasil, reflete a propaganda política disseminada pelo conflito ideológico da época e de pessoas crentes da religião, como a mãe de Dorinha, católica por influência cultural mais do que por convicção.

No desenvolvimento da peça compreendemos que este quadro inicial é um mal necessário que é preciso passar para ressaltar o pensamento libertário de Simone e Sartre diante das manifestações políticas e sociais que emergiam em sua época e que se constituíam na matéria-prima do existencialismo por eles sustentado, como por exemplo, o conflito em Argélia, em Cuba e até o feminismo, no que diz respeito à liberdade da mulher na exploração dos seus sentimentos frente às instituições.

A relação entre as duas personagens estabelece-se de maneira espirituosa na forma de diálogos leves. O trajeto de Dorinha é crescente, conquistado por seu atrevimento que resulta numa proximidade com Simone de Beauvoir, ficando a par dos assuntos em que ela está envolvida, como o caso amoroso com Nelson Algreen de quem espera uma correspondência dos EUA.

Simone apenas confidencia sua intimidade para seu caderno de anotações ao contrário de Dorinha que expõe por completo sua vida, entre isso o namoro com Nivaldo e seus planos de levar uma vida juntos que, por influência de Simone, não sabe mais as razões que os unem. No curso da peça, as histórias de Dorinha provocam em Simone aberturas que acabam por compartilhar sobre sua vida amorosa nada convencional.  
 
Os conselhos de Simone sobre os planos de Dorinha são práticos, a mulher está numa fase de conquista e transformação e assim Dorinha deve pensar em sua carreira e em seu futuro, seu discurso é muito influente em relação aos rumos que Dorinha tomará.

A genialidade da peça reside em mostrar as escolhas de cada personagem frente à vida e à própria existência para concluirmos dessa oposição de personalidades os valores que regem o comportamento de cada uma e o resultado disso no processo que busca a felicidade.

A peça é de autoria de Juliana Rosenthal K. e foi dirigida pelo professor da PUC-SP, José Rubens Siqueira. Marisa Orth representa Simone de Beauvoir e consegue se descolar de seu rótulo de Magda, trazendo consistência à personalidade da escritora e Paula Wenfeld, no papel de Dorinha, com sua simplicidade reverente, faz o contraponto à sofisticação de Simone.

Quem é a colunista: Renata Bar Kusano.

O que faz: Publicidade e Propaganda (FAAP), uma aprendizagem em edição em vídeo e suas correlações.

Pecado Gastronômico: carré de vitela ao molho de hortelã e camarão à provençal! 

O melhor lugar do mundo: debaixo d´água.

Fale com ela: rebarkusano @gmail.com


Atualizado em 6 Set 2011.

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