Guia da Semana

Foto: Arquivo Pessoal / Editora Agir

Temas como solidão, amor e sexo são explorados em suas obras

"Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos. "/ "A vida é agora, aprende."/ A solidão às vezes é tão nítida como uma companhia."/ "Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio."/ A perda do amor é igual a perda da morte. Só que dói mais."

Fragmentos disso que chamamos de "minha vida" é o título da crônica publicada no jornal O Estado de S Paulo, em 1986, mas poderia facilmente ilustrar a presença de Caio Fernando Abreu na literatura atual. Em 25 de fevereiro, completa-se 15 anos da morte dele que é considerado escritor da paixão, fotógrafo da fragmentação contemporânea, jornalista e dramaturgo.

Caio F.(apelido que ele próprio se deu, em referência à personagem Cristiane F.) é um dos poucos que alcançou a glória ainda em vida - conquistando três prêmios Jabuti com os livros o Triângulo das Águas (em 1984) e Os dragões não conhecem o paraíso (em 1989) e Ovelhas Negras (em 1996) - e que é lido e relido cada vez mais nos dias de hoje. Em um fenômeno semelhante a de autores como Clarice Lispector e Veríssimo, as frases de seus contos se espalham pela Internet e redes sociais na mesma proporção que encanta novos leitores.

Com acidez melancólica e uma visão dramática do mundo moderno, ele aborda temas como solidão, amor, sexo, loucura, chegando à repressão política e à violência. "Um dos traços fortes é a exploração do drama individual de suas personagens sem, entretanto, deixar de reconhecer os nexos desse drama com grupos ou coletividades", opina Arnaldo Franco Junior, professor do curso de Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus São José do Rio Preto - SP.

Ao tratar de temáticas que se mantêm atuais, mistura realidade e ficção de uma forma peculiar. Para Nelson Luís Barbosa, autor da tese de doutorado da Universidade de São Paulo (USP) Infinitivamente pessoal: a autoficção de Caio Fernando Abreu, o biógrafo da emoção, o escritor produz uma escrita autoficcional, em que ele torna ficção a sua própria realidade, contando sobre sua vida, mas sem ter a necessidade de que ela seja compreendida como real.

É nesse sentido que, segundo Nelson, Caio Fernando Abreu inaugura, de certa forma, uma linguagem blogueira. "A escrita é autoficcional, o blogueiro se revela por meio de uma imagem que ele quer ter dele mesmo. Esse é um traço da literatura atual contemporânea", explica. Em sua primeira obra, Limite Branco, o escrito gaúcho alterna a primeira e terceira pessoas na narrativa, marca que também é típica de blogs.

Mesmo com dois romances no currículo, Limite Branco e Onde Andará Dulce Veiga?, são os livros de contos as grandes estrelas de sua bibliografia. "O Caio tinha uma vida corrida, escrevia para revistas e jornais, sempre com uma demanda muito grande. O conto foi o gênero que melhor se adaptou à necessidade de tempo fragmentado e eu considero essa adaptação muito propícia, ele viveu a literatura mais que qualquer outra coisa na sua vida", acredita Nelson.

Com a ajuda dos dois especialistas, o Guia da Semana selecionou dez célebres contos essenciais de Caio Fernando Abreu. Confira a lista e trechos de cada um deles!

Contos de Caio F.


Em São Paulo, estreia a peça teatral Lixo e Purpurina, inspirada na obra homônima de Caio Fernando Abreu. Confira resenha!

Atualizado em 6 Set 2011.